Com o texto seguinte, encerro a minha participação no blog da nossa igreja, Batista em Barão Geraldo. Quero agradecer o tempo que você gastou lendo, quem sabe rindo, meditando ou até mesmo sofrendo, discordando ou criticando. Você se tornou um amigo virtual, de certo modo anônimo, mas mesmo no anonimato próprio da era digital, um incentivador. Não foram textos pensandos em profundade. Apenas textos, nada mais, nada menos. Ao lê-los, foram transformados e recriados pela sua interpretação pessoal, movida pela imaginação e memória de um um mundo que é só seu. É essa dinâmica que me fascina na literatura.
Grato, e no Amor de Jesus,
Natanael Gabriel da Silva
terça-feira, 17 de junho de 2008
O QUE E COM QUEM APRENDEMOS
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 08 de junho de 2008)
Acho que Z., naquela tarde, estava drogado. Sou péssimo em conhecer essas coisas. Z. tem 17 anos e veio do Piauí, Teresina. Ficou eufórico quando mencionei a beleza daquela cidade, do trajeto de carro pelo interior do Estado, mais pelo sul, passando por Brasília e seguindo, não por Palmas, mas à direita, direto e olhando para ver o palácio onde está assentado o poder, hotéis caros, cheio de gente que se encontra acima da ética, basta ter amigos. E haja amigos!
Os amigos do poder também ficam do lado direito, são portanto reacionários por vocação e geografia. Depois você segue em frente, e logo se depara com os buracos bem na saída do quintal do poder, e se não fosse a sua consciência do lugar, afirmaria com toda a certeza de que o sítio estaria abandonado. Estrada ruim, muito ruim. Daí você segue para Correntes e finalmente, um posto marca a entrada ao sertão do Piauí, e dependendo da época terá a oportunidade de ver os leitos dos rios em tempo de seca. Impagável. Z. disse pra mim: Foi por lá? E respondi: Sim, e nem carro era, Pálio 97 mil. Daí ele disse o nome da estrada, que até então eu não sabia. Você também não vai saber o que isso significa, só passando por lá, mas como nunca mais devo escrever sobre isso, não posso deixar de compartilhar contigo o trecho de estrada mais famoso daquelas paradas, ainda na Bahia, entrando pelo sul do Piauí, cerca de 60 quilômetros com a demora de quatro horas para travessia. Z. afirmou de novo: Foi por lá? Pela vaquejada?
Com ou sem vaquejada, o certo era que Z., agora com nome e lugar de nascimento definido, fazia o povo rir e parecia meio fora de lugar. O assunto era Relacionamento Interpessoal. Daí ficou pior. Uma pessoa nas condições normais de temperatura e pressão já não saberia dizer o que isso significa, imagine Z.! Ele entregou um pequeno texto de exercício, como pouquíssimas palavras, e muitos erros: lavá loças, entre eles. Não dá pra explicar a diferença entre lavá loças e Relacionamento Interpessoal. Lá pelas tantas disse: Professor, um dia joguei uma cadeira na professora e fui expulso da escola. Também, ela jogou um giz em mim! Que é isso mano?! Sou homem! A aula rodou, esquecendo a vaquejada, o interior do Piauí e a cadeirada na professora. Piauí voltou no final, não sei se movido por uma lembrança que nunca lhe sai da cabeça, Z. me perguntou se eu sabia o que era palmatória. Disse que sim. Olhou para mim – Aprendi isso no Piauí. A professora o fazia esticar a mão aberta para receber a punição. Tinha então quatro anos de idade.
Olhei para ele e fiquei pensando numa mão gordinha, cheia de dobras, com a palma para cima. As palmas das mãos viradas para cima, no comportamento humano, são símbolo de quem se humilha em busca de piedade. Descobri que eu precisava aprender a lavá loças, e esquecer um pouco o Relacionamento Interpessoal.
Não sou fatalista em achar que tudo na vida de Z. depende de sua mão gordinha aos quatro anos sendo castigada por um imbatível gigante com várias vezes o seu tamanho. Também não sou ingênuo a ponto de achar que aquilo não significou nada. Uma lembrança dos quatro anos só pode ser a de alguma coisa muito importante. Z. não aprendeu a escrever com a professora, mas a vida lhe ensinou que ninguém, nunca mais, bateria em sua mão: é preferível jogar cadeiras, e o sabor disso não tem preço.
A professora achou que estava ensinando uma coisa, e era outra.Acho que nunca se deu conta disso e, se ainda estiver na ativa, na sala dos professores comenta que filho nenhum, de ninguém me faz de tonta, o negócio comigo é assim...
Z. me fez sentir medo da minha própria ignorância. Uma das regras básicas do Relacionamento Interpessoal é que somente uma outra pessoa pode ser para mim um espelho e dizer quem de fato sou. É simples. Quando você quer saber se o cabelo está bom, a barba bem feita e o que fazer para esconder as rugas ou a careca, a primeira coisa é olhar-se num espelho. Agora, quando você deseja saber da própria alma, sentimentos, e medir o tamanho do amor, da paciência, e se conhecer um pouco mais, não basta olhar para aquele tipo de espelho. Você precisa de um outro. Precisa olhar para uma outra pessoa. Daí você compara o comportamento do outro, com o seu comportamento e faz uma análise. É o escape. Você procura uma pessoa amiga, e se deixa invadir na vida pessoal. A pessoa entra no seu mundo, só pela conversa, e você, que estava com medo de entrar sozinho em si mesmo, pega na mão dela e vai atrás. O outro funciona como se fosse um guia, com facão na mão abrindo picada e uma lanterna, porque o interior da gente é sempre escuro. O outro vai iluminando o caminho e dando nome aos seus sentimentos. Parece que tudo fica mais claro. Pessoas precisam de pessoas. Só uma outra pessoa pode ser espelho para alguém, e o pior é que sempre será, de um modo ou de outro, à convite ou por agressão. Fiquei com medo de fazer parte do segundo grupo.
Uma criança, aos quatro anos pode aprender a escrever lavá loças, mas também pode conhecer o mundo da violência, e isso dentro do lugar dos sonhos chamado escola. Só que não é só a escola a vilã. Pode ser a família, e quem sabe a igreja, que passará a vida toda tentando ensinar amor para quem fixou a palmatória como a comunicação mais cruel e desumana. Sob o clima da responsabilidade, seriedade e compromisso profissional, ficam disfarçadas as agressividades de quem faz uma coisa, quando o resultado é outro, no medo que, quando e se sumir, manda buscar outro lá no Piauí, como diria Belchior.
O apóstolo Paulo, conversando sobre o que se ensina e com quem se aprende, diz: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. É isso aí. Ensinar (quase) qualquer um ensina, agora só quem é pessoa vai além dos livros, fora do texto e dentro da vida. Isso é válido para pais, professores e religiosos. Talvez a tarefa mais difícil do ser humano não seja a de passar conteúdos intrincados, cheios de fórmulas que logo serão esquecidas, memorização de doutrinas e ritos confessionais a serem repetidos, como se o verdadeiro amor estivesse ali. É preciso um pouco mais. Livros, você os encontra nas prateleiras, mas só o amor vem do coração. Acho que o lavá loças está correto. Mais próximo da vida de Z. que o meu Relacionamento Interpessoal. Z. caso seja possível um dia, perdoe a minha colega, ela não sabia o que estava fazendo.
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 08 de junho de 2008)
Acho que Z., naquela tarde, estava drogado. Sou péssimo em conhecer essas coisas. Z. tem 17 anos e veio do Piauí, Teresina. Ficou eufórico quando mencionei a beleza daquela cidade, do trajeto de carro pelo interior do Estado, mais pelo sul, passando por Brasília e seguindo, não por Palmas, mas à direita, direto e olhando para ver o palácio onde está assentado o poder, hotéis caros, cheio de gente que se encontra acima da ética, basta ter amigos. E haja amigos!
Os amigos do poder também ficam do lado direito, são portanto reacionários por vocação e geografia. Depois você segue em frente, e logo se depara com os buracos bem na saída do quintal do poder, e se não fosse a sua consciência do lugar, afirmaria com toda a certeza de que o sítio estaria abandonado. Estrada ruim, muito ruim. Daí você segue para Correntes e finalmente, um posto marca a entrada ao sertão do Piauí, e dependendo da época terá a oportunidade de ver os leitos dos rios em tempo de seca. Impagável. Z. disse pra mim: Foi por lá? E respondi: Sim, e nem carro era, Pálio 97 mil. Daí ele disse o nome da estrada, que até então eu não sabia. Você também não vai saber o que isso significa, só passando por lá, mas como nunca mais devo escrever sobre isso, não posso deixar de compartilhar contigo o trecho de estrada mais famoso daquelas paradas, ainda na Bahia, entrando pelo sul do Piauí, cerca de 60 quilômetros com a demora de quatro horas para travessia. Z. afirmou de novo: Foi por lá? Pela vaquejada?
Com ou sem vaquejada, o certo era que Z., agora com nome e lugar de nascimento definido, fazia o povo rir e parecia meio fora de lugar. O assunto era Relacionamento Interpessoal. Daí ficou pior. Uma pessoa nas condições normais de temperatura e pressão já não saberia dizer o que isso significa, imagine Z.! Ele entregou um pequeno texto de exercício, como pouquíssimas palavras, e muitos erros: lavá loças, entre eles. Não dá pra explicar a diferença entre lavá loças e Relacionamento Interpessoal. Lá pelas tantas disse: Professor, um dia joguei uma cadeira na professora e fui expulso da escola. Também, ela jogou um giz em mim! Que é isso mano?! Sou homem! A aula rodou, esquecendo a vaquejada, o interior do Piauí e a cadeirada na professora. Piauí voltou no final, não sei se movido por uma lembrança que nunca lhe sai da cabeça, Z. me perguntou se eu sabia o que era palmatória. Disse que sim. Olhou para mim – Aprendi isso no Piauí. A professora o fazia esticar a mão aberta para receber a punição. Tinha então quatro anos de idade.
Olhei para ele e fiquei pensando numa mão gordinha, cheia de dobras, com a palma para cima. As palmas das mãos viradas para cima, no comportamento humano, são símbolo de quem se humilha em busca de piedade. Descobri que eu precisava aprender a lavá loças, e esquecer um pouco o Relacionamento Interpessoal.
Não sou fatalista em achar que tudo na vida de Z. depende de sua mão gordinha aos quatro anos sendo castigada por um imbatível gigante com várias vezes o seu tamanho. Também não sou ingênuo a ponto de achar que aquilo não significou nada. Uma lembrança dos quatro anos só pode ser a de alguma coisa muito importante. Z. não aprendeu a escrever com a professora, mas a vida lhe ensinou que ninguém, nunca mais, bateria em sua mão: é preferível jogar cadeiras, e o sabor disso não tem preço.
A professora achou que estava ensinando uma coisa, e era outra.Acho que nunca se deu conta disso e, se ainda estiver na ativa, na sala dos professores comenta que filho nenhum, de ninguém me faz de tonta, o negócio comigo é assim...
Z. me fez sentir medo da minha própria ignorância. Uma das regras básicas do Relacionamento Interpessoal é que somente uma outra pessoa pode ser para mim um espelho e dizer quem de fato sou. É simples. Quando você quer saber se o cabelo está bom, a barba bem feita e o que fazer para esconder as rugas ou a careca, a primeira coisa é olhar-se num espelho. Agora, quando você deseja saber da própria alma, sentimentos, e medir o tamanho do amor, da paciência, e se conhecer um pouco mais, não basta olhar para aquele tipo de espelho. Você precisa de um outro. Precisa olhar para uma outra pessoa. Daí você compara o comportamento do outro, com o seu comportamento e faz uma análise. É o escape. Você procura uma pessoa amiga, e se deixa invadir na vida pessoal. A pessoa entra no seu mundo, só pela conversa, e você, que estava com medo de entrar sozinho em si mesmo, pega na mão dela e vai atrás. O outro funciona como se fosse um guia, com facão na mão abrindo picada e uma lanterna, porque o interior da gente é sempre escuro. O outro vai iluminando o caminho e dando nome aos seus sentimentos. Parece que tudo fica mais claro. Pessoas precisam de pessoas. Só uma outra pessoa pode ser espelho para alguém, e o pior é que sempre será, de um modo ou de outro, à convite ou por agressão. Fiquei com medo de fazer parte do segundo grupo.
Uma criança, aos quatro anos pode aprender a escrever lavá loças, mas também pode conhecer o mundo da violência, e isso dentro do lugar dos sonhos chamado escola. Só que não é só a escola a vilã. Pode ser a família, e quem sabe a igreja, que passará a vida toda tentando ensinar amor para quem fixou a palmatória como a comunicação mais cruel e desumana. Sob o clima da responsabilidade, seriedade e compromisso profissional, ficam disfarçadas as agressividades de quem faz uma coisa, quando o resultado é outro, no medo que, quando e se sumir, manda buscar outro lá no Piauí, como diria Belchior.
O apóstolo Paulo, conversando sobre o que se ensina e com quem se aprende, diz: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. É isso aí. Ensinar (quase) qualquer um ensina, agora só quem é pessoa vai além dos livros, fora do texto e dentro da vida. Isso é válido para pais, professores e religiosos. Talvez a tarefa mais difícil do ser humano não seja a de passar conteúdos intrincados, cheios de fórmulas que logo serão esquecidas, memorização de doutrinas e ritos confessionais a serem repetidos, como se o verdadeiro amor estivesse ali. É preciso um pouco mais. Livros, você os encontra nas prateleiras, mas só o amor vem do coração. Acho que o lavá loças está correto. Mais próximo da vida de Z. que o meu Relacionamento Interpessoal. Z. caso seja possível um dia, perdoe a minha colega, ela não sabia o que estava fazendo.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
A FUNDADORA DA IGREJA
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado por ocasião do trigésimo aniversário de organização da Igreja Batista em Barão Geraldo, 31 de maio de 01 de junho de 2008)
Hoje quero defender uma tese diferente de tudo o que você já ouviu, leu e viu sobre o surgimento da igreja. Num dia desses participei de um concílio - aquela entrevista entre pastores para saber se um outro pensa igual e pode ser um deles - e uma das perguntas foi sobre o quando da igreja ter sido constituída. A resposta, por convicção ou prudência, foi a de que a igreja, como nós a conhecemos, se fez no dia do pentecostes. Foi claro. Teria sido naquela ocasião que as dimensões fundamentais da comunidade convergiram sinteticamente num único momento: manifestação histórica e definitiva do Espírito Santo, sacrifício vicário de Jesus dado como ato completo, cumprimento de uma profecia, pregação, conversões, universalização do conteúdo de fé a todas as nações, e por aí se vai. Tem gente que afirma, de pé junto, que a comunidade apostólica, muito antes disso, já se constituía como igreja, uma vez que a pessoalidade de Jesus não poderia ser considerada menor que a do Espírito Santo.
Ao mencionar o pentecostes, o examinador deu um sorriso meio de canto: eles estavam acreditando do mesmo modo.
Eu vou deixar esse pessoal discutindo. Nunca foi possível a comprovação de uma coisa ou outra e quero fundar uma nova teoria: a igreja nasceu com a viúva pobre. Já fundei a igreja do abraço, agora vou encontrar um outro lugar para apontar o surgimento da igreja. Nada de apóstolos, profetas e homens. Nada disso. A igreja sendo fundada por uma mulher, e ainda mais viúva. Fora do círculo apostólico, para alguns suspeitos de defender o próprio cantinho. Também sem sobrenaturalismos e das longas discussões sobre dons espirituais, se há ou não um fenômeno do falar em línguas, estrangeiras ou estranhas, nada daquele debate da preocupação com o texto literal cuja interpretação de todo um credo depende de um advérbio “línguas como que de fogo”, e daí ficar discutindo se era “como” mesmo ou se há uma indicação de um fogo simbólico que tem que tomar conta da igreja que “pega fogo” ou o seu contrário, “que povo frio!”, emprestado do Apocalipse. Nada disso, e ficar contando quantas nações havia por ali, se a igreja de Roma nasceu mesmo daquele grupo ou não, se Pedro dizia uma palavra e depois a repetia em cada idioma, até completar o número das tantas etnias mencionadas, ou se Pedro pregou um sermão só e o Espírito Santo é que o interpretou de acordo com o lugar de nascimento de cada um, se o dom estava em Pedro, ou fora dele, nada de ficar especulando essas coisas para reafirmar essa doutrina ou aquela como prova de que, no nascimento da igreja, aconteceram coisas que terão que se repetir pelos séculos dos séculos. Gente negando uma coisa, afirmando outra, ênfase no discurso de Pedro e no sobrenaturalismo ali manifestado. Quero esquecer essa discussão que busca esse tipo de fundamento da igreja, que tem que começar com um problema teológico, sem resposta, para fazer do intérprete que arrisca uma opinião parecer mais sabido do que de fato é. Vamos esquecer esse negócio.
Enquanto você fica pensando no pentecostes e tenta encontrar num dicionário bíblico o que aquele dia significava, e ler o texto outra vez para saber quem está com a razão, quero convidá-lo a pensar na viúva, e já vou afirmando que ela entregou as moedinhas com ou sem Espírito Santo, com ou sem sacrifício completo de Jesus, com ou sem sermão, com ou sem conversões, se tinha gente olhando ou não, se era ou não a sua obrigação, se fez ou não para ser observada por outros, se desejava ou não receber tudo de volta em forma de qualquer benefício, se tinha nome ou não, se desejava receber galardão ou não, se sabia o que era galardão pra começar, se isso iria fazê-la estar mais próxima de Deus ou não, se era o dízimo ou não, se agradeceu a Deus pelo privilégio de ofertar ou não, se teve medo do dia seguinte, se ia faltar pão, ou não, se tinha gente que seria batizada por conta daquele testemunho ou não, se os outros estavam fazendo o mesmo ou não, se o valor era justo para todo o mundo ou não, se a comunidade religiosa para a qual contribuía estava certa ou não, se a doutrina estava sendo focada era correta ou não, se o sacerdote iria roubar as suas moedas ou não, se havia pré-milenismo ou não - quem escreveu Hebreus?
Caso você seja rigoroso com texto, é possível afirmar que a viúva sequer teve uma experiência de profundidade com Deus, não levantou a mão como sinal de conversão, não disse palavras-chaves, aliás não disse nada. Talvez nem soubesse da existência de Jesus. Com certeza não foi batizada, não teve expulsão de demônio, nem cura, ninguém sendo carregado em maca, cego vendo ou aleijado andando. Não teve nada disso. Não se sabe se viveu o suficiente para ver o crescimento da igreja, ou se acabou se tornando de fato uma cristã, com profissão de fé e tudo o que tem direito. Não teve texto, sequer a gente pode saber se era ou não alfabetizada - parece que não - se tinha ou não algum amparo. Afinal, o que fizera para conseguir as duas moedinhas? Que diferença as duas moedinhas fariam para o Reino de Deus? Sem intenção, declaração formal, expectativas, doutrina ou cobranças. Nada. Sem milênio, circuncisão ou predestinação. Nada. Apenas uma coisa, e tem que ter alguma coisa: as ofertas eram depositadas na arca do tesouro, e o nome já diz que não era lugar para o que sobra, conhecido mais como rejeito ou lixo. Na casa do tesouro funciona assim: ou é tudo, ou nada. Ou é tesouro, ou não serve. Se vai depositar alguma coisa, que seja algo muito, mas muito importante.
E daí? O que acha da minha teoria? Não precisa responder. Eu sei que você vai continuar com o seu discurso tentando reafirmar que a igreja teria que ter começado com algo meio confuso, meio escondido e muito misterioso. Afinal de contas uma viúva, é apenas uma viúva, não forma uma comunidade. Só Lucas se importou com ela. Não o culpo. Já acreditei nisso. Hoje prefiro entender a igreja como tendo surgido a partir dos excluídos, de quem não tem esperança, interesse ou qualquer tentativa meio escondida de trocar uma coisa por outra, um benefício por outro, uma entrega qualquer por algo melhor, a sobra pelo tesouro, mesmo que este receba o nome de eternidade.
Bem, talvez essa minha teoria não sobreviva ao amanhecer, e seja apenas um sonho, em forma de recordação: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade (Jeremias 2:2,3 parciais). Sabe de uma coisa? Tenho muita saudade disso! É bom saber que um dia, uma mulher, viúva e anônima, desafiou todo um sistema religioso, e se fez exemplo de pureza e entrega.
(texto publicado por ocasião do trigésimo aniversário de organização da Igreja Batista em Barão Geraldo, 31 de maio de 01 de junho de 2008)
Hoje quero defender uma tese diferente de tudo o que você já ouviu, leu e viu sobre o surgimento da igreja. Num dia desses participei de um concílio - aquela entrevista entre pastores para saber se um outro pensa igual e pode ser um deles - e uma das perguntas foi sobre o quando da igreja ter sido constituída. A resposta, por convicção ou prudência, foi a de que a igreja, como nós a conhecemos, se fez no dia do pentecostes. Foi claro. Teria sido naquela ocasião que as dimensões fundamentais da comunidade convergiram sinteticamente num único momento: manifestação histórica e definitiva do Espírito Santo, sacrifício vicário de Jesus dado como ato completo, cumprimento de uma profecia, pregação, conversões, universalização do conteúdo de fé a todas as nações, e por aí se vai. Tem gente que afirma, de pé junto, que a comunidade apostólica, muito antes disso, já se constituía como igreja, uma vez que a pessoalidade de Jesus não poderia ser considerada menor que a do Espírito Santo.
Ao mencionar o pentecostes, o examinador deu um sorriso meio de canto: eles estavam acreditando do mesmo modo.
Eu vou deixar esse pessoal discutindo. Nunca foi possível a comprovação de uma coisa ou outra e quero fundar uma nova teoria: a igreja nasceu com a viúva pobre. Já fundei a igreja do abraço, agora vou encontrar um outro lugar para apontar o surgimento da igreja. Nada de apóstolos, profetas e homens. Nada disso. A igreja sendo fundada por uma mulher, e ainda mais viúva. Fora do círculo apostólico, para alguns suspeitos de defender o próprio cantinho. Também sem sobrenaturalismos e das longas discussões sobre dons espirituais, se há ou não um fenômeno do falar em línguas, estrangeiras ou estranhas, nada daquele debate da preocupação com o texto literal cuja interpretação de todo um credo depende de um advérbio “línguas como que de fogo”, e daí ficar discutindo se era “como” mesmo ou se há uma indicação de um fogo simbólico que tem que tomar conta da igreja que “pega fogo” ou o seu contrário, “que povo frio!”, emprestado do Apocalipse. Nada disso, e ficar contando quantas nações havia por ali, se a igreja de Roma nasceu mesmo daquele grupo ou não, se Pedro dizia uma palavra e depois a repetia em cada idioma, até completar o número das tantas etnias mencionadas, ou se Pedro pregou um sermão só e o Espírito Santo é que o interpretou de acordo com o lugar de nascimento de cada um, se o dom estava em Pedro, ou fora dele, nada de ficar especulando essas coisas para reafirmar essa doutrina ou aquela como prova de que, no nascimento da igreja, aconteceram coisas que terão que se repetir pelos séculos dos séculos. Gente negando uma coisa, afirmando outra, ênfase no discurso de Pedro e no sobrenaturalismo ali manifestado. Quero esquecer essa discussão que busca esse tipo de fundamento da igreja, que tem que começar com um problema teológico, sem resposta, para fazer do intérprete que arrisca uma opinião parecer mais sabido do que de fato é. Vamos esquecer esse negócio.
Enquanto você fica pensando no pentecostes e tenta encontrar num dicionário bíblico o que aquele dia significava, e ler o texto outra vez para saber quem está com a razão, quero convidá-lo a pensar na viúva, e já vou afirmando que ela entregou as moedinhas com ou sem Espírito Santo, com ou sem sacrifício completo de Jesus, com ou sem sermão, com ou sem conversões, se tinha gente olhando ou não, se era ou não a sua obrigação, se fez ou não para ser observada por outros, se desejava ou não receber tudo de volta em forma de qualquer benefício, se tinha nome ou não, se desejava receber galardão ou não, se sabia o que era galardão pra começar, se isso iria fazê-la estar mais próxima de Deus ou não, se era o dízimo ou não, se agradeceu a Deus pelo privilégio de ofertar ou não, se teve medo do dia seguinte, se ia faltar pão, ou não, se tinha gente que seria batizada por conta daquele testemunho ou não, se os outros estavam fazendo o mesmo ou não, se o valor era justo para todo o mundo ou não, se a comunidade religiosa para a qual contribuía estava certa ou não, se a doutrina estava sendo focada era correta ou não, se o sacerdote iria roubar as suas moedas ou não, se havia pré-milenismo ou não - quem escreveu Hebreus?
Caso você seja rigoroso com texto, é possível afirmar que a viúva sequer teve uma experiência de profundidade com Deus, não levantou a mão como sinal de conversão, não disse palavras-chaves, aliás não disse nada. Talvez nem soubesse da existência de Jesus. Com certeza não foi batizada, não teve expulsão de demônio, nem cura, ninguém sendo carregado em maca, cego vendo ou aleijado andando. Não teve nada disso. Não se sabe se viveu o suficiente para ver o crescimento da igreja, ou se acabou se tornando de fato uma cristã, com profissão de fé e tudo o que tem direito. Não teve texto, sequer a gente pode saber se era ou não alfabetizada - parece que não - se tinha ou não algum amparo. Afinal, o que fizera para conseguir as duas moedinhas? Que diferença as duas moedinhas fariam para o Reino de Deus? Sem intenção, declaração formal, expectativas, doutrina ou cobranças. Nada. Sem milênio, circuncisão ou predestinação. Nada. Apenas uma coisa, e tem que ter alguma coisa: as ofertas eram depositadas na arca do tesouro, e o nome já diz que não era lugar para o que sobra, conhecido mais como rejeito ou lixo. Na casa do tesouro funciona assim: ou é tudo, ou nada. Ou é tesouro, ou não serve. Se vai depositar alguma coisa, que seja algo muito, mas muito importante.
E daí? O que acha da minha teoria? Não precisa responder. Eu sei que você vai continuar com o seu discurso tentando reafirmar que a igreja teria que ter começado com algo meio confuso, meio escondido e muito misterioso. Afinal de contas uma viúva, é apenas uma viúva, não forma uma comunidade. Só Lucas se importou com ela. Não o culpo. Já acreditei nisso. Hoje prefiro entender a igreja como tendo surgido a partir dos excluídos, de quem não tem esperança, interesse ou qualquer tentativa meio escondida de trocar uma coisa por outra, um benefício por outro, uma entrega qualquer por algo melhor, a sobra pelo tesouro, mesmo que este receba o nome de eternidade.
Bem, talvez essa minha teoria não sobreviva ao amanhecer, e seja apenas um sonho, em forma de recordação: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade (Jeremias 2:2,3 parciais). Sabe de uma coisa? Tenho muita saudade disso! É bom saber que um dia, uma mulher, viúva e anônima, desafiou todo um sistema religioso, e se fez exemplo de pureza e entrega.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
PAULO, O VELHO - ASSIM NASCE UM PASTOR
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(ao meu amigo, hoje colega, Jeferson Rodolfo Cristianini, quando da sua ordenação ao Ministério Pastoral, publicado no boletim de ordenação, Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 e 25 de maio de 2008)
A interpretação da vida, pelo caminho da memória é coisa de doido. Paul Ricoeur diz que o esquecimento, possivelmente, ofereceria elementos mais importantes para a compreensão da vida que a memória. Esta é seletiva, muitas vezes triunfalista, contaminada com as emoções e quase sempre quando dela se faz uso, não se sabe direito se o imaginário não está invertendo os acontecimentos, coisas que pareciam ter sido ditas depois, poderiam ser anteriores, detalhes que se perderam, julgamentos, palavras ditas, tudo misturado com vida, dor, alegria e expectativas criam uma indagação crônica sobre a serviço de quem recordamos e revivemos o que talvez jamais tenha acontecido. Pelos sonhos da memória resgatamos o que jamais fomos, mas nos tornamos como sendo, porque a memória é a interpretação do presente. Você pensa que está se lembrando do passado, mas foi o presente que o fez pensar e recuperar coisas que estavam escondidas, quietas, sufocadas e perdidas. Daí você jamais saberá a diferença entre uma coisa e outra. É como se você tentasse comparar fotografias da vida, o momento paralisado pelo tempo. Nelas é possível observar os detalhes, lançar um olhar curioso em busca dos sete erros, como se fosse brincadeira em quadrinhos, e daí fazer um diagnóstico modesto: foi assim..., ou um talvez tenha sido assim... – duvidoso, porém humano.
É essa a minha leitura dos últimos escritos de Paulo, um humano, demasiadamente humano. Tomado pelo esquecimento dos grandes tratados de teologia, do primeiro período, o que restou foi o vivido, não o conceituado. É como se tivesse havido dois Paulos, um antes e um depois, um jovem e um velho. Dois Paulos, até parece coisa de academia, que fica dividindo gente como se fosse queijo. É um tal de jovem Heidegger, e segundo Heidegger, primeiro, segundo e (talvez) terceiro Rahner. Você não conhece nem bem um, quanto mais três do mesmo que virou outro.
Paulo, o jovem! Já leu a intrincada Carta aos Romanos, e seu discurso da possibilidade teológica de inclusão dos gentios? Texto complicado, não é? Já leu a Carta aos Gálatas e o combate declarado ao judaísmo? Lembra-se de Paulo confrontando Pedro, lá no capítulo dois? E as cartas Aos Coríntios? Na primeira, inconformado com a imoralidade, recomenda que se entregue uma pessoa a Satanás! Uau! Pois é, esse foi o Paulo do começo, o que atropela, forte, destemido, corajoso, em alguns momentos até impiedoso. Não sei se estas se tornaram memórias tristes, já que nunca mais voltou a mencioná-las. Já pensou se Paulo mantivesseaquele discurso do “eu não mudo?” Depois a gente precisa esquecer, e tem que ser de propósito. Não estou falando de perdão, mas é quase. Vez por outra, você precisa formatar a memória, salvar o necessário num canto, compactado, e apagar tudo como se fizesse uma retífica. A cabeça da gente fica lenta com tantos arquivos temporários. Daí você pode olhar o próprio passado como se tivesse sido uma outra pessoa. E era. Pode rir, sentir pena ou vergonha de si mesmo. Isso faz parte.
O jovem Paulo morreu na prisão. Morreu antes da morte, morreu no esquecimento, sepultado pela memória, que matou outras memórias, um esquecer a impiedade praticada em nome da justiça(?), ou um amor defendido por meio da impaciência (que alguns chamam de sinceridade) (?), ou ainda de uma liberdade de expressão sob o domínio de um único controle(?), o inventário de sofrimento, que depois perdeu a importância porque muita gente passou a sofrer também. Memórias que já não serviam mais.
Leia Paulo, o velho, aquele que passou pelas prisões. Leia com atenção porque senão você vai ficar como alguns que não acreditam ter sido a mesma pessoa. Veja o nada façais por contenda ou vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo de Aos Filipenses. Dá pra imaginar que Paulo, o velho, poderia mandar alguém para ser entregue a Satanás? Se desejar, leia toda a carta, leia o regozijai-vos sempre no Senhor, leia mais, leia sobre aquele que aprendeu que uma pessoa poderia pregar a Cristo até por inveja - é tá lá sim, basta procurar. Quando alguém diz que Paulo escreveu tal carta por conta de amar mais aquela comunidade, a chamada igreja do coração, fico a pensar que seria a igreja da remissão.
Paulo remido pelas memórias, centrado no afeto e na gratidão, coisas trazidas pela vida, sofrimento, prisão e tempo, muito tempo pra ficar pensando, tempo sozinho com Deus, muitas noites conversando consigo, reescrevendo a sua teologia mais próxima da vida e das pessoas, mais próxima do ser gente, menos cruel, ninguém sendo mandado para o inferno, mas entregando o agressor aos cuidados de Deus, lá no fim da vida. Claro que é outro discurso, e gostaria de saber o que a Teologia Sistemática faz com isso. Preso não viaja, escreve um pouco e ora muito, mas muito mesmo, um pouco mais do que você está pensando, muito, mas muito tempo para refletir, rememorar, pensar outra vez nas memórias já pensadas, palavras passando repetidas como se não pudessem ser esquecidas e que novamente voltam, nunca concluídas, e mais oração, muita oração. Sem dia, e sem noite. Tudo igual. O tempo parado. A vida paralisada com a imagem da mesma sala, mesma parede estática, mesma visão curta, sem horizonte e um olhar para dentro sem espelho, e ficar gastando o chão de tanto dar voltas, e pensar, pensar e pensar, orar, orar e apenas orar, rememorar e rememorar, muito tempo para escolher o supra sumo da vida, e esquecer o resto, e ficar só com o sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.
Paulo, o velho, e tinha que ter ficado velho para virar Paulo. Ao invés da lista de sofrimento e da reclamação do trabalho que as igrejas davam, confessa que o para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho [...] mas julgo mais necessário por amor de vós, ficar na carne. O que você prefere: ouvir relatório de sofrimento, ou o desejo confessado de alguém que vive só para continuar te amando?
Um primeiro, outro segundo, quem sabe um terceiro ou até mesmo um quarto de você que se transformou em outro que é você mesmo. Nascido das longas conversas com Deus e o próprio pensamento, se esquecendo e se refazendo em meio às próprias lembranças. Assim nasce um pastor.
(ao meu amigo, hoje colega, Jeferson Rodolfo Cristianini, quando da sua ordenação ao Ministério Pastoral, publicado no boletim de ordenação, Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 e 25 de maio de 2008)
A interpretação da vida, pelo caminho da memória é coisa de doido. Paul Ricoeur diz que o esquecimento, possivelmente, ofereceria elementos mais importantes para a compreensão da vida que a memória. Esta é seletiva, muitas vezes triunfalista, contaminada com as emoções e quase sempre quando dela se faz uso, não se sabe direito se o imaginário não está invertendo os acontecimentos, coisas que pareciam ter sido ditas depois, poderiam ser anteriores, detalhes que se perderam, julgamentos, palavras ditas, tudo misturado com vida, dor, alegria e expectativas criam uma indagação crônica sobre a serviço de quem recordamos e revivemos o que talvez jamais tenha acontecido. Pelos sonhos da memória resgatamos o que jamais fomos, mas nos tornamos como sendo, porque a memória é a interpretação do presente. Você pensa que está se lembrando do passado, mas foi o presente que o fez pensar e recuperar coisas que estavam escondidas, quietas, sufocadas e perdidas. Daí você jamais saberá a diferença entre uma coisa e outra. É como se você tentasse comparar fotografias da vida, o momento paralisado pelo tempo. Nelas é possível observar os detalhes, lançar um olhar curioso em busca dos sete erros, como se fosse brincadeira em quadrinhos, e daí fazer um diagnóstico modesto: foi assim..., ou um talvez tenha sido assim... – duvidoso, porém humano.
É essa a minha leitura dos últimos escritos de Paulo, um humano, demasiadamente humano. Tomado pelo esquecimento dos grandes tratados de teologia, do primeiro período, o que restou foi o vivido, não o conceituado. É como se tivesse havido dois Paulos, um antes e um depois, um jovem e um velho. Dois Paulos, até parece coisa de academia, que fica dividindo gente como se fosse queijo. É um tal de jovem Heidegger, e segundo Heidegger, primeiro, segundo e (talvez) terceiro Rahner. Você não conhece nem bem um, quanto mais três do mesmo que virou outro.
Paulo, o jovem! Já leu a intrincada Carta aos Romanos, e seu discurso da possibilidade teológica de inclusão dos gentios? Texto complicado, não é? Já leu a Carta aos Gálatas e o combate declarado ao judaísmo? Lembra-se de Paulo confrontando Pedro, lá no capítulo dois? E as cartas Aos Coríntios? Na primeira, inconformado com a imoralidade, recomenda que se entregue uma pessoa a Satanás! Uau! Pois é, esse foi o Paulo do começo, o que atropela, forte, destemido, corajoso, em alguns momentos até impiedoso. Não sei se estas se tornaram memórias tristes, já que nunca mais voltou a mencioná-las. Já pensou se Paulo mantivesseaquele discurso do “eu não mudo?” Depois a gente precisa esquecer, e tem que ser de propósito. Não estou falando de perdão, mas é quase. Vez por outra, você precisa formatar a memória, salvar o necessário num canto, compactado, e apagar tudo como se fizesse uma retífica. A cabeça da gente fica lenta com tantos arquivos temporários. Daí você pode olhar o próprio passado como se tivesse sido uma outra pessoa. E era. Pode rir, sentir pena ou vergonha de si mesmo. Isso faz parte.
O jovem Paulo morreu na prisão. Morreu antes da morte, morreu no esquecimento, sepultado pela memória, que matou outras memórias, um esquecer a impiedade praticada em nome da justiça(?), ou um amor defendido por meio da impaciência (que alguns chamam de sinceridade) (?), ou ainda de uma liberdade de expressão sob o domínio de um único controle(?), o inventário de sofrimento, que depois perdeu a importância porque muita gente passou a sofrer também. Memórias que já não serviam mais.
Leia Paulo, o velho, aquele que passou pelas prisões. Leia com atenção porque senão você vai ficar como alguns que não acreditam ter sido a mesma pessoa. Veja o nada façais por contenda ou vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo de Aos Filipenses. Dá pra imaginar que Paulo, o velho, poderia mandar alguém para ser entregue a Satanás? Se desejar, leia toda a carta, leia o regozijai-vos sempre no Senhor, leia mais, leia sobre aquele que aprendeu que uma pessoa poderia pregar a Cristo até por inveja - é tá lá sim, basta procurar. Quando alguém diz que Paulo escreveu tal carta por conta de amar mais aquela comunidade, a chamada igreja do coração, fico a pensar que seria a igreja da remissão.
Paulo remido pelas memórias, centrado no afeto e na gratidão, coisas trazidas pela vida, sofrimento, prisão e tempo, muito tempo pra ficar pensando, tempo sozinho com Deus, muitas noites conversando consigo, reescrevendo a sua teologia mais próxima da vida e das pessoas, mais próxima do ser gente, menos cruel, ninguém sendo mandado para o inferno, mas entregando o agressor aos cuidados de Deus, lá no fim da vida. Claro que é outro discurso, e gostaria de saber o que a Teologia Sistemática faz com isso. Preso não viaja, escreve um pouco e ora muito, mas muito mesmo, um pouco mais do que você está pensando, muito, mas muito tempo para refletir, rememorar, pensar outra vez nas memórias já pensadas, palavras passando repetidas como se não pudessem ser esquecidas e que novamente voltam, nunca concluídas, e mais oração, muita oração. Sem dia, e sem noite. Tudo igual. O tempo parado. A vida paralisada com a imagem da mesma sala, mesma parede estática, mesma visão curta, sem horizonte e um olhar para dentro sem espelho, e ficar gastando o chão de tanto dar voltas, e pensar, pensar e pensar, orar, orar e apenas orar, rememorar e rememorar, muito tempo para escolher o supra sumo da vida, e esquecer o resto, e ficar só com o sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.
Paulo, o velho, e tinha que ter ficado velho para virar Paulo. Ao invés da lista de sofrimento e da reclamação do trabalho que as igrejas davam, confessa que o para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho [...] mas julgo mais necessário por amor de vós, ficar na carne. O que você prefere: ouvir relatório de sofrimento, ou o desejo confessado de alguém que vive só para continuar te amando?
Um primeiro, outro segundo, quem sabe um terceiro ou até mesmo um quarto de você que se transformou em outro que é você mesmo. Nascido das longas conversas com Deus e o próprio pensamento, se esquecendo e se refazendo em meio às próprias lembranças. Assim nasce um pastor.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
EVA, VIDA
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 11 de maio de 2008)
As narrativas sobre a criação estão sendo redescobertas, e se constituem num desafio à interpretação. Ler a literalidade é fácil, quase mecânico. Você fixa a individualidade do primeiro ser humano e de sua parceira, o segundo ser humano, a primeira inserção do mal, e o resultado que se tem é a corrupção da raça. Observado desse modo, o texto fica fácil, o pecado é instituído, o ser humano condenado e daí por diante não se espera mais nada. Numa breve narrativa são levantadas todas as perguntas que nos inquietam: De onde viemos? O que é a morte? Qual será o nosso destino? – e são respondidas em forma de rara beleza poética. As cenas vão passando, há um determinado lugar, lindo lugar, cheio de água, coalhado de verde e de frutos; vida de um lado, vida de outro, brilho pro lado de cima, águas pro lado de baixo, e tudo vai surgindo de uma forma que não precisa de explicação: Disse Deus. Só. Disse e pronto. Você pode explicar a luz? Não precisa, apenas Disse Deus. Olha para as estrelas, e haja teoria da Grande Explosão, de elaboração duvidosa, quase uma religião, sem comprovação, hipóteses daqui, hipóteses dali, e o texto bíblico é simples, sintético e objetivo, apenas Disse Deus. Só isso, Disse e pronto. Vai assim, até que surge Eva.
A impressão que se tem é a de que se tratou de um nome titulado com honra. Não foi. Até então homem e mulher são apenas indicações de gêneros. Eva aparece como a explicação da perda do paraíso. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois do tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o lugar em que essa cede lugar à narrativa meio turva, mais cheia de detalhes, o primeiro texto do cotidiano, num passeio sem qualquer pretensão, num dia qualquer, e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido, ficar num canto e quem quiser achar vai ter que procurar. Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida? Vida parece bom para quem se esconde, tem medo e vergonha. Tá de bom tamanho: Vida.
Então a narrativa poderia ser assim: 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à Vida: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?/ 2. Respondeu a Vida à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer. /3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. / 4. Disse a serpente à Vida: Certamente não morrereis. /5. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal./ 6. Então, vendo a Vida que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu./ 7. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. Deus fez a Vida e a Vida desejou ser livre, mesmo que isso custasse o seu fim, e se tornasse morte.
Só que a Vida não foi punida só com a morte, foi punida com a vida – Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada aos seres humanos, antes de perder o paraíso, bem antes. Antes da condenação da morte, bem antes. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início, será contraditória para sempre, vai trocar o paraíso pela liberdade. Tem gente que diz com a boca cheia: vou para o inferno, mas não mudo. Sabe de uma coisa? - isso parece absurdo, mas Deus respeita quem deseja trocar uma pela outra. A Vida é assim, desde o início. Ela olhou para a liberdade, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem segura a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); desejou o que é belo (agradável aos olhos); e desejou ser livre, sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco (desejável para dar entendimento).
Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antigüidade remota, aquele que não teria desejos, que não levaria em conta o prazer, que não se fascinasse com o que é belo e que não desejasse ser livre? Você consegue imaginar uma coisa dessas? Eu não consigo. Só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, dominar as emoções, controlar a pressão alta por meio do relaxamento, ter que escolher uma coisa e outra, poder fazer isso, sentir culpa, medo, muito medo, medo de tudo e ficar buscando a Deus por qualquer coisinha que aconteça, porque dependo dele pra tudo. Fico sonhando com o meu retorno ao paraíso, e isso é que dá sentido. A esperança do voltar, apenas voltar.
E não foi Eva a mãe de tudo isso? Você acha que foi um nome honorífico? Não foi. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa. Nascer dói, pra quem nasce e pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, nunca mais pára de doer, nunca mais sossega, nunca mais tem segurança outra vez. Dói de um lado e de outro. A Vida que gerou a vida, quer protegê-la das ameaças, e a vida que foi gerada pela Vida quer romper o cordão e também experimentar um pouco da morte. Será que é isso, finalmente, o significado de ser mãe é padecer no paraíso?
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 11 de maio de 2008)
As narrativas sobre a criação estão sendo redescobertas, e se constituem num desafio à interpretação. Ler a literalidade é fácil, quase mecânico. Você fixa a individualidade do primeiro ser humano e de sua parceira, o segundo ser humano, a primeira inserção do mal, e o resultado que se tem é a corrupção da raça. Observado desse modo, o texto fica fácil, o pecado é instituído, o ser humano condenado e daí por diante não se espera mais nada. Numa breve narrativa são levantadas todas as perguntas que nos inquietam: De onde viemos? O que é a morte? Qual será o nosso destino? – e são respondidas em forma de rara beleza poética. As cenas vão passando, há um determinado lugar, lindo lugar, cheio de água, coalhado de verde e de frutos; vida de um lado, vida de outro, brilho pro lado de cima, águas pro lado de baixo, e tudo vai surgindo de uma forma que não precisa de explicação: Disse Deus. Só. Disse e pronto. Você pode explicar a luz? Não precisa, apenas Disse Deus. Olha para as estrelas, e haja teoria da Grande Explosão, de elaboração duvidosa, quase uma religião, sem comprovação, hipóteses daqui, hipóteses dali, e o texto bíblico é simples, sintético e objetivo, apenas Disse Deus. Só isso, Disse e pronto. Vai assim, até que surge Eva.
A impressão que se tem é a de que se tratou de um nome titulado com honra. Não foi. Até então homem e mulher são apenas indicações de gêneros. Eva aparece como a explicação da perda do paraíso. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois do tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o lugar em que essa cede lugar à narrativa meio turva, mais cheia de detalhes, o primeiro texto do cotidiano, num passeio sem qualquer pretensão, num dia qualquer, e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido, ficar num canto e quem quiser achar vai ter que procurar. Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida? Vida parece bom para quem se esconde, tem medo e vergonha. Tá de bom tamanho: Vida.
Então a narrativa poderia ser assim: 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à Vida: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?/ 2. Respondeu a Vida à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer. /3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. / 4. Disse a serpente à Vida: Certamente não morrereis. /5. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal./ 6. Então, vendo a Vida que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu./ 7. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. Deus fez a Vida e a Vida desejou ser livre, mesmo que isso custasse o seu fim, e se tornasse morte.
Só que a Vida não foi punida só com a morte, foi punida com a vida – Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada aos seres humanos, antes de perder o paraíso, bem antes. Antes da condenação da morte, bem antes. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início, será contraditória para sempre, vai trocar o paraíso pela liberdade. Tem gente que diz com a boca cheia: vou para o inferno, mas não mudo. Sabe de uma coisa? - isso parece absurdo, mas Deus respeita quem deseja trocar uma pela outra. A Vida é assim, desde o início. Ela olhou para a liberdade, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem segura a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); desejou o que é belo (agradável aos olhos); e desejou ser livre, sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco (desejável para dar entendimento).
Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antigüidade remota, aquele que não teria desejos, que não levaria em conta o prazer, que não se fascinasse com o que é belo e que não desejasse ser livre? Você consegue imaginar uma coisa dessas? Eu não consigo. Só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, dominar as emoções, controlar a pressão alta por meio do relaxamento, ter que escolher uma coisa e outra, poder fazer isso, sentir culpa, medo, muito medo, medo de tudo e ficar buscando a Deus por qualquer coisinha que aconteça, porque dependo dele pra tudo. Fico sonhando com o meu retorno ao paraíso, e isso é que dá sentido. A esperança do voltar, apenas voltar.
E não foi Eva a mãe de tudo isso? Você acha que foi um nome honorífico? Não foi. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa. Nascer dói, pra quem nasce e pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, nunca mais pára de doer, nunca mais sossega, nunca mais tem segurança outra vez. Dói de um lado e de outro. A Vida que gerou a vida, quer protegê-la das ameaças, e a vida que foi gerada pela Vida quer romper o cordão e também experimentar um pouco da morte. Será que é isso, finalmente, o significado de ser mãe é padecer no paraíso?
sábado, 3 de maio de 2008
DÁ PRA EXPLICAR?
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 04 de maio de 2008)
Em outubro de 1977, e teve que ser no dia 13, a Ponte Preta entrava em campo para a disputa da final do Campeonato Paulista. E quem em Campinas não se lembra do Rui Rei? Eu me lembro. Vi a cena ao vivo, pela televisão Millen, com perninhas no próprio aparelho, no sofá de curvim verde e branco, todo desenhado com minúsculos retângulos de linhas douradas, como se fosse uma parede de tijolos sem reboque, aquele do tipo que abria e virava cama quando a gente tentava juntar o assento com o encosto, formando um “v” seguido de um “clete-clete”, quando de repente, sem ninguém entender, aos 15 minutos do primeiro tempo Rui Rei entraria para a história. Recebeu o cartão amarelo e logo em seguida o vermelho, saiu de campo e praticamente saiu da vida. Ninguém entendeu. Mas nunca mais foi esquecido, também nunca conseguiu explicar.
Quando se perde a credibilidade não há explicação que dê conta. Já não é uma questão do que é certo ou errado. Você lê sobre o início da igreja, e não consegue explicar a razão pela qual tanta gente morreu de graça, só por ser cristão. Desde então o “mundo” sempre será visto como aquele que está “contra” a igreja. Não ficou nisso. O contrário também é verdadeiro. Você também não consegue explicar o motivo que levou a igreja a matar tanta gente, também de graça no período negro da inquisição. Aí é o “mundo” que pensa que a vilã é a igreja, e a melhor forma de se livrar dela é matando Deus. Mortes que não resolveram nada, se é que um dia poderão resolver alguma coisa.
Não vá longe, dê uma lida nas histórias bíblicas da conquista da terra prometida pelos judeus, lá no livro de Josué, pelo menos até o capítulo doze. Tudo bem, você também vai defender o seu cantinho afirmando que naquele tempo era assim mesmo, as guerras eram religiosas (acho que as atuais também são), havia uma espécie de lei da vida, ou mata ou morre. Com isso, parece que os israelitas estariam certos em responder no mesmo tom. Só que não aceito isso porque aprendi, desde que comecei a ser gente, que ao cristão paira o esforço de não ser igual. Tudo bem, a cultura era aquela mesma, e eu sei que há uma diferença entre judeus e cristãos, vá lá, mas não tente me convencer de que os que foram massacrados se tratavam de povos espiritualmente inferiores, muito, mas muito pecadores. Pecado por pecado, meu caro, não faz escapar ninguém, nem você e muito menos eu. Por esse caminho, zero seis, você se condena, me condena e condena todos em sua volta. Ao ler o capítulo onze de Josué que narra a destruição das cidades e mortes de todos os habitantes (leia-se mulheres e crianças também), você tem a sensação de que alguma coisa está errada. Por mais explicação que se dê, sempre fica a dúvida se não poderia ter sido diferente. A morte motivada já é duro de engolir, quanto mais a que vem de graça. Não há religião que possa sustentar o tirar a vida por causa de um credo. As pessoas são a nossa missão, não nossas vítimas. Precisam ser amadas, não exploradas.
Nesse ponto, quero dizer que a credibilidade dos cristãos vai muito mal, e não é culpa de qualquer perseguição. Em alguns casos a igreja estragou o cristianismo. Disse uma coisa e fez/faz o contrário. Não, não é que faz diferente, faz o contrário mesmo. Utilizamos determinados textos bíblicos, como o ser cabeça e não ser cauda, pra justificar a correria em busca de conforto e riqueza. Ser cabeça é liderar o mundo, comandar as reformas em favor da vida; é fazer com que aqueles desnorteados assumam o compromisso com o próximo, com o resgate da dignidade humana. Tô cansado de ver gente na televisão se apropriando de Deuteronômio 28:13, e fazendo uma leitura torta. O texto fala da independência, assumir liderança e o discurso a riqueza ali é apenas um detalhe. O mundo carece de valores, não de dinheiro. O que gera a fome não é a falta de dinheiro, mas ausência de valores. Bombas são jogadas, ao invés de comida, doenças e não remédios, preconceito e não amor. E ninguém tá nem aí. Não é uma questão de dinheiro. E o povo de Deus? Bem, o povo de Deus fica correndo atrás das mesmas coisas. Fica utilizando a expressão bíblica para reforçar o que há de mais degradante, correndo atrás do que tem sido um dos problemas da humanidade. Atrás significa ser rebocado. Isso é ser cauda. Ser cauda é calda, é uma água. Ser cabeça, isso sim. Assumir valores, defender o que é ético, sair em defesa da vida. Seja prático, se você saísse hoje do jogo, que falta faria?
Daí a gente olha pro Rui Rei e fica indignado dele ter sido expulso logo no início do primeiro tempo. Não sei, mas já acho muito a gente fazer parte do time, não deveria sobrar nem pra gandula.
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 04 de maio de 2008)
Em outubro de 1977, e teve que ser no dia 13, a Ponte Preta entrava em campo para a disputa da final do Campeonato Paulista. E quem em Campinas não se lembra do Rui Rei? Eu me lembro. Vi a cena ao vivo, pela televisão Millen, com perninhas no próprio aparelho, no sofá de curvim verde e branco, todo desenhado com minúsculos retângulos de linhas douradas, como se fosse uma parede de tijolos sem reboque, aquele do tipo que abria e virava cama quando a gente tentava juntar o assento com o encosto, formando um “v” seguido de um “clete-clete”, quando de repente, sem ninguém entender, aos 15 minutos do primeiro tempo Rui Rei entraria para a história. Recebeu o cartão amarelo e logo em seguida o vermelho, saiu de campo e praticamente saiu da vida. Ninguém entendeu. Mas nunca mais foi esquecido, também nunca conseguiu explicar.
Quando se perde a credibilidade não há explicação que dê conta. Já não é uma questão do que é certo ou errado. Você lê sobre o início da igreja, e não consegue explicar a razão pela qual tanta gente morreu de graça, só por ser cristão. Desde então o “mundo” sempre será visto como aquele que está “contra” a igreja. Não ficou nisso. O contrário também é verdadeiro. Você também não consegue explicar o motivo que levou a igreja a matar tanta gente, também de graça no período negro da inquisição. Aí é o “mundo” que pensa que a vilã é a igreja, e a melhor forma de se livrar dela é matando Deus. Mortes que não resolveram nada, se é que um dia poderão resolver alguma coisa.
Não vá longe, dê uma lida nas histórias bíblicas da conquista da terra prometida pelos judeus, lá no livro de Josué, pelo menos até o capítulo doze. Tudo bem, você também vai defender o seu cantinho afirmando que naquele tempo era assim mesmo, as guerras eram religiosas (acho que as atuais também são), havia uma espécie de lei da vida, ou mata ou morre. Com isso, parece que os israelitas estariam certos em responder no mesmo tom. Só que não aceito isso porque aprendi, desde que comecei a ser gente, que ao cristão paira o esforço de não ser igual. Tudo bem, a cultura era aquela mesma, e eu sei que há uma diferença entre judeus e cristãos, vá lá, mas não tente me convencer de que os que foram massacrados se tratavam de povos espiritualmente inferiores, muito, mas muito pecadores. Pecado por pecado, meu caro, não faz escapar ninguém, nem você e muito menos eu. Por esse caminho, zero seis, você se condena, me condena e condena todos em sua volta. Ao ler o capítulo onze de Josué que narra a destruição das cidades e mortes de todos os habitantes (leia-se mulheres e crianças também), você tem a sensação de que alguma coisa está errada. Por mais explicação que se dê, sempre fica a dúvida se não poderia ter sido diferente. A morte motivada já é duro de engolir, quanto mais a que vem de graça. Não há religião que possa sustentar o tirar a vida por causa de um credo. As pessoas são a nossa missão, não nossas vítimas. Precisam ser amadas, não exploradas.
Nesse ponto, quero dizer que a credibilidade dos cristãos vai muito mal, e não é culpa de qualquer perseguição. Em alguns casos a igreja estragou o cristianismo. Disse uma coisa e fez/faz o contrário. Não, não é que faz diferente, faz o contrário mesmo. Utilizamos determinados textos bíblicos, como o ser cabeça e não ser cauda, pra justificar a correria em busca de conforto e riqueza. Ser cabeça é liderar o mundo, comandar as reformas em favor da vida; é fazer com que aqueles desnorteados assumam o compromisso com o próximo, com o resgate da dignidade humana. Tô cansado de ver gente na televisão se apropriando de Deuteronômio 28:13, e fazendo uma leitura torta. O texto fala da independência, assumir liderança e o discurso a riqueza ali é apenas um detalhe. O mundo carece de valores, não de dinheiro. O que gera a fome não é a falta de dinheiro, mas ausência de valores. Bombas são jogadas, ao invés de comida, doenças e não remédios, preconceito e não amor. E ninguém tá nem aí. Não é uma questão de dinheiro. E o povo de Deus? Bem, o povo de Deus fica correndo atrás das mesmas coisas. Fica utilizando a expressão bíblica para reforçar o que há de mais degradante, correndo atrás do que tem sido um dos problemas da humanidade. Atrás significa ser rebocado. Isso é ser cauda. Ser cauda é calda, é uma água. Ser cabeça, isso sim. Assumir valores, defender o que é ético, sair em defesa da vida. Seja prático, se você saísse hoje do jogo, que falta faria?
Daí a gente olha pro Rui Rei e fica indignado dele ter sido expulso logo no início do primeiro tempo. Não sei, mas já acho muito a gente fazer parte do time, não deveria sobrar nem pra gandula.
terça-feira, 29 de abril de 2008
A IGREJA DO ABRAÇO
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 27 de abril de 2008)
Nossa igreja precisa de abraço - não é algo que se diga, porque é humano demais, mas foi o que ouvi. Cheira à gente, tem cara de desejo e se confunde com a frivolidade, passagem rápida, como se não ficasse qualquer resultado. Será que alguma igreja precisa de abraço?
Foi uma frase dita por alguém que procurava analisar uma situação. Escutei, com a perna cruzada, calcanhar por sobre o joelho e mãos que se esfregavam uma à outra. Se os meus braços também estivessem cruzados, algum especialista de comportamento humano poderia afirmar que se tratava de uma posição defensiva. Não poderia ter sido assim, porque não foi uma observação grosseira, veio como um dito lento, medido, escorregado pelo pensamento, quase um pedido. Um abraço é tão pouca coisa, que não dá para acreditar que um dia tenha virado sonho.
Tive que escutar isso, e pensar que na igreja, o lugar onde reside o amor, há falta dele. Não deveria ser assim, mas acabou sendo, e não é exclusividade daquela comunidade. A religião instituída, de qualquer natureza, é estabelecida pela definição de suas doutrinas e credos, e não tem como ser diferente. Tais doutrinas e credos acabam por tomar o lugar do ser humano por meio da estrutura e dos programas. Estabelecem-se as funções, a eficácia no desempenho, as regras de execução, os objetivos definidos, a maneira pela qual as pessoas serão alcançadas, o porquê de não terem sido, ou se o foram com muita facilidade, houve erro de planejamento? Foi pouco otimista? Erros de cálculo sobre as projeções? Vamos colocar num quadro estatístico, rol de membros, atividades desenvolvidas, receitas e despesas, treinamento aqui, desse lado o que foi alcançado próximo ao que foi projetado para que seja possível visualizar a diferença, número de pessoas no ponto de partida, aqui, número de pessoas no final do projeto, ali, as variáveis, a probabilidade de erro, dois por cento para mais, ou dois por cento para menos, está assim: deveríamos estar ali, mas estamos aqui, deve ter acontecido alguma coisa errada em algum lugar. Faltou a coluna do abraço, onde deveria estar mesmo?
Não está. Não há uma coluna do abraço porque o planejamento não comporta isso. Daí você lê os propósitos de algumas comunidades e nunca vê nada além do comum. Ninguém menciona o abraço, porque é simples demais. De tão inútil, não entra nas estatísticas, não faz parte de qualquer plano e certamente nenhuma comunidade que se preze tem a coragem de colocá-lo como um dos elementos centrais de seu discurso. Uma igreja que tem por alvo se abraçar, é humana demais, quase uma heresia.
Eu gostaria de fundar “a igreja do abraço”, e acho que estaria mais próxima à comunidade sonhada por Jesus. Uma comunidade de amor e afeto na qual as pessoas seriam mais importantes que o calendário, viveriam a paixão sincera de um evangelho que não precisaria ser monitorado. Cada qual daria conta de sua própria fé, teria consciência de que necessitaria conversar consigo mesmo sobre a sua própria vida, reavaliar conceitos, motivação, desempenho e o desejo de se dedicar um pouco mais. Nessa igreja não haveria cargos ou funções, só dons e amor, cada pessoa ocuparia o seu espaço com uma alegria tal que encheria os olhos de qualquer um, diferente da institucionalização forçada, que tem poucos cargos definidos, com não sei quantas pessoas querendo ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, decidido por meio de eleições quem vai ficar com o quê, que não decide coisa nenhuma, lugar onde o abraço cedeu a vez para o chega pra lá.
Sem cargos e funções, está decretado: na igreja do abraço, só tem abraço! Ninguém sabe fazer nada e se fizer um pouco é porque Deus não enviou outro mais capacitado, que um dia virá e tomará o lugar, fará melhor e será abraçado por isso. Não é concorrente, é irmão no abraço, companheiro que veio fazer o que o outro não consegue, e vai ficar ali até que chegue outro melhor do que ele e que um dia também será abraçado. Haveria um culto solene, chamado culto do abraço, sem mensagem formal, cântico formal ou oração formal. Grupinhos constituídos aleatoriamente, sem sorteio ou rito, gente virada para trás nos bancos, estes seriam substituídos por cadeiras, que seriam deslocadas formando círculos de debates sobre a vida cristã, texto bíblico, troca de experiências e orações, muitas orações, gente abraçada orando junto. Um grupo cantando, outro rindo, outro chorando, ninguém distraído ou analisando as batidas do relógio, estudando o longo discurso programado, diretivo, exortativo, em algumas ocasiões até mecânico, lido, voz cadenciada, ritmada, mesma entonação e postura. Nada de fila indiana de bancos, colados um atrás do outro, e ficar olhando a nuca de ninguém. Nada disso. A igreja do abraço é a igreja do sorriso, tem que se ver a face, olhar o que dizem os olhos, ver as sobrancelhas erguidas e os braços longos que se abrem como gesto de aceitação.
Na igreja do abraço será proibido o tapinha nas costas. Coisa indecente é o tal do tapinha! Coisa de político! Na igreja do abraço, só há abraços, calor humano, gente se encontrando, se enroscando e conversando. Sem barreiras ou preconceitos, gente pobre com gente rica, raças misturadas, doutores e analfabetos, todos conversando sobre coisas comuns, seus medos, crises, dependência de Deus, conhecimento das Escrituras, sem receio de mencionar os seus dramas mais pessoais, e mais orações, outras orações, sem vozes empostadas ou vocabulário arcaico, orações na primeira pessoa do singular – “eu”, não na segunda do singular – “tu”, por ser irritantemente solene, e nem na primeira do plural – “nós”, por ser melancolicamente indefinida.
Parece muito, mas um abraço é apenas um abraço, não dá conta nem de ser heresia; coisa pequena demais para fazer tanta falta, se transformar em sonho e despertar tanta saudade.
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 27 de abril de 2008)
Nossa igreja precisa de abraço - não é algo que se diga, porque é humano demais, mas foi o que ouvi. Cheira à gente, tem cara de desejo e se confunde com a frivolidade, passagem rápida, como se não ficasse qualquer resultado. Será que alguma igreja precisa de abraço?
Foi uma frase dita por alguém que procurava analisar uma situação. Escutei, com a perna cruzada, calcanhar por sobre o joelho e mãos que se esfregavam uma à outra. Se os meus braços também estivessem cruzados, algum especialista de comportamento humano poderia afirmar que se tratava de uma posição defensiva. Não poderia ter sido assim, porque não foi uma observação grosseira, veio como um dito lento, medido, escorregado pelo pensamento, quase um pedido. Um abraço é tão pouca coisa, que não dá para acreditar que um dia tenha virado sonho.
Tive que escutar isso, e pensar que na igreja, o lugar onde reside o amor, há falta dele. Não deveria ser assim, mas acabou sendo, e não é exclusividade daquela comunidade. A religião instituída, de qualquer natureza, é estabelecida pela definição de suas doutrinas e credos, e não tem como ser diferente. Tais doutrinas e credos acabam por tomar o lugar do ser humano por meio da estrutura e dos programas. Estabelecem-se as funções, a eficácia no desempenho, as regras de execução, os objetivos definidos, a maneira pela qual as pessoas serão alcançadas, o porquê de não terem sido, ou se o foram com muita facilidade, houve erro de planejamento? Foi pouco otimista? Erros de cálculo sobre as projeções? Vamos colocar num quadro estatístico, rol de membros, atividades desenvolvidas, receitas e despesas, treinamento aqui, desse lado o que foi alcançado próximo ao que foi projetado para que seja possível visualizar a diferença, número de pessoas no ponto de partida, aqui, número de pessoas no final do projeto, ali, as variáveis, a probabilidade de erro, dois por cento para mais, ou dois por cento para menos, está assim: deveríamos estar ali, mas estamos aqui, deve ter acontecido alguma coisa errada em algum lugar. Faltou a coluna do abraço, onde deveria estar mesmo?
Não está. Não há uma coluna do abraço porque o planejamento não comporta isso. Daí você lê os propósitos de algumas comunidades e nunca vê nada além do comum. Ninguém menciona o abraço, porque é simples demais. De tão inútil, não entra nas estatísticas, não faz parte de qualquer plano e certamente nenhuma comunidade que se preze tem a coragem de colocá-lo como um dos elementos centrais de seu discurso. Uma igreja que tem por alvo se abraçar, é humana demais, quase uma heresia.
Eu gostaria de fundar “a igreja do abraço”, e acho que estaria mais próxima à comunidade sonhada por Jesus. Uma comunidade de amor e afeto na qual as pessoas seriam mais importantes que o calendário, viveriam a paixão sincera de um evangelho que não precisaria ser monitorado. Cada qual daria conta de sua própria fé, teria consciência de que necessitaria conversar consigo mesmo sobre a sua própria vida, reavaliar conceitos, motivação, desempenho e o desejo de se dedicar um pouco mais. Nessa igreja não haveria cargos ou funções, só dons e amor, cada pessoa ocuparia o seu espaço com uma alegria tal que encheria os olhos de qualquer um, diferente da institucionalização forçada, que tem poucos cargos definidos, com não sei quantas pessoas querendo ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, decidido por meio de eleições quem vai ficar com o quê, que não decide coisa nenhuma, lugar onde o abraço cedeu a vez para o chega pra lá.
Sem cargos e funções, está decretado: na igreja do abraço, só tem abraço! Ninguém sabe fazer nada e se fizer um pouco é porque Deus não enviou outro mais capacitado, que um dia virá e tomará o lugar, fará melhor e será abraçado por isso. Não é concorrente, é irmão no abraço, companheiro que veio fazer o que o outro não consegue, e vai ficar ali até que chegue outro melhor do que ele e que um dia também será abraçado. Haveria um culto solene, chamado culto do abraço, sem mensagem formal, cântico formal ou oração formal. Grupinhos constituídos aleatoriamente, sem sorteio ou rito, gente virada para trás nos bancos, estes seriam substituídos por cadeiras, que seriam deslocadas formando círculos de debates sobre a vida cristã, texto bíblico, troca de experiências e orações, muitas orações, gente abraçada orando junto. Um grupo cantando, outro rindo, outro chorando, ninguém distraído ou analisando as batidas do relógio, estudando o longo discurso programado, diretivo, exortativo, em algumas ocasiões até mecânico, lido, voz cadenciada, ritmada, mesma entonação e postura. Nada de fila indiana de bancos, colados um atrás do outro, e ficar olhando a nuca de ninguém. Nada disso. A igreja do abraço é a igreja do sorriso, tem que se ver a face, olhar o que dizem os olhos, ver as sobrancelhas erguidas e os braços longos que se abrem como gesto de aceitação.
Na igreja do abraço será proibido o tapinha nas costas. Coisa indecente é o tal do tapinha! Coisa de político! Na igreja do abraço, só há abraços, calor humano, gente se encontrando, se enroscando e conversando. Sem barreiras ou preconceitos, gente pobre com gente rica, raças misturadas, doutores e analfabetos, todos conversando sobre coisas comuns, seus medos, crises, dependência de Deus, conhecimento das Escrituras, sem receio de mencionar os seus dramas mais pessoais, e mais orações, outras orações, sem vozes empostadas ou vocabulário arcaico, orações na primeira pessoa do singular – “eu”, não na segunda do singular – “tu”, por ser irritantemente solene, e nem na primeira do plural – “nós”, por ser melancolicamente indefinida.
Parece muito, mas um abraço é apenas um abraço, não dá conta nem de ser heresia; coisa pequena demais para fazer tanta falta, se transformar em sonho e despertar tanta saudade.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
A ORAÇÃO INÚTIL (?)
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 20 de abril de 2008)
Confesso que errei. Preciso me redimir.
Sempre compreendi a oração da Igreja por Pedro, quando este estivera preso, como um fiasco. Só pra lembrar: Herodes, embalado pela perseguição, tirara a vida de Tiago depois colocara Pedro na prisão, enquanto os judeus, politiqueiros e fundamentalistas, comemoravam o dia dos pães asmos. Pedro, assim, corria risco de morte. Num dado momento foi libertado de forma sobrenatural. Procurou os seus pares, apresentando-se àqueles que por ele oravam. Embora estivessem orando, ninguém acreditou que Pedro pudesse sair vivo da prisão. Se Pedro dependesse da fé deles estaria perdido. Aparentemente, um verdadeiro fiasco.
Já ensinei isso e conversei comicamente sobre o episódio. Ri de quem ora sem fé, de Pedro perdido, e mostrei que Deus conduz o seu plano apesar das nossas orações. O “apesar” deve ser lido em negrito. Só que errei, e foi por muito. Não há nada de engraçado quando se pensa na igreja escondida, amedrontada e ameaçada diante de um sujeito sem qualquer escrúpulo ou bom-senso, como Herodes. Não há nada de engraçado quando se passa uma noite na prisão, e muito menos no sofrimento pela morte injusta dos primeiros mártires. A morte de Tiago, após a de Estevão, abriria os anos de terror contra os cristãos de tal forma que matá-los seria uma espécie de diversão. Num primeiro momento a perseguição seria apenas religiosa. Imagine então quando o Império Romano desejou fazer parte da carnificina, declarando que a luta contra os cristãos era um problema de “segurança nacional”, tipo ditadura tupiniquim! Não houve guerra, mas caçada. Um safári por vilas, lugarejos, estradas e principalmente centros urbanos. A igreja orava nessas circunstâncias. Não era uma questão de acreditar na vida, mas na morte, porque esta parecia ser a mais provável. Alguém bateria à porta arrastando mulheres, crianças e pescadores. A morte viria buscá-los, e não havia meio de se evitar isso. Foi o que fez Pedro: bateu à porta. Foi o que pensou a igreja: era som, toque e chamada da morte. A morte não veio e Pedro se foi, colocou outro em seu lugar e se despediu. Não quis voltar para o terraço. A igreja não acreditou no que pediu, e Pedro, por sua vez, só se deu conta do que estava acontecendo depois de acontecido. Fé também significa insegurança, por mais contraditório que isso possa parecer. Um e outro estavam no mesmo barco.
A oração não se valida por conta da resposta, mas pela oração mesma. Essa é a parte difícil de explicar. É também aqui que está a minha interpretação equivocada. Sempre quando se fala de oração, pensa-se nos resultados. Faça isso, desse modo, e receba assim, desse jeito. Daí aparecem os manuais “aprenda a orar em 28 dias”, “como desenvolver orações poderosas”, “treze mil trocentas e quinze orações respondidas”, “como fazer Deus ouvir a sua oração”, “a oração que faz efeito”, “movendo o coração de Deus”, são verdadeiros tratados, colocados em ordem ritual de prioridade, o que fazer primeiro, o que esperar depois, o que dizer durante, como deve ser a postura enquanto se ora, você tem fé? Deus não responde a sua oração? Como não? E quem é que nunca teve uma oração não respondida? Queremos aprender a orar, obter a fórmula secreta e o caminho mais curto, eficiente e eficaz para que o coração de Deus seja alcançado.
Observada por essa perspectiva, a oração da igreja por Pedro foi um vexame. Se pensada como um momento em si mesma, era o que a igreja mais precisava. Aquelas poucas pessoas, de uma minúscula comunidade, mesmo que preocupados com Pedro, careciam uns dos outros. A oração que faziam já se constituía como abençoadora, só por ser oração. A validade não estava na resposta, mas na oração mesma. Enquanto oravam, se protegiam, buscavam socorro, colocavam seus medos, suas preocupações e a impotência diante de algo que nada poderiam fazer – um punhado de gente contra um reino. Só um milagre salvaria Pedro, coisa que não acreditavam. Só que amavam a Pedro, e isso por si só já fazia daquele momento algo singular.
Esperar milagre é o que muitos fazem, continuar orando apenas com base no amor é para poucos. É a confiança que supera a confiança. É fácil orar quando se sabe que fatalmente irá receber, que tamanho terá, a que horas acontecerá, tempo de duração e ocasião, local e aparência. Tudo já terminado antes de se começar a pedir. Orar, quando as coisas são assim, é apenas um detalhe.
Agora, quando você ora meio no vazio, de quem faz isso por amor a quem sofre, e mesmo sem ver o futuro continua orando só pelo prazer de conversar com Deus sobre a vida, o medo, a dor do sofrimento do outro, mesmo sem entender muito, isso é diferente. É mais inseguro, porque ainda não foi dado, e não se sabe se será ou como será, mas em compensação não há um automatismo como um maquinário que engole e transforma gente em máquina feito “Tempos Modernos”. A oração não é uma produção em série, não tem seqüência numérica, nem registro de propriedade. Não tem carimbo ou manual. Tem no máximo um roteiro, uma espécie de mais ou menos, uma busca, um deslocamento da pessoa para Deus, um desejo, um sentimento profundo de amar, sofrer e se render. Quando se ora, a resposta já aconteceu, independente do resultado. Veio em forma de dependência, submissão e humildade. Já se fez presente como amor, embrulhado e pronto para ser degustado. Não tem botão para ser apertado, mas tem memória, recordação e esperança. Isso tem, e tem mesmo. Tem também um sentido de ausência, um sair do mundo, desligar-se, ocupar-se com Deus, somente com Ele e conversar sem pressa como quem tem muitas histórias e não suporta a ânsia de contá-las, mesmo quando já se sabe não serem novas para quem as escuta. São pretextos para uma conversa que se arrasta para a rua. Está no coração do motorista enquanto dirige, ou do pedreiro enquanto coloca a telha, do músico enquanto afina o instrumento ou da criança enquanto aprende. Está na paixão da dona de casa e mãe, enquanto trabalha e pensa nos filhos. Não há a necessidade de se aguardar uma resposta. A espera é mais saborosa que o acontecimento, e o problema mais interessante que a solução. Mostra que a gente não sabe nada. Depois fica fácil. Até parece que a gente já sabia, mas é necessário sentir-se perdido, para ser encontrado, e esperar a morte bater à porta para se saber o que é a vida.
Não acredito que a oração daquela comunidade tenha sido inútil, e não acho que uma pessoa deva deixar de orar só porque tem dúvidas sobre a sua própria fé. Oração é um modo de vida e se constitui, por si mesma, na própria resposta.
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 20 de abril de 2008)
Confesso que errei. Preciso me redimir.
Sempre compreendi a oração da Igreja por Pedro, quando este estivera preso, como um fiasco. Só pra lembrar: Herodes, embalado pela perseguição, tirara a vida de Tiago depois colocara Pedro na prisão, enquanto os judeus, politiqueiros e fundamentalistas, comemoravam o dia dos pães asmos. Pedro, assim, corria risco de morte. Num dado momento foi libertado de forma sobrenatural. Procurou os seus pares, apresentando-se àqueles que por ele oravam. Embora estivessem orando, ninguém acreditou que Pedro pudesse sair vivo da prisão. Se Pedro dependesse da fé deles estaria perdido. Aparentemente, um verdadeiro fiasco.
Já ensinei isso e conversei comicamente sobre o episódio. Ri de quem ora sem fé, de Pedro perdido, e mostrei que Deus conduz o seu plano apesar das nossas orações. O “apesar” deve ser lido em negrito. Só que errei, e foi por muito. Não há nada de engraçado quando se pensa na igreja escondida, amedrontada e ameaçada diante de um sujeito sem qualquer escrúpulo ou bom-senso, como Herodes. Não há nada de engraçado quando se passa uma noite na prisão, e muito menos no sofrimento pela morte injusta dos primeiros mártires. A morte de Tiago, após a de Estevão, abriria os anos de terror contra os cristãos de tal forma que matá-los seria uma espécie de diversão. Num primeiro momento a perseguição seria apenas religiosa. Imagine então quando o Império Romano desejou fazer parte da carnificina, declarando que a luta contra os cristãos era um problema de “segurança nacional”, tipo ditadura tupiniquim! Não houve guerra, mas caçada. Um safári por vilas, lugarejos, estradas e principalmente centros urbanos. A igreja orava nessas circunstâncias. Não era uma questão de acreditar na vida, mas na morte, porque esta parecia ser a mais provável. Alguém bateria à porta arrastando mulheres, crianças e pescadores. A morte viria buscá-los, e não havia meio de se evitar isso. Foi o que fez Pedro: bateu à porta. Foi o que pensou a igreja: era som, toque e chamada da morte. A morte não veio e Pedro se foi, colocou outro em seu lugar e se despediu. Não quis voltar para o terraço. A igreja não acreditou no que pediu, e Pedro, por sua vez, só se deu conta do que estava acontecendo depois de acontecido. Fé também significa insegurança, por mais contraditório que isso possa parecer. Um e outro estavam no mesmo barco.
A oração não se valida por conta da resposta, mas pela oração mesma. Essa é a parte difícil de explicar. É também aqui que está a minha interpretação equivocada. Sempre quando se fala de oração, pensa-se nos resultados. Faça isso, desse modo, e receba assim, desse jeito. Daí aparecem os manuais “aprenda a orar em 28 dias”, “como desenvolver orações poderosas”, “treze mil trocentas e quinze orações respondidas”, “como fazer Deus ouvir a sua oração”, “a oração que faz efeito”, “movendo o coração de Deus”, são verdadeiros tratados, colocados em ordem ritual de prioridade, o que fazer primeiro, o que esperar depois, o que dizer durante, como deve ser a postura enquanto se ora, você tem fé? Deus não responde a sua oração? Como não? E quem é que nunca teve uma oração não respondida? Queremos aprender a orar, obter a fórmula secreta e o caminho mais curto, eficiente e eficaz para que o coração de Deus seja alcançado.
Observada por essa perspectiva, a oração da igreja por Pedro foi um vexame. Se pensada como um momento em si mesma, era o que a igreja mais precisava. Aquelas poucas pessoas, de uma minúscula comunidade, mesmo que preocupados com Pedro, careciam uns dos outros. A oração que faziam já se constituía como abençoadora, só por ser oração. A validade não estava na resposta, mas na oração mesma. Enquanto oravam, se protegiam, buscavam socorro, colocavam seus medos, suas preocupações e a impotência diante de algo que nada poderiam fazer – um punhado de gente contra um reino. Só um milagre salvaria Pedro, coisa que não acreditavam. Só que amavam a Pedro, e isso por si só já fazia daquele momento algo singular.
Esperar milagre é o que muitos fazem, continuar orando apenas com base no amor é para poucos. É a confiança que supera a confiança. É fácil orar quando se sabe que fatalmente irá receber, que tamanho terá, a que horas acontecerá, tempo de duração e ocasião, local e aparência. Tudo já terminado antes de se começar a pedir. Orar, quando as coisas são assim, é apenas um detalhe.
Agora, quando você ora meio no vazio, de quem faz isso por amor a quem sofre, e mesmo sem ver o futuro continua orando só pelo prazer de conversar com Deus sobre a vida, o medo, a dor do sofrimento do outro, mesmo sem entender muito, isso é diferente. É mais inseguro, porque ainda não foi dado, e não se sabe se será ou como será, mas em compensação não há um automatismo como um maquinário que engole e transforma gente em máquina feito “Tempos Modernos”. A oração não é uma produção em série, não tem seqüência numérica, nem registro de propriedade. Não tem carimbo ou manual. Tem no máximo um roteiro, uma espécie de mais ou menos, uma busca, um deslocamento da pessoa para Deus, um desejo, um sentimento profundo de amar, sofrer e se render. Quando se ora, a resposta já aconteceu, independente do resultado. Veio em forma de dependência, submissão e humildade. Já se fez presente como amor, embrulhado e pronto para ser degustado. Não tem botão para ser apertado, mas tem memória, recordação e esperança. Isso tem, e tem mesmo. Tem também um sentido de ausência, um sair do mundo, desligar-se, ocupar-se com Deus, somente com Ele e conversar sem pressa como quem tem muitas histórias e não suporta a ânsia de contá-las, mesmo quando já se sabe não serem novas para quem as escuta. São pretextos para uma conversa que se arrasta para a rua. Está no coração do motorista enquanto dirige, ou do pedreiro enquanto coloca a telha, do músico enquanto afina o instrumento ou da criança enquanto aprende. Está na paixão da dona de casa e mãe, enquanto trabalha e pensa nos filhos. Não há a necessidade de se aguardar uma resposta. A espera é mais saborosa que o acontecimento, e o problema mais interessante que a solução. Mostra que a gente não sabe nada. Depois fica fácil. Até parece que a gente já sabia, mas é necessário sentir-se perdido, para ser encontrado, e esperar a morte bater à porta para se saber o que é a vida.
Não acredito que a oração daquela comunidade tenha sido inútil, e não acho que uma pessoa deva deixar de orar só porque tem dúvidas sobre a sua própria fé. Oração é um modo de vida e se constitui, por si mesma, na própria resposta.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
APENAS GRAÇA
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 13 de abril de 2008)
Estava disposto a escrever sobre Sêneca, contemporâneo de Jesus: viver é tanto aprender a viver, quanto aprender a morrer. A vida é um aprendizado para a vida, mas é também um aprendizado para a morte. Daí voltei a Jó e encontrei uma contradição semelhante: viver em graça é aprender a sorrir e sofrer, viver e morrer.
Eu sei que há toda uma discussão sobre a datação do livro de Jó. Qualquer pessoa que tenha acesso a livros e críticas, ou mesmo uma conexão de internet, mesmo que discada, vai encontrar trocentos escritos sobre isso. A questão aqui não é a de você ficar desconfiado do texto, mas compreender que talvez o livro de Jó seja mais recente do que se pensava anteriormente e o debate sobre a graça, tema tardio e que já está presente nos profetas, seria o seu assunto principal. Enquanto a perspectiva da graça aparece como um dentre tantos temas na teologia profética, o livro de Jó parece ser todo voltado ao tema, mediante uma rara beleza poética. Tem mais: o profetismo é unilateral, do profeta para o povo. A graça em Jó tem um caráter interpessoal. Trata-se de uma conversa de gente comum sobre Deus e a miséria humana. Pessoas que se amam e se cuidam, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento humano. Seria possível um sofrimento sem causa?
Já passamos por Sêneca e chegamos a Jó. Antes que você pule de parágrafo e comece pelo avesso, preciso dar-lhe a pista de como é que se junta vida e morte, sofrimento e salvação, sob o domínio da graça. Isso parece um absurdo, eu sei. Quando você ouve falar sobre a graça, já sabe que virá algo nobre. Uma palavra próxima seria perdão. Pensou em graça, pensou em perdão, paz e descanso. Uma graça que aniquila a pessoa e que traz sofrimento, lágrimas, dor, perda de filhos, perda de tudo, definitivamente não pode ser graça. Eu sei que você pensa assim. Não se culpe, por favor. Também tenho dificuldade emocional de aceitar isso. Aprendi que tudo o que a gente faz, recebe de volta, seja bom, seja ruim. Daí a idéia de que nada acontece por acaso.
Não quero dizer que isso também não seja bíblico. Abro o texto e o que vou mais encontrar nele é a reflexão sobre os descaminhos de alguém, onde se perdeu, se fez bem, ou se fez mal, como morreu, onde e como foi sepultado, o que fazia e como vivia em época de crise, como enfrentou a morte, o que pensava sobre o viver o certo e se afastar do errado, as conseqüências dos erros – punição e cativeiro, escravidão como despojamento ou aprisionamento da vontade. Tudo isso eu leio e entendo, e por conta dessas coisas fico pensando que pouco sei sobre a graça. Recuso-me a entendê-la porque ela vai além de tudo isso e encontra sentido apenas no agir livre de Deus, coisa que não entendo. Sei o que é, mas não entendo.
Havia um motivo para o sofrimento de Jó? Pode ser que sim, só que nem mesmo Jó o encontrou. Seria pelo fato do ser humano ser limitado e pecador por natureza? Então Jó não seria culpado. Seria possível refletir um pouco mais e encontrar alguma coisa que pudesse justificar tal sofrimento? Isso sim, mas não o suficiente para explicar tudo o que Jó estava sofrendo. A punição fora descomunal e desproporcional. No pensamento de Jó, injusta. Jó só não perdera a vida, mas perdera o prazer de viver e viu o dia do seu nascimento como uma tragédia da natureza. Preferiria não ter nascido, mas nem isso o ser humano pode controlar. Preferiria morrer, mas não se morre por meio do desejo. Jó sabia de quatro coisas: sofria, nada poderia justificar tamanho sofrimento, Deus não castiga quem não merece e castigo de Deus não tem solução. Quando há uma causa, você a identifica, corrige e se libera do sofrimento. O castigo de Deus, em Jó, é como a dor que não está no corpo. É a dor que não tem explicação.
É aí que entra o conceito de graça no texto de Jó: é uma ação livre de Deus e não pode ser pensada a partir do que é justo ou injusto. Deus faz o que quer, do jeito que quer, para quem quer que seja, e não precisa de motivo para isso. Nem mesmo a vivência trágica do ser humano obriga Deus a tomar qualquer atitude. Deus é livre até mesmo da própria liberdade, e se aparentemente não for justo, não significa que tenha sido injusto. Justiça não é o contrário de injustiça, pois Deus está além destas coisas. Sofrimento não quer dizer punição, assim como a alegria não significa prêmio. Sofrimento e alegria não significam nada. Jó era justo e abastado, continuou justo na miséria. Seu pecado foi não compreender a graça. Graça é ação livre de Deus, e ponto final. A paz de Deus, que excede qualquer compreensão, porque é em graça, é a paz que não tem e nem precisa ser explicada.Não depende de alguma coisa, porque é imotivada. É apenas paz, portanto graça. O que vem de Deus não se explica, é graça. O que vem de Deus não se conserta, é graça. Deus não precisa explicar o que faz e como faz, e isso é graça. Não tem defeito de fabricação, já é perfeito antes de ser qualquer coisa. Já nasce certo, porque é graça.
Daí quando Jó diz que nu havia saído do ventre da mãe, se alegrado e sofrido, vivido e agora morria, tudo era uma questão apenas da graça. Deus dá e tira, sem explicação ou motivo. O que nos resta é bendizer o nome do Senhor. É uma expressão de reconhecimento da graça: vive-se e morre-se nela e por ela. Tanto a morte, como o sofrimento, não a diminuem. A vida não a aumenta. Para que seja abundante, será necessária uma nova ação em graça. Graça é apenas graça, inexplicável graça. O ser humano diante dela é nu, não tem e nunca terá nada. Vida e morte se encontram no mesmo ponto de partida: graça e apenas graça. Não há nada de errado em sofrer enquanto se vive, e viver enquanto se morre, pois tudo é graça.
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 13 de abril de 2008)
Estava disposto a escrever sobre Sêneca, contemporâneo de Jesus: viver é tanto aprender a viver, quanto aprender a morrer. A vida é um aprendizado para a vida, mas é também um aprendizado para a morte. Daí voltei a Jó e encontrei uma contradição semelhante: viver em graça é aprender a sorrir e sofrer, viver e morrer.
Eu sei que há toda uma discussão sobre a datação do livro de Jó. Qualquer pessoa que tenha acesso a livros e críticas, ou mesmo uma conexão de internet, mesmo que discada, vai encontrar trocentos escritos sobre isso. A questão aqui não é a de você ficar desconfiado do texto, mas compreender que talvez o livro de Jó seja mais recente do que se pensava anteriormente e o debate sobre a graça, tema tardio e que já está presente nos profetas, seria o seu assunto principal. Enquanto a perspectiva da graça aparece como um dentre tantos temas na teologia profética, o livro de Jó parece ser todo voltado ao tema, mediante uma rara beleza poética. Tem mais: o profetismo é unilateral, do profeta para o povo. A graça em Jó tem um caráter interpessoal. Trata-se de uma conversa de gente comum sobre Deus e a miséria humana. Pessoas que se amam e se cuidam, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento humano. Seria possível um sofrimento sem causa?
Já passamos por Sêneca e chegamos a Jó. Antes que você pule de parágrafo e comece pelo avesso, preciso dar-lhe a pista de como é que se junta vida e morte, sofrimento e salvação, sob o domínio da graça. Isso parece um absurdo, eu sei. Quando você ouve falar sobre a graça, já sabe que virá algo nobre. Uma palavra próxima seria perdão. Pensou em graça, pensou em perdão, paz e descanso. Uma graça que aniquila a pessoa e que traz sofrimento, lágrimas, dor, perda de filhos, perda de tudo, definitivamente não pode ser graça. Eu sei que você pensa assim. Não se culpe, por favor. Também tenho dificuldade emocional de aceitar isso. Aprendi que tudo o que a gente faz, recebe de volta, seja bom, seja ruim. Daí a idéia de que nada acontece por acaso.
Não quero dizer que isso também não seja bíblico. Abro o texto e o que vou mais encontrar nele é a reflexão sobre os descaminhos de alguém, onde se perdeu, se fez bem, ou se fez mal, como morreu, onde e como foi sepultado, o que fazia e como vivia em época de crise, como enfrentou a morte, o que pensava sobre o viver o certo e se afastar do errado, as conseqüências dos erros – punição e cativeiro, escravidão como despojamento ou aprisionamento da vontade. Tudo isso eu leio e entendo, e por conta dessas coisas fico pensando que pouco sei sobre a graça. Recuso-me a entendê-la porque ela vai além de tudo isso e encontra sentido apenas no agir livre de Deus, coisa que não entendo. Sei o que é, mas não entendo.
Havia um motivo para o sofrimento de Jó? Pode ser que sim, só que nem mesmo Jó o encontrou. Seria pelo fato do ser humano ser limitado e pecador por natureza? Então Jó não seria culpado. Seria possível refletir um pouco mais e encontrar alguma coisa que pudesse justificar tal sofrimento? Isso sim, mas não o suficiente para explicar tudo o que Jó estava sofrendo. A punição fora descomunal e desproporcional. No pensamento de Jó, injusta. Jó só não perdera a vida, mas perdera o prazer de viver e viu o dia do seu nascimento como uma tragédia da natureza. Preferiria não ter nascido, mas nem isso o ser humano pode controlar. Preferiria morrer, mas não se morre por meio do desejo. Jó sabia de quatro coisas: sofria, nada poderia justificar tamanho sofrimento, Deus não castiga quem não merece e castigo de Deus não tem solução. Quando há uma causa, você a identifica, corrige e se libera do sofrimento. O castigo de Deus, em Jó, é como a dor que não está no corpo. É a dor que não tem explicação.
É aí que entra o conceito de graça no texto de Jó: é uma ação livre de Deus e não pode ser pensada a partir do que é justo ou injusto. Deus faz o que quer, do jeito que quer, para quem quer que seja, e não precisa de motivo para isso. Nem mesmo a vivência trágica do ser humano obriga Deus a tomar qualquer atitude. Deus é livre até mesmo da própria liberdade, e se aparentemente não for justo, não significa que tenha sido injusto. Justiça não é o contrário de injustiça, pois Deus está além destas coisas. Sofrimento não quer dizer punição, assim como a alegria não significa prêmio. Sofrimento e alegria não significam nada. Jó era justo e abastado, continuou justo na miséria. Seu pecado foi não compreender a graça. Graça é ação livre de Deus, e ponto final. A paz de Deus, que excede qualquer compreensão, porque é em graça, é a paz que não tem e nem precisa ser explicada.Não depende de alguma coisa, porque é imotivada. É apenas paz, portanto graça. O que vem de Deus não se explica, é graça. O que vem de Deus não se conserta, é graça. Deus não precisa explicar o que faz e como faz, e isso é graça. Não tem defeito de fabricação, já é perfeito antes de ser qualquer coisa. Já nasce certo, porque é graça.
Daí quando Jó diz que nu havia saído do ventre da mãe, se alegrado e sofrido, vivido e agora morria, tudo era uma questão apenas da graça. Deus dá e tira, sem explicação ou motivo. O que nos resta é bendizer o nome do Senhor. É uma expressão de reconhecimento da graça: vive-se e morre-se nela e por ela. Tanto a morte, como o sofrimento, não a diminuem. A vida não a aumenta. Para que seja abundante, será necessária uma nova ação em graça. Graça é apenas graça, inexplicável graça. O ser humano diante dela é nu, não tem e nunca terá nada. Vida e morte se encontram no mesmo ponto de partida: graça e apenas graça. Não há nada de errado em sofrer enquanto se vive, e viver enquanto se morre, pois tudo é graça.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
VAMOS FAZER FILHOS!
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 12 de agosto de 2007, por ocasião do dia dos pais)
Não adianta os jovens e adolescentes ficarem entusiasmados. A conversa não é com vocês, sinto muito. Nem com os solteiros e separados. Daí um morador do meu condomínio disse: tô perdido – minha mulher inventou de ficar grávida! Claro que é uma conversa machista, de quem pensa que mulher se engravida por conta própria. Apesar do mau humor – dele é claro, pois eu estava numa manhã de bem com a vida – dei os parabéns. Com um sorriso amarelo, ele disse que o outro filho já estava com onze anos. De fato, recomeçar tudo de novo, com direito a cólicas, fraldas, papinhas e perder a mulher por um tempo ocupada exclusivamente com a cria, desestimula qualquer um que vive no tempo da ditadura do conforto. Nada que dê trabalho. Você pensa quinze vezes antes de dispensar um funcionário, se preocupa com a família dele, e se surpreende com a felicidade daquele que vai ficar em casa sem fazer nada sem se sentir culpado. Justifica que o motivo é de força maior, e vamos ver a sessão da tarde em plena segunda-feira. A gente só aceita a quebra de ritmo, se for pra menos. Quebra de ritmo pra mais, não é quebra de ritmo, é o vislumbre de agonia.
Deixe o meu vizinho com o machismo dele, que eu vou aqui defendendo o meu cantinho, num estímulo contrário ao discurso de todo mundo: vamos fazer filhos, minha gente! Se você pensa que estou sendo bonzinho, pode tirar o cavalo da chuva. Estou sendo bastante egoísta, porque estou pensando que, sem filhos, não se comemora o dia dos pais (nem das mães). Antes o dia dos pais (e o das mães) era uma festa só. Teve uma vez em casa que resolvemos dar um caminhão de presentes para a minha mãe. Deixe-me explicar que caminhão aqui é apenas uma metáfora, um dizer de excesso, um montão. Pois é, todos pobres, pouca alimentação e pouquíssimo, ou como diria o Chaves, poucossissíssimo dinheiro. Enchemos a mesa com tudo aquilo que mais tarde abasteceria o mercado de um e noventa e nove. Naquele tempo tais lojas não existiam. Colocamos tudo em cima da mesa da cozinha para que ela se assustasse com o nosso carinho pela manhã. Não sei se ela chegou a se levantar de madrugada e antecipadamente soube da surpresa. Se foi assim, fez muito bem o papel de quem ganha alguma coisa e não desanima quem deu – ficou pasma! Ponto pra nós. Depois foi a vez da macarronada, Tubaína e guaraná Santana. Uma festa só: sete filhos em volta de uma mesa comemorando o dia de quem nos dera a vida.
Que pena! A mesma vida, impulsionada por toda a tragédia que tem rondado o mundo e seu crescimento demográfico, está ameaçada de extinção ou de diminuição. Ainda tem o avanço da medicina que tem sido extremamente importante para cuidar dos que têm dó de morrer, acrescentou mais dias aos que já têm vida. Estes não querem ceder espaço e tempo para os que sequer podem expressar os seus desejos. Não se deve dividir nada com um outro, especialmente se a gente tem a opção de não permitir que nasça. Vivíamos numa miséria em casa, dava até dó. Sou o quinto filho e nos tempos atuais não teria a menor chance. Passei fome, mas gostei de ter nascido.
Você vai achar que estou exagerando. Sou pastor, tenho autorização para ser exagerado; faz parte da minha natureza. Talvez você seja um daqueles que acredita que a vida tem que rodar com menos sofrimento, com menos fome no mundo, com mais emprego já que o crescimento demográfico é uma tragédia para a economia. Tá certo: dou a mão à palmatória. Só que o dia dos pais, no plural e na multiplicação, está ficando mais curto, no singular e na subtração. Está ficando triste. A igreja está ficando triste. Sumiram as crianças barulhentas que traziam carrinhos à pilha ao culto, com direito à sirene de polícia e de ambulância. Onde estão as crianças andando pelos corredores da igreja? Aquela sala cheia de cabecinhas, trancinhas, chiquinhas e cabelos cortados no modo americano? Sala cheirando a suor pela correria que marcava o início da escola dominical. Berçários lotados que mais pareciam a produção da Ford: era um atrás do outro. Salas decoradas, brinquedos pelo chão, chupetas encontradas pelo caminho, e muito choro, aquele barulho que ainda cheira à vida, na liberação da angústia do existir, ecoando e penetrando como se fosse toque prolongado e agudo de uma corneta que fazia gemer as cartilagens dos adultos. Não tinha quem não se incomodasse. Hoje já não incomodam mais. Conseguimos impor o cheiro do nosso mofo ao perfume das fraldas, o nosso silêncio sepulcral aos gritos rápidos de alegria de quem corre sabendo que vai sendo perseguida pelo pai que, num dado momento, a fará voar para três, talvez quatro vezes mais a sua própria altura. É o vôo da liberdade, e da segurança. É impossível não mostrar a banguela e o dente solitário.
A vida está ficando chata, porque ser adulto é ser chato. A gente não voa, não caminha pelos corredores, nem sai correndo para o início das aulas. Não tem cheiro de suor - aaaggghhh, que coisa nojenta! Só que é a gente que decide que quem não nasceu, não vai nascer. E ficamos mais tempo do que deveríamos, ocupando um lugar que já não é mais nosso. Mas quem em sã consciência é capaz de concordar com isso? Viemos no bico da cegonha, mas não queremos chegar ao bico do corvo. Nem tudo o que tem bico, penas e voa, faz parte dos nossos sonhos. Esticar a vida e o conforto também é lutar pela sobrevivência. Ficamos espertos nisso.
Minha campanha é legítima: vamos fazer filhos! Distribuir vida, apesar de não ser nossa. Produzir esperança e recriar um paraíso, senão o bíblico, pelo menos um tipo para o qual não falte jardineiro. Quero que no futuro o dia dos pais não seja extinto por falta de candidato.
(texto publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 12 de agosto de 2007, por ocasião do dia dos pais)
Não adianta os jovens e adolescentes ficarem entusiasmados. A conversa não é com vocês, sinto muito. Nem com os solteiros e separados. Daí um morador do meu condomínio disse: tô perdido – minha mulher inventou de ficar grávida! Claro que é uma conversa machista, de quem pensa que mulher se engravida por conta própria. Apesar do mau humor – dele é claro, pois eu estava numa manhã de bem com a vida – dei os parabéns. Com um sorriso amarelo, ele disse que o outro filho já estava com onze anos. De fato, recomeçar tudo de novo, com direito a cólicas, fraldas, papinhas e perder a mulher por um tempo ocupada exclusivamente com a cria, desestimula qualquer um que vive no tempo da ditadura do conforto. Nada que dê trabalho. Você pensa quinze vezes antes de dispensar um funcionário, se preocupa com a família dele, e se surpreende com a felicidade daquele que vai ficar em casa sem fazer nada sem se sentir culpado. Justifica que o motivo é de força maior, e vamos ver a sessão da tarde em plena segunda-feira. A gente só aceita a quebra de ritmo, se for pra menos. Quebra de ritmo pra mais, não é quebra de ritmo, é o vislumbre de agonia.
Deixe o meu vizinho com o machismo dele, que eu vou aqui defendendo o meu cantinho, num estímulo contrário ao discurso de todo mundo: vamos fazer filhos, minha gente! Se você pensa que estou sendo bonzinho, pode tirar o cavalo da chuva. Estou sendo bastante egoísta, porque estou pensando que, sem filhos, não se comemora o dia dos pais (nem das mães). Antes o dia dos pais (e o das mães) era uma festa só. Teve uma vez em casa que resolvemos dar um caminhão de presentes para a minha mãe. Deixe-me explicar que caminhão aqui é apenas uma metáfora, um dizer de excesso, um montão. Pois é, todos pobres, pouca alimentação e pouquíssimo, ou como diria o Chaves, poucossissíssimo dinheiro. Enchemos a mesa com tudo aquilo que mais tarde abasteceria o mercado de um e noventa e nove. Naquele tempo tais lojas não existiam. Colocamos tudo em cima da mesa da cozinha para que ela se assustasse com o nosso carinho pela manhã. Não sei se ela chegou a se levantar de madrugada e antecipadamente soube da surpresa. Se foi assim, fez muito bem o papel de quem ganha alguma coisa e não desanima quem deu – ficou pasma! Ponto pra nós. Depois foi a vez da macarronada, Tubaína e guaraná Santana. Uma festa só: sete filhos em volta de uma mesa comemorando o dia de quem nos dera a vida.
Que pena! A mesma vida, impulsionada por toda a tragédia que tem rondado o mundo e seu crescimento demográfico, está ameaçada de extinção ou de diminuição. Ainda tem o avanço da medicina que tem sido extremamente importante para cuidar dos que têm dó de morrer, acrescentou mais dias aos que já têm vida. Estes não querem ceder espaço e tempo para os que sequer podem expressar os seus desejos. Não se deve dividir nada com um outro, especialmente se a gente tem a opção de não permitir que nasça. Vivíamos numa miséria em casa, dava até dó. Sou o quinto filho e nos tempos atuais não teria a menor chance. Passei fome, mas gostei de ter nascido.
Você vai achar que estou exagerando. Sou pastor, tenho autorização para ser exagerado; faz parte da minha natureza. Talvez você seja um daqueles que acredita que a vida tem que rodar com menos sofrimento, com menos fome no mundo, com mais emprego já que o crescimento demográfico é uma tragédia para a economia. Tá certo: dou a mão à palmatória. Só que o dia dos pais, no plural e na multiplicação, está ficando mais curto, no singular e na subtração. Está ficando triste. A igreja está ficando triste. Sumiram as crianças barulhentas que traziam carrinhos à pilha ao culto, com direito à sirene de polícia e de ambulância. Onde estão as crianças andando pelos corredores da igreja? Aquela sala cheia de cabecinhas, trancinhas, chiquinhas e cabelos cortados no modo americano? Sala cheirando a suor pela correria que marcava o início da escola dominical. Berçários lotados que mais pareciam a produção da Ford: era um atrás do outro. Salas decoradas, brinquedos pelo chão, chupetas encontradas pelo caminho, e muito choro, aquele barulho que ainda cheira à vida, na liberação da angústia do existir, ecoando e penetrando como se fosse toque prolongado e agudo de uma corneta que fazia gemer as cartilagens dos adultos. Não tinha quem não se incomodasse. Hoje já não incomodam mais. Conseguimos impor o cheiro do nosso mofo ao perfume das fraldas, o nosso silêncio sepulcral aos gritos rápidos de alegria de quem corre sabendo que vai sendo perseguida pelo pai que, num dado momento, a fará voar para três, talvez quatro vezes mais a sua própria altura. É o vôo da liberdade, e da segurança. É impossível não mostrar a banguela e o dente solitário.
A vida está ficando chata, porque ser adulto é ser chato. A gente não voa, não caminha pelos corredores, nem sai correndo para o início das aulas. Não tem cheiro de suor - aaaggghhh, que coisa nojenta! Só que é a gente que decide que quem não nasceu, não vai nascer. E ficamos mais tempo do que deveríamos, ocupando um lugar que já não é mais nosso. Mas quem em sã consciência é capaz de concordar com isso? Viemos no bico da cegonha, mas não queremos chegar ao bico do corvo. Nem tudo o que tem bico, penas e voa, faz parte dos nossos sonhos. Esticar a vida e o conforto também é lutar pela sobrevivência. Ficamos espertos nisso.
Minha campanha é legítima: vamos fazer filhos! Distribuir vida, apesar de não ser nossa. Produzir esperança e recriar um paraíso, senão o bíblico, pelo menos um tipo para o qual não falte jardineiro. Quero que no futuro o dia dos pais não seja extinto por falta de candidato.
terça-feira, 8 de abril de 2008
NINGUÉM É GENTE
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(crônica publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 06 de abril de 2008)
Voltei à escola pública. Encontrei um ex-aluno e amigo numa unidade da periferia, olhou-me desconfiado, desejando saber o que eu fazia por lá num dia de semana à noite. Deu um sorriso meio de canto: Esse não é o seu lugar! Sua voz saiu numa afirmação decrescente, como se desejasse sussurrar a palavra “lugar”. Certamente dava à decepção um tom dramático. Não observei na fala qualquer reprovação. Tinha uma cadência mais para triste. Talvez pensasse que eu seria mais útil ministrando aulas de Teologia, quem sabe Novo Testamento, Filosofia da Religião, Teologia Contemporânea, História da Teologia, Teologias do Antigo e Novo Testamento, mais Antigo que Novo, uma das minhas paixões, crítica literária, crítica da forma, história das tradições, ou até mesmo Hermenêutica, na nova leitura pelos caminhos da metáfora e imaginário simbólico presentes na literatura do mundo antigo.
A conversa foi no início do início, antes da minha reestréia na escola pública. Quando da minha despedida, no começo dos anos 90 do século passado (para parecer mais distante), pensei que jamais voltaria. Ouvi atentamente a palavra amiga, como um elogio. Talvez não fosse. Também sorri. Não disse nada, e entrei pelo caminho de uma conversa sem importância. Não mencionei a minha paixão pela escola pública. Lugar da liberdade e do livre pensar, coisa rara, daí a razão pela qual os relacionamentos lá são tão complicados. Ainda não sabia qual seria a minha reação com o retorno depois de tantos anos. Também estava curioso, até um pouco inseguro. Iria encontrar um novo adolescente, muito diferente daquele no perdido início dos anos noventa, que a essa altura, possivelmente, muitos já seriam avós.
Voltei para casa depois da primeira re-experiência, como um ex-recruta. Fui recebido com um certo tom de humor: E daí, como foi? Havia sido muito bom. A minha disciplina, num projeto de inclusão, é ética e cidadania, que nada mais é do que conversar sobre os valores da vida. Naquele dia havia contado ao alunos a minha história. Falei-lhes do rito de passagem que havia em casa para os meninos, quando estes completassem doze anos: ganhar do pai uma caixa de engraxate, feita de madeira aproveitada de caixa de laranja, equipada com uma pasta Nugget preta, outra marrom e outra incolor, escovas para cada uma delas e trapos de roupas velhas. A caixa tinha uma “portinha” com dobradiça de couro, já que uma outra seria muito cara, e uma lingüeta como tranca. Falei-lhes dos dois ou três quilômetros de caminhada, descalço, até a praça central, pelo calçadão da Paulista, a batida da escova na lateral da caixa para o “cliente” colocar o outro pé, a escova desgastando o excesso para o brilho, com maestria, como se fosse uma batuta. Finalmente o toque do pano sobre o calçado, ora suave, ora agressivo, como uma sinfonia. Os alunos escutavam. Formavam um círculo ao meu redor, ninguém escrevia nada, os cadernos fechados, os livros também, os olhos abertos perguntando se tudo era mesmo verdade. O que significa ser doutor, professor?- e lá vieram mais histórias sobre a memória da vida, os cadernos feitos com papel de pão e o sorvete de garapa dos inimagináveis anos 60.
Senti-me como se tivesse redescoberto algo que jamais deveria ter esquecido. Adolescentes pobres, que olharam o meu velho computador, e bota velho nisso! – Da hora seu computador professor! Acessa a internet? Depois soube dos pais separados, das meninas que já têm filhos, dos que tiveram passagem pela polícia, dos que não conseguem parar de falar, do lugar onde moram, ruas sem nada e de mulheres que roubaram os maridos de outras e vivem quase no mesmo endereço, do mesmo lado da calçada. Padrastos, madrastas, namorados da mãe, namoradas do pai, os outros filhos do meu pai, os outros filhos da minha mãe, ou do pai do meu irmão, do meu segundo irmão porque o primeiro tem ainda um outro pai, do irmão preso, do tio traficante, a espera do primeiro período de aulas para comer um bolinho inglês seco (e tinha que ser tipo europeu). Come-se um e outros trinta vão escondidos em bolsa, bolso, debaixo da camiseta rasgada, mas não faltava o boné, nem a bolsa cor-de-rosa de um sintético barato. Havia ali médicos e médicas, fisioterapeutas, advogados e até estilistas, profissionais que dificilmente irão além do segundo grau, uns acabarão nas ruas, outros verão os sonhos declinando como um sol que se cansou do dia.
A vida é isso, bruta, real e doída. Ela se desenrolava enquanto eu havia estado em reclusão tentando compreender a cultura do mundo antigo e a filosofia existencial. Numa das noites, olhei pela janela e perguntei: Que estrada é aquela que passa lá embaixo? Um aluno respondeu sem olhar: É a Band, professor. Voltei a perguntar: E os bairros? Aí todos responderam como se fosse um coro: é o DIC, o Ouro Verde, aqui mais pra direita. Pensei: Como será o DIC? A minha missão é de ser uma voz às nações, e eu não sei nem o que significa “DIC”; não me lembro de ter passado por lá. A sombra da noite, e o pó do vidro sobrepunham o meu rosto às luzes, de tal forma que eu não sabia se estava olhando para fora ou para dentro.
Belchior diz que ninguém é gente. Não quer dizer que não haja pessoas no mundo, mas exatamente o contrário: os esquecidos, aqueles que para nós não passam de ninguém, são na verdade gente anônima considerada nada. Éramos povo, e agora somos massa, disse Camus. A massa esconde os ninguéns que deixam de ser pessoas e passam a ser estatística de desempregados, analfabetos e excluídos dos processos sociais. Os discípulos de Jesus, que formaram a primeira igreja cristã que se tem notícia, achavam no início que só eles eram gente (Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?). Depois Pedro achou que Cornélio era ninguém. João Batista descobriu-se apenas como uma voz, e Paulo entendeu que o ninguém era ele mesmo. É preciso ser ninguém para se tornar gente. Não sei o que é ser pastor, para quem não foi engraxate, nem andou descalço. Foi bom ter voltado. Não sei dizer se eu era professor ou aluno.
(crônica publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 06 de abril de 2008)
Voltei à escola pública. Encontrei um ex-aluno e amigo numa unidade da periferia, olhou-me desconfiado, desejando saber o que eu fazia por lá num dia de semana à noite. Deu um sorriso meio de canto: Esse não é o seu lugar! Sua voz saiu numa afirmação decrescente, como se desejasse sussurrar a palavra “lugar”. Certamente dava à decepção um tom dramático. Não observei na fala qualquer reprovação. Tinha uma cadência mais para triste. Talvez pensasse que eu seria mais útil ministrando aulas de Teologia, quem sabe Novo Testamento, Filosofia da Religião, Teologia Contemporânea, História da Teologia, Teologias do Antigo e Novo Testamento, mais Antigo que Novo, uma das minhas paixões, crítica literária, crítica da forma, história das tradições, ou até mesmo Hermenêutica, na nova leitura pelos caminhos da metáfora e imaginário simbólico presentes na literatura do mundo antigo.
A conversa foi no início do início, antes da minha reestréia na escola pública. Quando da minha despedida, no começo dos anos 90 do século passado (para parecer mais distante), pensei que jamais voltaria. Ouvi atentamente a palavra amiga, como um elogio. Talvez não fosse. Também sorri. Não disse nada, e entrei pelo caminho de uma conversa sem importância. Não mencionei a minha paixão pela escola pública. Lugar da liberdade e do livre pensar, coisa rara, daí a razão pela qual os relacionamentos lá são tão complicados. Ainda não sabia qual seria a minha reação com o retorno depois de tantos anos. Também estava curioso, até um pouco inseguro. Iria encontrar um novo adolescente, muito diferente daquele no perdido início dos anos noventa, que a essa altura, possivelmente, muitos já seriam avós.
Voltei para casa depois da primeira re-experiência, como um ex-recruta. Fui recebido com um certo tom de humor: E daí, como foi? Havia sido muito bom. A minha disciplina, num projeto de inclusão, é ética e cidadania, que nada mais é do que conversar sobre os valores da vida. Naquele dia havia contado ao alunos a minha história. Falei-lhes do rito de passagem que havia em casa para os meninos, quando estes completassem doze anos: ganhar do pai uma caixa de engraxate, feita de madeira aproveitada de caixa de laranja, equipada com uma pasta Nugget preta, outra marrom e outra incolor, escovas para cada uma delas e trapos de roupas velhas. A caixa tinha uma “portinha” com dobradiça de couro, já que uma outra seria muito cara, e uma lingüeta como tranca. Falei-lhes dos dois ou três quilômetros de caminhada, descalço, até a praça central, pelo calçadão da Paulista, a batida da escova na lateral da caixa para o “cliente” colocar o outro pé, a escova desgastando o excesso para o brilho, com maestria, como se fosse uma batuta. Finalmente o toque do pano sobre o calçado, ora suave, ora agressivo, como uma sinfonia. Os alunos escutavam. Formavam um círculo ao meu redor, ninguém escrevia nada, os cadernos fechados, os livros também, os olhos abertos perguntando se tudo era mesmo verdade. O que significa ser doutor, professor?- e lá vieram mais histórias sobre a memória da vida, os cadernos feitos com papel de pão e o sorvete de garapa dos inimagináveis anos 60.
Senti-me como se tivesse redescoberto algo que jamais deveria ter esquecido. Adolescentes pobres, que olharam o meu velho computador, e bota velho nisso! – Da hora seu computador professor! Acessa a internet? Depois soube dos pais separados, das meninas que já têm filhos, dos que tiveram passagem pela polícia, dos que não conseguem parar de falar, do lugar onde moram, ruas sem nada e de mulheres que roubaram os maridos de outras e vivem quase no mesmo endereço, do mesmo lado da calçada. Padrastos, madrastas, namorados da mãe, namoradas do pai, os outros filhos do meu pai, os outros filhos da minha mãe, ou do pai do meu irmão, do meu segundo irmão porque o primeiro tem ainda um outro pai, do irmão preso, do tio traficante, a espera do primeiro período de aulas para comer um bolinho inglês seco (e tinha que ser tipo europeu). Come-se um e outros trinta vão escondidos em bolsa, bolso, debaixo da camiseta rasgada, mas não faltava o boné, nem a bolsa cor-de-rosa de um sintético barato. Havia ali médicos e médicas, fisioterapeutas, advogados e até estilistas, profissionais que dificilmente irão além do segundo grau, uns acabarão nas ruas, outros verão os sonhos declinando como um sol que se cansou do dia.
A vida é isso, bruta, real e doída. Ela se desenrolava enquanto eu havia estado em reclusão tentando compreender a cultura do mundo antigo e a filosofia existencial. Numa das noites, olhei pela janela e perguntei: Que estrada é aquela que passa lá embaixo? Um aluno respondeu sem olhar: É a Band, professor. Voltei a perguntar: E os bairros? Aí todos responderam como se fosse um coro: é o DIC, o Ouro Verde, aqui mais pra direita. Pensei: Como será o DIC? A minha missão é de ser uma voz às nações, e eu não sei nem o que significa “DIC”; não me lembro de ter passado por lá. A sombra da noite, e o pó do vidro sobrepunham o meu rosto às luzes, de tal forma que eu não sabia se estava olhando para fora ou para dentro.
Belchior diz que ninguém é gente. Não quer dizer que não haja pessoas no mundo, mas exatamente o contrário: os esquecidos, aqueles que para nós não passam de ninguém, são na verdade gente anônima considerada nada. Éramos povo, e agora somos massa, disse Camus. A massa esconde os ninguéns que deixam de ser pessoas e passam a ser estatística de desempregados, analfabetos e excluídos dos processos sociais. Os discípulos de Jesus, que formaram a primeira igreja cristã que se tem notícia, achavam no início que só eles eram gente (Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?). Depois Pedro achou que Cornélio era ninguém. João Batista descobriu-se apenas como uma voz, e Paulo entendeu que o ninguém era ele mesmo. É preciso ser ninguém para se tornar gente. Não sei o que é ser pastor, para quem não foi engraxate, nem andou descalço. Foi bom ter voltado. Não sei dizer se eu era professor ou aluno.
sábado, 29 de março de 2008
UM SONHO PERDIDO CHAMADO CÉU
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 30 de março de 2008)
Uma aluna me perguntou: se o que a gente vê não é o céu, o que significa aquele azul? Não era uma criança, mas tratava-se de uma pessoa adulta, moradora de um bairro pobre de Campinas. Tentei falar-lhe sobre a imensidão e o vazio onde a vida está plantada, que o “céu” no sentido religioso tem um outro sentido. Ela olhou-me com a cabeça torta, enxergando a própria sobrancelha, perguntando com os olhos e respondendo pela incompreensão, curiosa sobre a possível diferença entre uma coisa e outra. Fazia já muito tempo que uma pessoa não me perguntava sobre o céu. Mais que isso, alguém que entendia o céu como um algo acima, como os antigos, e tinha que estar acima para ser melhor. Acho que o céu é uma espécie de sonho perdido.
Se você me perguntar o que está acontecendo, talvez não saiba responder, embora tenha a obrigação de fazê-lo. Houve um tempo quando o céu era uma ameaça à conscientização das reais condições da tragédia humana. Ninguém se esquece da religião como ópio do povo. Quem vivia o céu, vivia fora da realidade. As virtudes cristãs, como o amor, o respeito à vida e a dependência da justiça divina, por exemplo, enfraqueciam a luta humana em favor da justiça social, esta só seria alcançada mediante a declaração de um conflito de guerra: trabalhadores do mundo, uni-vos! Pensar o céu era esquecer a vida.
Havia uma razão para isso. O céu não vinha sozinho. Não se tratava apenas de uma esperança solta, deslocada, solitária, como que desvinculado de outras coisas. Nada disso. O céu era o horizonte do final feliz. No seu encalço estava todo o discurso cristão, com o seu fundamento estóico de desapego à vida, temperado, curtido e assado lentamente pelo perdão, humildade, esperança e fé, tudo junto. Essas coisas não prejudicavam o sabor do céu, mas o enriquecia. Faziam dele algo mais do que um estar apenas depois da vida. Era antecipado e degustado enquanto preparado. Nunca vi um prato ficar pronto antes de estar pronto. Com o céu era diferente. Já estava pronto quando inacabado, e depois de pronto ficaria igual ao que era antes. E a gente vivia a vida cristã comendo um pouco de céu por dia, e ele não diminuía, mas aumentava. Aumentava também a curiosidade sobre o pronto do pronto, e a gente sonhava e gostava de dormir só para continuar sonhando.
É claro que não era só isso. As ameaças da vida eram reais. Vivíamos aquele discurso de que as coisas estariam de fato no final. Aquele imaginário cruel do mil passará, o dois mil não chegará, guerra-fria, Vietnã, ditaduras militares na América Latina, as notícias solenes dadas em tom gutural por atores-repórteres sobre os conflitos no Oriente Médio, Egito contra Israel, Israel contra Palestinos, Kadafi contra o resto do mundo, e o que mais se falava era do Armagedom. Isso arrepiava qualquer um. Estávamos apenas esperando o quando.
O fim não veio, o milênio passou, Woodstook virou história. Id Amin também. Os militares estão de pijama e vão bem, obrigado. Kadafi caiu no esquecimento e a Líbia só é lembrada quando alguém, por acaso, observa o mapa em busca da Europa e tropeça com os olhos no caminho.
O fim não veio, mas o céu se foi. O perdão perdeu o seu caráter de esperança e se transformou em convivência. A fé mudou o seu objeto, e já que o céu não veio como a gente sonhava, um tinha que morrer: ou o sonho, ou o céu. Te dou um doce se adivinhar o que aconteceu. Matamos o céu. Foi simples: mudamos o seu “conteúdo”. Criamos um céu sem céu, virou seu, e o discurso assumiu o caráter de céu de vida boa, carro novo, casa nova, emprego novo, céu que virou sucesso e se escondeu no armário vestido de terno ou de Victor Hugo. A esperança ficou tímida. Quase não se fala mais dela. A humildade, sinônimo de pobreza, desavergonhou-se por completo. Ela precisava morrer também, tinha que virar outra coisa, nada de coisa pobre, afinal pobre gosta de dinheiro, quem gosta de miséria é intelectual. Daí a humildade foi transformada em sentimento. Faz algum sentido a humildade ser sentimento? Humildade pra mim é o desapego a tudo o que pode dar ao ser humano a condição de ser o dono do mundo, como se dele, e somente dele, viesse a felicidade e o desassossego. Vender tudo o que tem e dar aos pobres, ficar sem nada, nu, apenas pessoa, nada mais que pessoa, como veio e como irá, sem mais, nem menos, o retorno ao pó se desejar ser bíblico, pensar um pouco e responder a questão que até hoje pouca gente sabe o que fazer com ela: louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? Pergunta boa essa! Se você ainda não sabe, é uma pergunta pelo céu, pelo depois, a esperança que virá, o futuro que não é e que não faz parte de nenhum planejamento de vida, não tem concurso. Ruptura completa com tudo o que é de mais sagrado: liberdade, valores, pensamentos, conhecimento, amigos, parentes, trabalho, bens, estilo de vida, e a lista não tem fim, recebendo como marca e coroa um tremendo ponto final, bem redondinho, indefinível, como um esquecido no final da linha, ou no início de uma reta, quase não dá pra enxergar, parece mais um escorregão da caneta, e a gente só o vê por causa da letra maiúscula no começo de uma nova oração. Tanto faz ser uma oração depois do ponto, ou uma oração depois da vida: tudo é sonho de um novo começo.
Eu não gosto disso, nem um pouco. Não gosto do céu que criamos, nem da humildade burguesa que virou sentimento (coisa ridícula!). O céu tem que ficar lá, onde sempre esteve. Tem que ser a esperança, tem que ser a nova oração iniciada com letra maiúscula, depois do ponto, travessão noutra linha e parágrafo: uma outra conversa. Aquele céu que está lá, ainda precisa continuar regendo a nossa vida de cá. Lá tem que estar o desejado e perfeito belo, a desejada e perfeita virtude, a desejada e perfeita vida, a desejada e perfeita alegria, a plenitude perfeita do que é mais puro e sublime. O céu que criamos, feito de botox e silicone, pra mim não serve. É pálido. Era só o que me faltava, um céu com cara de Michael Jackson.
(publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 30 de março de 2008)
Uma aluna me perguntou: se o que a gente vê não é o céu, o que significa aquele azul? Não era uma criança, mas tratava-se de uma pessoa adulta, moradora de um bairro pobre de Campinas. Tentei falar-lhe sobre a imensidão e o vazio onde a vida está plantada, que o “céu” no sentido religioso tem um outro sentido. Ela olhou-me com a cabeça torta, enxergando a própria sobrancelha, perguntando com os olhos e respondendo pela incompreensão, curiosa sobre a possível diferença entre uma coisa e outra. Fazia já muito tempo que uma pessoa não me perguntava sobre o céu. Mais que isso, alguém que entendia o céu como um algo acima, como os antigos, e tinha que estar acima para ser melhor. Acho que o céu é uma espécie de sonho perdido.
Se você me perguntar o que está acontecendo, talvez não saiba responder, embora tenha a obrigação de fazê-lo. Houve um tempo quando o céu era uma ameaça à conscientização das reais condições da tragédia humana. Ninguém se esquece da religião como ópio do povo. Quem vivia o céu, vivia fora da realidade. As virtudes cristãs, como o amor, o respeito à vida e a dependência da justiça divina, por exemplo, enfraqueciam a luta humana em favor da justiça social, esta só seria alcançada mediante a declaração de um conflito de guerra: trabalhadores do mundo, uni-vos! Pensar o céu era esquecer a vida.
Havia uma razão para isso. O céu não vinha sozinho. Não se tratava apenas de uma esperança solta, deslocada, solitária, como que desvinculado de outras coisas. Nada disso. O céu era o horizonte do final feliz. No seu encalço estava todo o discurso cristão, com o seu fundamento estóico de desapego à vida, temperado, curtido e assado lentamente pelo perdão, humildade, esperança e fé, tudo junto. Essas coisas não prejudicavam o sabor do céu, mas o enriquecia. Faziam dele algo mais do que um estar apenas depois da vida. Era antecipado e degustado enquanto preparado. Nunca vi um prato ficar pronto antes de estar pronto. Com o céu era diferente. Já estava pronto quando inacabado, e depois de pronto ficaria igual ao que era antes. E a gente vivia a vida cristã comendo um pouco de céu por dia, e ele não diminuía, mas aumentava. Aumentava também a curiosidade sobre o pronto do pronto, e a gente sonhava e gostava de dormir só para continuar sonhando.
É claro que não era só isso. As ameaças da vida eram reais. Vivíamos aquele discurso de que as coisas estariam de fato no final. Aquele imaginário cruel do mil passará, o dois mil não chegará, guerra-fria, Vietnã, ditaduras militares na América Latina, as notícias solenes dadas em tom gutural por atores-repórteres sobre os conflitos no Oriente Médio, Egito contra Israel, Israel contra Palestinos, Kadafi contra o resto do mundo, e o que mais se falava era do Armagedom. Isso arrepiava qualquer um. Estávamos apenas esperando o quando.
O fim não veio, o milênio passou, Woodstook virou história. Id Amin também. Os militares estão de pijama e vão bem, obrigado. Kadafi caiu no esquecimento e a Líbia só é lembrada quando alguém, por acaso, observa o mapa em busca da Europa e tropeça com os olhos no caminho.
O fim não veio, mas o céu se foi. O perdão perdeu o seu caráter de esperança e se transformou em convivência. A fé mudou o seu objeto, e já que o céu não veio como a gente sonhava, um tinha que morrer: ou o sonho, ou o céu. Te dou um doce se adivinhar o que aconteceu. Matamos o céu. Foi simples: mudamos o seu “conteúdo”. Criamos um céu sem céu, virou seu, e o discurso assumiu o caráter de céu de vida boa, carro novo, casa nova, emprego novo, céu que virou sucesso e se escondeu no armário vestido de terno ou de Victor Hugo. A esperança ficou tímida. Quase não se fala mais dela. A humildade, sinônimo de pobreza, desavergonhou-se por completo. Ela precisava morrer também, tinha que virar outra coisa, nada de coisa pobre, afinal pobre gosta de dinheiro, quem gosta de miséria é intelectual. Daí a humildade foi transformada em sentimento. Faz algum sentido a humildade ser sentimento? Humildade pra mim é o desapego a tudo o que pode dar ao ser humano a condição de ser o dono do mundo, como se dele, e somente dele, viesse a felicidade e o desassossego. Vender tudo o que tem e dar aos pobres, ficar sem nada, nu, apenas pessoa, nada mais que pessoa, como veio e como irá, sem mais, nem menos, o retorno ao pó se desejar ser bíblico, pensar um pouco e responder a questão que até hoje pouca gente sabe o que fazer com ela: louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? Pergunta boa essa! Se você ainda não sabe, é uma pergunta pelo céu, pelo depois, a esperança que virá, o futuro que não é e que não faz parte de nenhum planejamento de vida, não tem concurso. Ruptura completa com tudo o que é de mais sagrado: liberdade, valores, pensamentos, conhecimento, amigos, parentes, trabalho, bens, estilo de vida, e a lista não tem fim, recebendo como marca e coroa um tremendo ponto final, bem redondinho, indefinível, como um esquecido no final da linha, ou no início de uma reta, quase não dá pra enxergar, parece mais um escorregão da caneta, e a gente só o vê por causa da letra maiúscula no começo de uma nova oração. Tanto faz ser uma oração depois do ponto, ou uma oração depois da vida: tudo é sonho de um novo começo.
Eu não gosto disso, nem um pouco. Não gosto do céu que criamos, nem da humildade burguesa que virou sentimento (coisa ridícula!). O céu tem que ficar lá, onde sempre esteve. Tem que ser a esperança, tem que ser a nova oração iniciada com letra maiúscula, depois do ponto, travessão noutra linha e parágrafo: uma outra conversa. Aquele céu que está lá, ainda precisa continuar regendo a nossa vida de cá. Lá tem que estar o desejado e perfeito belo, a desejada e perfeita virtude, a desejada e perfeita vida, a desejada e perfeita alegria, a plenitude perfeita do que é mais puro e sublime. O céu que criamos, feito de botox e silicone, pra mim não serve. É pálido. Era só o que me faltava, um céu com cara de Michael Jackson.
terça-feira, 25 de março de 2008
RESSURREIÇÃO E VIDA
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em abril de 2004, e 23 de março de 2008)
Quem pode explicar a ressurreição? Este talvez seja o um dos grandes erros de gente que acha que tudo na religião, ou mais precisamente no cristianismo, necessita de explicação. Já teve gente achando que a ressurreição é uma questão psicológica, interna de cada um, depende de quem crê, ou ainda que a ressurreição acontece todos os dias. Outra besteira é colocar a ressurreição apenas do ponto de vista físico: mostrar a impossibilidade de um corpo voltar a ter vida, o cérebro funcionar novamente, etc. A ressurreição não é um problema de estudo da psicologia, nem da medicina. A ressurreição é um problema religioso, teológico, e só a teologia é capaz de lidar com ela.
Isto porque a Bíblia não está preocupada com estas coisas. O milagre da ressurreição não foi o de Jesus voltar da morte física. Isto parece claro porque o próprio texto bíblico diz sobre outras pessoas que ressuscitaram, e não tiveram tanta importância como Jesus. Pode ser dito que os demais, em relação a Jesus, voltaram a morrer. Só que isso não é suficiente, porque seria o mesmo que colocar a ressurreição de Jesus ao lado das outras: igual, mas com um pouco a mais de qualidade. Isso é diminuir a ressurreição.
Ressurreição é outra coisa, e é mais do que um milagre. Seria necessário um esforço de sua parte na tentativa de compreender a expectativa gerada a partir do ministério de Jesus. Foi um ministério singular, resgatou o valor da vida, mostrou a precariedade do sistema religioso da época, a opressão e vida do pobre, a miséria social, econômica e moral. De repente, tudo acabou, Jesus morreu. Não poderia ter morrido, mas morreu. Poderia ter chamado anjos, mas não quis. Poderia ter dado um jeito para não sofrer tanto, ou morrer tanto, mas não fez, não quis, não mudou. Morreu e deixou-se morrer. Vivo poderia continuar a tratar da injustiça social, da fome, do pobre, e reformar a religião decadente. Poderia, mas não quis, morreu e morreu mesmo. Vivo seria um líder, poderia tomar o poder dos romanos, poderia promover uma “guerra santa”. Só que morreu, e morreu mesmo. Se a ressurreição fosse uma questão de dar vida a um corpo físico, Jesus voltaria para continuar a sua reforma social e política, e mostraria que o seu poder seria suficiente para vencer a própria morte.
Nada disso, Jesus ressuscitou e foi embora. Passou um tempo conversando com este ou aquele, grupo pequeno ou grande, e depois foi embora. Não fez mais nada de novo, não reassumiu o que havia deixado, não voltou só por voltar. Aliás, não voltou. Foi embora. Não tinha mais nada para fazer, tudo estava feito, completo. Não resolveu tudo, porque não viveu para resolver tudo. Também não ressuscitou para completar o que não tinha conseguido fazer antes da morte. Antes da morte, fizera tudo o que precisava ser feito, não tinha qualquer necessidade de voltar ao mundo “físico” para continuar nada. Só ressuscitou, e foi embora. Se tivesse continuado teria sido um testemunho e tanto, andando de novo em Jerusalém, depois que a cidade o vira caminhar com a cruz nas costas. Só que isso, por mais milagroso que pudesse ser, ainda seria reduzir o significado da ressurreição.
A ressurreição é mais do que isso. Mais que um milagre é a recriação de um novo princípio. Uma recriação que faz João reescrever o Gênesis: No princípio era o verbo... É a mesma coisa que: No princípio criou Deus os céus e a terra. É a vida de novo, mas uma vida diferente. Antes uma vida que vivia para a morte, agora uma vida que vive para vida. É como se fosse um superlativo de vida, algo sem fim, sem medo, sem destino trágico, sem a angústia do ter que morrer. É vida, simplesmente vida. Vida para além da vida, apenas vida e só vida. Depois da vida, vida que não tem morte. Por isso Jesus não teve o que fazer, apenas ir embora. Tudo estava completo, não porque havia um corpo, mas porque havia vida. A expressão registrada no Evangelho de João de que Jesus veio para termos vida, e vida abundante, deve ser compreendida neste sentido. João relata muitos sinais que Jesus fez, a começar por transformar a água em vinho. Nenhum outro Evangelho registrou tantos milagres, tantos sinais. A ressurreição não foi um sinal a mais, foi a instauração da vida, vida livre, afastando por completo a ameaça da morte.
A pergunta que se faz não é se a ressurreição seria possível ou não. A pergunta deveria ser: o que tanto de vida há na ressurreição? Esta tem como resposta a profundidade da vida. Não se sabe o que é vida, como não se sabe direito o que seja ressurreição. Só a impossibilidade da ressurreição leva ao mistério da vida sobre vida, ou graça sobre graça, como preferiu João. Não tem tamanho, nem ameaça, nem morte, apenas abundante. O que já era imenso, sem medita ou limite, chamado vida ficou ainda maior, ficou abundante. Só a ressurreição pode explicar isso.
(publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em abril de 2004, e 23 de março de 2008)
Quem pode explicar a ressurreição? Este talvez seja o um dos grandes erros de gente que acha que tudo na religião, ou mais precisamente no cristianismo, necessita de explicação. Já teve gente achando que a ressurreição é uma questão psicológica, interna de cada um, depende de quem crê, ou ainda que a ressurreição acontece todos os dias. Outra besteira é colocar a ressurreição apenas do ponto de vista físico: mostrar a impossibilidade de um corpo voltar a ter vida, o cérebro funcionar novamente, etc. A ressurreição não é um problema de estudo da psicologia, nem da medicina. A ressurreição é um problema religioso, teológico, e só a teologia é capaz de lidar com ela.
Isto porque a Bíblia não está preocupada com estas coisas. O milagre da ressurreição não foi o de Jesus voltar da morte física. Isto parece claro porque o próprio texto bíblico diz sobre outras pessoas que ressuscitaram, e não tiveram tanta importância como Jesus. Pode ser dito que os demais, em relação a Jesus, voltaram a morrer. Só que isso não é suficiente, porque seria o mesmo que colocar a ressurreição de Jesus ao lado das outras: igual, mas com um pouco a mais de qualidade. Isso é diminuir a ressurreição.
Ressurreição é outra coisa, e é mais do que um milagre. Seria necessário um esforço de sua parte na tentativa de compreender a expectativa gerada a partir do ministério de Jesus. Foi um ministério singular, resgatou o valor da vida, mostrou a precariedade do sistema religioso da época, a opressão e vida do pobre, a miséria social, econômica e moral. De repente, tudo acabou, Jesus morreu. Não poderia ter morrido, mas morreu. Poderia ter chamado anjos, mas não quis. Poderia ter dado um jeito para não sofrer tanto, ou morrer tanto, mas não fez, não quis, não mudou. Morreu e deixou-se morrer. Vivo poderia continuar a tratar da injustiça social, da fome, do pobre, e reformar a religião decadente. Poderia, mas não quis, morreu e morreu mesmo. Vivo seria um líder, poderia tomar o poder dos romanos, poderia promover uma “guerra santa”. Só que morreu, e morreu mesmo. Se a ressurreição fosse uma questão de dar vida a um corpo físico, Jesus voltaria para continuar a sua reforma social e política, e mostraria que o seu poder seria suficiente para vencer a própria morte.
Nada disso, Jesus ressuscitou e foi embora. Passou um tempo conversando com este ou aquele, grupo pequeno ou grande, e depois foi embora. Não fez mais nada de novo, não reassumiu o que havia deixado, não voltou só por voltar. Aliás, não voltou. Foi embora. Não tinha mais nada para fazer, tudo estava feito, completo. Não resolveu tudo, porque não viveu para resolver tudo. Também não ressuscitou para completar o que não tinha conseguido fazer antes da morte. Antes da morte, fizera tudo o que precisava ser feito, não tinha qualquer necessidade de voltar ao mundo “físico” para continuar nada. Só ressuscitou, e foi embora. Se tivesse continuado teria sido um testemunho e tanto, andando de novo em Jerusalém, depois que a cidade o vira caminhar com a cruz nas costas. Só que isso, por mais milagroso que pudesse ser, ainda seria reduzir o significado da ressurreição.
A ressurreição é mais do que isso. Mais que um milagre é a recriação de um novo princípio. Uma recriação que faz João reescrever o Gênesis: No princípio era o verbo... É a mesma coisa que: No princípio criou Deus os céus e a terra. É a vida de novo, mas uma vida diferente. Antes uma vida que vivia para a morte, agora uma vida que vive para vida. É como se fosse um superlativo de vida, algo sem fim, sem medo, sem destino trágico, sem a angústia do ter que morrer. É vida, simplesmente vida. Vida para além da vida, apenas vida e só vida. Depois da vida, vida que não tem morte. Por isso Jesus não teve o que fazer, apenas ir embora. Tudo estava completo, não porque havia um corpo, mas porque havia vida. A expressão registrada no Evangelho de João de que Jesus veio para termos vida, e vida abundante, deve ser compreendida neste sentido. João relata muitos sinais que Jesus fez, a começar por transformar a água em vinho. Nenhum outro Evangelho registrou tantos milagres, tantos sinais. A ressurreição não foi um sinal a mais, foi a instauração da vida, vida livre, afastando por completo a ameaça da morte.
A pergunta que se faz não é se a ressurreição seria possível ou não. A pergunta deveria ser: o que tanto de vida há na ressurreição? Esta tem como resposta a profundidade da vida. Não se sabe o que é vida, como não se sabe direito o que seja ressurreição. Só a impossibilidade da ressurreição leva ao mistério da vida sobre vida, ou graça sobre graça, como preferiu João. Não tem tamanho, nem ameaça, nem morte, apenas abundante. O que já era imenso, sem medita ou limite, chamado vida ficou ainda maior, ficou abundante. Só a ressurreição pode explicar isso.
sábado, 15 de março de 2008
PERDÃO: INGREDIENTES, DATA DE FABRICAÇÃO E PRAZO DE VALIDADE
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicado no Boletim Dominical da Igreja Batista em Barão Geraldo, 16 de março de 2008)
Eu sei que você não gosta dessa conversa, mas perdão tem prazo de validade. Você prefere o setenta vezes sete, mas isso não se refere ao tempo, mas à quantidade. E se acontecer de novo, igualzinho, sem tirar nada, como fica? Não fica. Em termos de quantidade o perdão não tem limite. O negócio é munir-se de paciência, agüentar firme, burilar as emoções, cuidar dos sentimentos e perdoar - again, again, again.
O prazo de validade do perdão está no Sermão do Monte. Como sabemos, o Evangelho de Mateus foi escrito em época de perseguição, e quase tudo nele tem esse sentido, e tinha que começar com as bem-aventuranças: a felicidade acima da conta em tempo de morte. Ser bem-aventurado é a condição daquele que suporta todas as adversidades, é perseguido, enfrenta uma guerra, mas promove a paz, dedicando-se à defesa da fé com uma total pureza de coração, e o resultado é ver a Deus. Os bem-aventurados também são os mesmos que esperam a justiça perfeita e que não irá tardar; choram as suas dores, e já podem viver a plenitude da felicidade, porque serão pastoreados pessoalmente pelo Senhor. Ser humilde de espírito e manso de coração são os desafios em meio à tragédia da vida, mas o resultado é a bem-aventurança da conquista de um reino e a herança de uma nova terra. Observada por essa perspectiva, a perseguição é um privilégio de poucos e motivo de regozijo, especialmente se for absolutamente injusta, permeada de mentira: a injusta fica mais injusta, e a alegria fica mais alegre. O ser sal não seria outra coisa senão o viver a plena felicidade: beber e se lambuzar do tempo da bem-aventurança durante a travessia da plena turbulência e perseguição. Não adianta querer se esconder: todo discípulo verdadeiro é luz do mundo, vai ser visto e perseguido, as boas obras irão iluminar até quem os persegue, os quais ficarão se perguntando: qual o significado disso? Não é uma questão de fuga. Trata-se da natureza do próprio Evangelho que é assim e somente assim.
Quem não compreende a contradição entre a perseguição injusta, mais injusta que já poderia ter sido vista, em contraste com a dor mais doída de quem sofre sem precisar sofrer, e a alegria mais alegre de poder superar tudo isso, não entende as bem-aventuranças, talvez nem o Sermão do Monte.
Lindo, né? A matemática é simples:
o supra-sumo da perseguição sofrida,
o supra-sumo da dor vivida,
e o supra-sumo da alegria desfrutada.
A expressão não poderia ser outra: bem-aventurado tá de bom tamanho. Felicíssimo também seria, mas prefiro o bem-aventurado. Fica mais bonito, é uma palavra do meu imaginário sagrado, pura e santa. Símbolo religioso é símbolo religioso, não dá pra mudar, senão perde o brilho.
Pois é, perseguidos dessa maneira, a falta de convivência em amor sem dúvida fragmenta a comunidade e esta praticamente perde o sentido. Uma comunidade dividida volta-se “para dentro”, para resolver os seus problemas. Mateus está muito preocupado com esse assunto, e compara as divergências como caso de vida ou morte. Uns matam tirando a vida, outros mediante a falta de perdão. O perdão não é uma questão de opção, mas necessidade de sobrevivência. Mateus é bastante claro: tente resolver o problema, caminhe com o ofensor, mas resolva logo, enquanto está no trajeto, isto é, enquanto for possível mudar a situação. De que adianta resolver algum problema de relacionamento depois de 10, 15 ou 20 anos? A pessoa ofendida já não poderá ser restaurada, foi marginalizada pela comunidade, não teve a oportunidade de rever os seus conceitos, o tempo passou, o cenário mudou, a vida mudou, a história é outra, e o perdão vira apenas um problema de consciência. Não serve pra nada! Desculpe, estou sendo exagerado. Vamos dizer que serve pra pouca coisa. Pouquíssima! Quase nada, ou nada – pronto, voltei ao ponto de partida, não vale nada mesmo.
A falta de perdão sempre ameaça a comunidade, do mesmo modo como a violência à vida. A sobrevivência da igreja não está no culto ou na celebração, mas no perdão. O fator principal de testemunho não está no discurso de amor, mas no amor aplicado às pessoas. O trabalho mais importante na vida cristã é aprender a amar, e não tem jeito de ser diferente.
Depois das bem-aventuranças, do sal da terra e da luz do mundo, o Sermão do Monte traz a informação da verdadeira lei de Deus, algo parecido com isto: se você quer ser justo, justo, mas justo mesmo, mais justo que qualquer religioso justo, comece com o perdão, uma questão de vida e ou de morte. A vida vive da vida assim como a comunidade vive do perdão. É isso, ou isso mesmo.
(publicado no Boletim Dominical da Igreja Batista em Barão Geraldo, 16 de março de 2008)
Eu sei que você não gosta dessa conversa, mas perdão tem prazo de validade. Você prefere o setenta vezes sete, mas isso não se refere ao tempo, mas à quantidade. E se acontecer de novo, igualzinho, sem tirar nada, como fica? Não fica. Em termos de quantidade o perdão não tem limite. O negócio é munir-se de paciência, agüentar firme, burilar as emoções, cuidar dos sentimentos e perdoar - again, again, again.
O prazo de validade do perdão está no Sermão do Monte. Como sabemos, o Evangelho de Mateus foi escrito em época de perseguição, e quase tudo nele tem esse sentido, e tinha que começar com as bem-aventuranças: a felicidade acima da conta em tempo de morte. Ser bem-aventurado é a condição daquele que suporta todas as adversidades, é perseguido, enfrenta uma guerra, mas promove a paz, dedicando-se à defesa da fé com uma total pureza de coração, e o resultado é ver a Deus. Os bem-aventurados também são os mesmos que esperam a justiça perfeita e que não irá tardar; choram as suas dores, e já podem viver a plenitude da felicidade, porque serão pastoreados pessoalmente pelo Senhor. Ser humilde de espírito e manso de coração são os desafios em meio à tragédia da vida, mas o resultado é a bem-aventurança da conquista de um reino e a herança de uma nova terra. Observada por essa perspectiva, a perseguição é um privilégio de poucos e motivo de regozijo, especialmente se for absolutamente injusta, permeada de mentira: a injusta fica mais injusta, e a alegria fica mais alegre. O ser sal não seria outra coisa senão o viver a plena felicidade: beber e se lambuzar do tempo da bem-aventurança durante a travessia da plena turbulência e perseguição. Não adianta querer se esconder: todo discípulo verdadeiro é luz do mundo, vai ser visto e perseguido, as boas obras irão iluminar até quem os persegue, os quais ficarão se perguntando: qual o significado disso? Não é uma questão de fuga. Trata-se da natureza do próprio Evangelho que é assim e somente assim.
Quem não compreende a contradição entre a perseguição injusta, mais injusta que já poderia ter sido vista, em contraste com a dor mais doída de quem sofre sem precisar sofrer, e a alegria mais alegre de poder superar tudo isso, não entende as bem-aventuranças, talvez nem o Sermão do Monte.
Lindo, né? A matemática é simples:
o supra-sumo da perseguição sofrida,
o supra-sumo da dor vivida,
e o supra-sumo da alegria desfrutada.
A expressão não poderia ser outra: bem-aventurado tá de bom tamanho. Felicíssimo também seria, mas prefiro o bem-aventurado. Fica mais bonito, é uma palavra do meu imaginário sagrado, pura e santa. Símbolo religioso é símbolo religioso, não dá pra mudar, senão perde o brilho.
Pois é, perseguidos dessa maneira, a falta de convivência em amor sem dúvida fragmenta a comunidade e esta praticamente perde o sentido. Uma comunidade dividida volta-se “para dentro”, para resolver os seus problemas. Mateus está muito preocupado com esse assunto, e compara as divergências como caso de vida ou morte. Uns matam tirando a vida, outros mediante a falta de perdão. O perdão não é uma questão de opção, mas necessidade de sobrevivência. Mateus é bastante claro: tente resolver o problema, caminhe com o ofensor, mas resolva logo, enquanto está no trajeto, isto é, enquanto for possível mudar a situação. De que adianta resolver algum problema de relacionamento depois de 10, 15 ou 20 anos? A pessoa ofendida já não poderá ser restaurada, foi marginalizada pela comunidade, não teve a oportunidade de rever os seus conceitos, o tempo passou, o cenário mudou, a vida mudou, a história é outra, e o perdão vira apenas um problema de consciência. Não serve pra nada! Desculpe, estou sendo exagerado. Vamos dizer que serve pra pouca coisa. Pouquíssima! Quase nada, ou nada – pronto, voltei ao ponto de partida, não vale nada mesmo.
A falta de perdão sempre ameaça a comunidade, do mesmo modo como a violência à vida. A sobrevivência da igreja não está no culto ou na celebração, mas no perdão. O fator principal de testemunho não está no discurso de amor, mas no amor aplicado às pessoas. O trabalho mais importante na vida cristã é aprender a amar, e não tem jeito de ser diferente.
Depois das bem-aventuranças, do sal da terra e da luz do mundo, o Sermão do Monte traz a informação da verdadeira lei de Deus, algo parecido com isto: se você quer ser justo, justo, mas justo mesmo, mais justo que qualquer religioso justo, comece com o perdão, uma questão de vida e ou de morte. A vida vive da vida assim como a comunidade vive do perdão. É isso, ou isso mesmo.
segunda-feira, 10 de março de 2008
CIMENTO COM CANETA
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 09 de março de 2008)
Vez por outra sinto saudades dos grandes corais. Não, não estou falando de biologia marinha, porque em tempo de cuidado do meio ambiente, só restou esse. O outro, aquele que havia nas igrejas, está cada vez mais raro. A ausência deles, porém, não é de todo ruim. Os corais faziam os participantes dos cultos se tornarem meros espectadores. A popularização da música empobreceu as letras (sou burguês, tenho que pensar assim!), mas facilitou o canto de rimas populares e músicas com arranjos, embora duvidosos, tornando o cantar uma coisa do povo. Discute-se se isso é bom ou ruim, e acho que isso funciona com tudo o que diz respeito à vida, lado bom, lado ruim, e tantos outros lados intermediários entre um e outro que não se podem contar, pois a vida não é quadrada, nem cúbica, sequer tem forma.
Dias desses, satisfiz a minha saudade. Lá estava um grupo de pessoas formado por donas de casa, pedreiros, funcionários públicos, gerentes, fotógrafos e não sei mais quem. São pessoas que durante a semana assentam tijolos, lidam com alunos, passam as longas tardes enfrentando a jornada de uma faxina, ou a burocracia de um sistema público emperrado e que esbarram na boa, ou má vontade, desse ou daquele, mas no fim de semana se tornam cantores. Arrumam tempo, não sei de onde, e passam horas tentando o afastamento da aridez da vida para sorver um pouco da sensibilidade musical. Tá certo que é uma sensibilidade misturada com cimento, sabão, hora do almoço, crianças correndo pelo pátio, sistema político e suas contradições. Não é uma sensibilidade pura, vem na esteira do serviço bruto, mãos grossas, vida grossa, de um mundo que a gente não compreende, cheio de filhos sem pais, adolescentes viciados, gente sofrida que enfrenta essa vida e no fim de semana vira cantor e faz poesia. Bebe a letra e flutua ao som de um piano que pouca gente tem em casa, instrumento fino, clássico, para privilegiados. Como se trata de gente que trabalha em fábrica e não tem tempo de ficar cultivando sensibilidade, o canto não vem puro. Não é tão afinado como se poderia esperar. São vozes comuns, de pessoas comuns, o agudo não é tão agudo, e o grave não é tão grave, mas são suficientes para dar o salto por sobre a realidade onde vivem, verdadeiras vozes de fim de semana. Isso é inclusão.
Você pode achar que estou fazendo um discurso típico de alienado, isto é, alguém que não conhece direito onde pisa. Isso porque a igreja sempre foi vista como sendo uma comunidade que, ao invés de incluir, exclui, é preconceituosa, estabelece limites muito definidos entre o que pode ser chamado de “mundo”, o que está lá fora, e o grupo de pessoas que a ela pertence, o lado de dentro. Igreja que luta pouco ou quase nada pela vida e está mais preocupada em se abastecer de pessoas como se fosse um grande depósito, que disputa com outras cada palmo de gente como quem pechincha banana na feira – comprar mais, por muito menos. É claro que essa é uma briga política, pode ser compreendida como o milenar conflito entre a teologia e a filosofia, e que nunca será resolvido: apesar da suspeita, a religião vai sobrevivendo no dia-a-dia das pessoas e sempre fica a indagação: o que é a vida? Será que o sistema educacional algum dia irá produzir pessoas humildes, simples, conscientes de seus limites, ou em alguns casos terá como resultado apenas a fabricação de semi-deuses do saber? Quando se caminha por determinados lugares, a sensação é a de passear na ilha de Páscoa: cheio de gigantes de pedra - ninguém sabe de onde vieram, nem pra que servem – aparentemente só assustam, e ficam lá como se o mundo os reverenciasse.
Eu não fiquei assustado, fiquei impressionado. Mais que isso, comovido. Vozes roucas, pouco treinadas, ora desafinadas, ora uns entrando antes de outros, ou sequer entrando, estavam ali me fazendo cheirar o perfume da solidariedade. Havia ali colheres de pedreiro, carrinhos carregados durante a semana, cheios de entulho, aventais, muitos aventais – de serviços gerais, domésticos, possivelmente de serralheiros, mecânicos e carpinteiros. Havia ali chaves de fenda, panelas, canetas e lápis, pessoas pensando na cinco horas da manhã da segunda, o dia seguinte, ônibus lotado, gente suada, agarrada e dependurada nos tetos, trânsito, conta corrente no vermelho, marido desempregado, crianças na creche, filas de consulta médica no sistema público, calçadas a serem varridas, tanques abarrotados de roupa da criançada que o fim de semana juntou, quando o momento da arte suspendeu a vida para dar passagem ao sonho de poder fazer parte de um grupo que canta, se encontra e se encanta. Amigos da vida, chefes, patrões, diretores, gerentes e seus subordinados, empregados, funcionários, condôminos e porteiros, todos juntos, iguais, desocupados das suas obrigações e da vida dura, igualmente desafinados, descompassados, tentando juntar cimento com caneta, avental com farda, tanque de roupa com livros, becas com macacões, ternos com bermudas, sapatos com chinelos, Audi com Fusca, cujo tempero é o doce sabor de saber pertencer e ser pertencido. Você chama isso de desigualdade social? Pois é, a gente pensa diferente mesmo. Pra mim isso é inclusão. Por conta dessas coisas sou perdidamente apaixonado pela igreja.
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 09 de março de 2008)
Vez por outra sinto saudades dos grandes corais. Não, não estou falando de biologia marinha, porque em tempo de cuidado do meio ambiente, só restou esse. O outro, aquele que havia nas igrejas, está cada vez mais raro. A ausência deles, porém, não é de todo ruim. Os corais faziam os participantes dos cultos se tornarem meros espectadores. A popularização da música empobreceu as letras (sou burguês, tenho que pensar assim!), mas facilitou o canto de rimas populares e músicas com arranjos, embora duvidosos, tornando o cantar uma coisa do povo. Discute-se se isso é bom ou ruim, e acho que isso funciona com tudo o que diz respeito à vida, lado bom, lado ruim, e tantos outros lados intermediários entre um e outro que não se podem contar, pois a vida não é quadrada, nem cúbica, sequer tem forma.
Dias desses, satisfiz a minha saudade. Lá estava um grupo de pessoas formado por donas de casa, pedreiros, funcionários públicos, gerentes, fotógrafos e não sei mais quem. São pessoas que durante a semana assentam tijolos, lidam com alunos, passam as longas tardes enfrentando a jornada de uma faxina, ou a burocracia de um sistema público emperrado e que esbarram na boa, ou má vontade, desse ou daquele, mas no fim de semana se tornam cantores. Arrumam tempo, não sei de onde, e passam horas tentando o afastamento da aridez da vida para sorver um pouco da sensibilidade musical. Tá certo que é uma sensibilidade misturada com cimento, sabão, hora do almoço, crianças correndo pelo pátio, sistema político e suas contradições. Não é uma sensibilidade pura, vem na esteira do serviço bruto, mãos grossas, vida grossa, de um mundo que a gente não compreende, cheio de filhos sem pais, adolescentes viciados, gente sofrida que enfrenta essa vida e no fim de semana vira cantor e faz poesia. Bebe a letra e flutua ao som de um piano que pouca gente tem em casa, instrumento fino, clássico, para privilegiados. Como se trata de gente que trabalha em fábrica e não tem tempo de ficar cultivando sensibilidade, o canto não vem puro. Não é tão afinado como se poderia esperar. São vozes comuns, de pessoas comuns, o agudo não é tão agudo, e o grave não é tão grave, mas são suficientes para dar o salto por sobre a realidade onde vivem, verdadeiras vozes de fim de semana. Isso é inclusão.
Você pode achar que estou fazendo um discurso típico de alienado, isto é, alguém que não conhece direito onde pisa. Isso porque a igreja sempre foi vista como sendo uma comunidade que, ao invés de incluir, exclui, é preconceituosa, estabelece limites muito definidos entre o que pode ser chamado de “mundo”, o que está lá fora, e o grupo de pessoas que a ela pertence, o lado de dentro. Igreja que luta pouco ou quase nada pela vida e está mais preocupada em se abastecer de pessoas como se fosse um grande depósito, que disputa com outras cada palmo de gente como quem pechincha banana na feira – comprar mais, por muito menos. É claro que essa é uma briga política, pode ser compreendida como o milenar conflito entre a teologia e a filosofia, e que nunca será resolvido: apesar da suspeita, a religião vai sobrevivendo no dia-a-dia das pessoas e sempre fica a indagação: o que é a vida? Será que o sistema educacional algum dia irá produzir pessoas humildes, simples, conscientes de seus limites, ou em alguns casos terá como resultado apenas a fabricação de semi-deuses do saber? Quando se caminha por determinados lugares, a sensação é a de passear na ilha de Páscoa: cheio de gigantes de pedra - ninguém sabe de onde vieram, nem pra que servem – aparentemente só assustam, e ficam lá como se o mundo os reverenciasse.
Eu não fiquei assustado, fiquei impressionado. Mais que isso, comovido. Vozes roucas, pouco treinadas, ora desafinadas, ora uns entrando antes de outros, ou sequer entrando, estavam ali me fazendo cheirar o perfume da solidariedade. Havia ali colheres de pedreiro, carrinhos carregados durante a semana, cheios de entulho, aventais, muitos aventais – de serviços gerais, domésticos, possivelmente de serralheiros, mecânicos e carpinteiros. Havia ali chaves de fenda, panelas, canetas e lápis, pessoas pensando na cinco horas da manhã da segunda, o dia seguinte, ônibus lotado, gente suada, agarrada e dependurada nos tetos, trânsito, conta corrente no vermelho, marido desempregado, crianças na creche, filas de consulta médica no sistema público, calçadas a serem varridas, tanques abarrotados de roupa da criançada que o fim de semana juntou, quando o momento da arte suspendeu a vida para dar passagem ao sonho de poder fazer parte de um grupo que canta, se encontra e se encanta. Amigos da vida, chefes, patrões, diretores, gerentes e seus subordinados, empregados, funcionários, condôminos e porteiros, todos juntos, iguais, desocupados das suas obrigações e da vida dura, igualmente desafinados, descompassados, tentando juntar cimento com caneta, avental com farda, tanque de roupa com livros, becas com macacões, ternos com bermudas, sapatos com chinelos, Audi com Fusca, cujo tempero é o doce sabor de saber pertencer e ser pertencido. Você chama isso de desigualdade social? Pois é, a gente pensa diferente mesmo. Pra mim isso é inclusão. Por conta dessas coisas sou perdidamente apaixonado pela igreja.
terça-feira, 4 de março de 2008
LÁ ESTAVA O PEIXE!
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 02 de março de 2008)
Não há dúvidas de que o livro de Jonas está sentenciado a ser o livro do peixe. São dois extremos, um exagero de peixe que ameaça a razão, e o mesmo exagero que é uma resposta de fé. Nisso Jonas se dá como o exagero de Deus, tanto de um lado, quanto de outro. A beleza tá nisso. Sempre quando se falar de Jonas deve-se falar do peixe. A discussão mais simples, e sem sentido, é se o peixe existiu ou não. Quem faz essa pergunta está fora de foco. Precisa de uma confirmação categórica: o peixe existiu, e se a Bíblia dissesse que Jonas é que teria engolido uma baleia, eu também acreditaria. Discussão inútil. Um diz que é impossível e outro diz que não importa a impossibilidade, pois acredita do mesmo jeito. E fica nisso.
É claro que o peixe é, de certo modo, secundário no texto. Se não tivesse havido o peixe, ainda assim teria havido a mensagem a ser proclamada à cidade de Nínive, com as suas carências, e Deus sendo levado a outras nações. O livro é do profeta Jonas, não do peixe. Peixe não escreve profecia. Depois, o peixe não pode ser mais importante que a mensagem de Jonas. Ou será que é? De fato, enquanto você fica se perguntando se o peixe existiu ou não, quero tentar responder sobre a necessidade de ter havido um peixe. Como você viu, vou sair por outra porta, e vou me dar bem, você vai ver.
Limitar os exageros do texto de Jonas ao peixe é ser cruel. Tudo no livro de Jonas é colossal. Começa com uma tempestade que ninguém dá jeito, e Jonas sendo jogado na água. Passa pelo peixe, que daqui a pouco a gente conversa sobre ele. Chega a pregação e Jonas percorre a cidade d’uma vez, e uma vez só. O resultado é melhor que em qualquer outra parte do profetismo em Israel. Elias, Isaías, Amós, Oséias, e qualquer outro profeta, juntos ou separados, perdem de goleada diante dos resultados de Jonas. Jeremias então, nem se fala. Se fôssemos atualizar o ministério de Jeremias, seria como se ele tivesse encerrado as atividades da igreja por falta de membros. Ninguém gostava de seus sermões, sequer acreditou neles. Jeremias falou muito e não deu em nada. Iria tirar tantos “zeros” na aula de homilética que o professor ficaria sem “zeros” pra dar a outra pessoa. Hoje seria um pastor desempregado. O seu planejamento estratégico era pregar, só isso, e não conseguiu convencer ninguém.
Jonas, ao contrário, pregou rápido e convenceu todo mundo. E depois? Ficou exageradamente inconformado, dormiu de raiva e, enquanto isso, uma planta cresceu para fazer-lhe sombra. Planta que cresce sem respeitar a biologia, só pode ser exagerada. Nisso tudo há exagero: num dado momento Jonas dorme no navio, noutro é jogado no mar e vai até o fundo, no limite entre a vida e a morte. Depois faz uma oração na barriga de um peixe, que nunca mais iria tomar conhecimento outra vez, e possivelmente sequer utilizou a tal experiência como conteúdo da pregação. Finalmente descansa sob o tal arbusto que nasceu de uma hora pra outra. Da viagem de Jonas ao arbusto, demorou quanto tempo? Cinco dias, dez? Observe só o ciclo: vocação, tempestade, fundo do mar, barriga do peixe, pregação, e o misterioso arbusto. Não é um exagero?
Deus, no livro de Jonas, exagera. Mostra-se como o Senhor da natureza e dos mares. Mostra-se Senhor de quem nunca ouviu falar dele. Mostra-se como perdoador extremado - ao invés de permitir que Jonas morresse, na imensidão profunda de ondas que o envolviam, na solidão sem fim de quem está definitivamente rompido com o que há de mais sagrado, com a cabeça roçando e enroscando em algas, no lugar que não é lugar de tão fundo, no mistério do mar que seria mais misterioso do qualquer outro mistério - o assustador mar da Antigüidade que desembocava num abismo sem fim - para salvá-lo, do que não tem salvação, Deus fez até o que não poderá ser jamais compreendido: um peixe.
Agora, o que é o mais importante no texto? O peixe? Se existiu ou não? A possibilidade de uma planta crescer do dia pra noite? A disposição dos Ninivitas na aceitação da mensagem? A capacidade de Jonas em se comunicar? (essa doeu!) Ou o exagerado Deus? Que busca o que não pode ser buscado, seja aquele que nunca ouviu falar dele, seja aquele que se encontra no fundo do que há de mais fundo, na solidão da solidão, no medo do medo, na angustia do angustiante, onde não se respira e não há possibilidade de vida. De repente, a solução que ninguém acreditaria se alguém contasse, e tinha que ser história de pescador pra ser mais real que o acontecido: um peixe exagerado que engole, mas não digere, monstruoso, mas que protege e é capaz de chegar à praia, apesar de tão grande, e devolver o profeta que nem precisou de cuidados médicos. O peixe é grande, mas não encalha e ainda volta por onde tinha vindo, o que nunca jamais se soube ou saberá - sumiu como se nunca tivesse sido.
Acreditar que Deus acalma a tempestade, não assustou Jonas. Crer no peixe, já é difícil, mas vamos ver no que dá. Uma planta que cresce de uma hora pra outra, desafiando a vida, não sei não. Agora, conceber Deus como perdoador? Ah! Isso é pedir muito, é muito pra minha cabeça. Melhor me é morrer do que viver! (4:8) – disse Jonas. O Senhor é exagerado. Faz algo monstruoso, mas que não assusta, um exagero que não pode ser compreendido só para buscar quem não merece, e devolver a vida, mesmo quando quem a recebeu de volta não sabe o que isso significa. Isso é que é sobra de misericórdia, pra Jonas nenhum botar defeito!
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 02 de março de 2008)
Não há dúvidas de que o livro de Jonas está sentenciado a ser o livro do peixe. São dois extremos, um exagero de peixe que ameaça a razão, e o mesmo exagero que é uma resposta de fé. Nisso Jonas se dá como o exagero de Deus, tanto de um lado, quanto de outro. A beleza tá nisso. Sempre quando se falar de Jonas deve-se falar do peixe. A discussão mais simples, e sem sentido, é se o peixe existiu ou não. Quem faz essa pergunta está fora de foco. Precisa de uma confirmação categórica: o peixe existiu, e se a Bíblia dissesse que Jonas é que teria engolido uma baleia, eu também acreditaria. Discussão inútil. Um diz que é impossível e outro diz que não importa a impossibilidade, pois acredita do mesmo jeito. E fica nisso.
É claro que o peixe é, de certo modo, secundário no texto. Se não tivesse havido o peixe, ainda assim teria havido a mensagem a ser proclamada à cidade de Nínive, com as suas carências, e Deus sendo levado a outras nações. O livro é do profeta Jonas, não do peixe. Peixe não escreve profecia. Depois, o peixe não pode ser mais importante que a mensagem de Jonas. Ou será que é? De fato, enquanto você fica se perguntando se o peixe existiu ou não, quero tentar responder sobre a necessidade de ter havido um peixe. Como você viu, vou sair por outra porta, e vou me dar bem, você vai ver.
Limitar os exageros do texto de Jonas ao peixe é ser cruel. Tudo no livro de Jonas é colossal. Começa com uma tempestade que ninguém dá jeito, e Jonas sendo jogado na água. Passa pelo peixe, que daqui a pouco a gente conversa sobre ele. Chega a pregação e Jonas percorre a cidade d’uma vez, e uma vez só. O resultado é melhor que em qualquer outra parte do profetismo em Israel. Elias, Isaías, Amós, Oséias, e qualquer outro profeta, juntos ou separados, perdem de goleada diante dos resultados de Jonas. Jeremias então, nem se fala. Se fôssemos atualizar o ministério de Jeremias, seria como se ele tivesse encerrado as atividades da igreja por falta de membros. Ninguém gostava de seus sermões, sequer acreditou neles. Jeremias falou muito e não deu em nada. Iria tirar tantos “zeros” na aula de homilética que o professor ficaria sem “zeros” pra dar a outra pessoa. Hoje seria um pastor desempregado. O seu planejamento estratégico era pregar, só isso, e não conseguiu convencer ninguém.
Jonas, ao contrário, pregou rápido e convenceu todo mundo. E depois? Ficou exageradamente inconformado, dormiu de raiva e, enquanto isso, uma planta cresceu para fazer-lhe sombra. Planta que cresce sem respeitar a biologia, só pode ser exagerada. Nisso tudo há exagero: num dado momento Jonas dorme no navio, noutro é jogado no mar e vai até o fundo, no limite entre a vida e a morte. Depois faz uma oração na barriga de um peixe, que nunca mais iria tomar conhecimento outra vez, e possivelmente sequer utilizou a tal experiência como conteúdo da pregação. Finalmente descansa sob o tal arbusto que nasceu de uma hora pra outra. Da viagem de Jonas ao arbusto, demorou quanto tempo? Cinco dias, dez? Observe só o ciclo: vocação, tempestade, fundo do mar, barriga do peixe, pregação, e o misterioso arbusto. Não é um exagero?
Deus, no livro de Jonas, exagera. Mostra-se como o Senhor da natureza e dos mares. Mostra-se Senhor de quem nunca ouviu falar dele. Mostra-se como perdoador extremado - ao invés de permitir que Jonas morresse, na imensidão profunda de ondas que o envolviam, na solidão sem fim de quem está definitivamente rompido com o que há de mais sagrado, com a cabeça roçando e enroscando em algas, no lugar que não é lugar de tão fundo, no mistério do mar que seria mais misterioso do qualquer outro mistério - o assustador mar da Antigüidade que desembocava num abismo sem fim - para salvá-lo, do que não tem salvação, Deus fez até o que não poderá ser jamais compreendido: um peixe.
Agora, o que é o mais importante no texto? O peixe? Se existiu ou não? A possibilidade de uma planta crescer do dia pra noite? A disposição dos Ninivitas na aceitação da mensagem? A capacidade de Jonas em se comunicar? (essa doeu!) Ou o exagerado Deus? Que busca o que não pode ser buscado, seja aquele que nunca ouviu falar dele, seja aquele que se encontra no fundo do que há de mais fundo, na solidão da solidão, no medo do medo, na angustia do angustiante, onde não se respira e não há possibilidade de vida. De repente, a solução que ninguém acreditaria se alguém contasse, e tinha que ser história de pescador pra ser mais real que o acontecido: um peixe exagerado que engole, mas não digere, monstruoso, mas que protege e é capaz de chegar à praia, apesar de tão grande, e devolver o profeta que nem precisou de cuidados médicos. O peixe é grande, mas não encalha e ainda volta por onde tinha vindo, o que nunca jamais se soube ou saberá - sumiu como se nunca tivesse sido.
Acreditar que Deus acalma a tempestade, não assustou Jonas. Crer no peixe, já é difícil, mas vamos ver no que dá. Uma planta que cresce de uma hora pra outra, desafiando a vida, não sei não. Agora, conceber Deus como perdoador? Ah! Isso é pedir muito, é muito pra minha cabeça. Melhor me é morrer do que viver! (4:8) – disse Jonas. O Senhor é exagerado. Faz algo monstruoso, mas que não assusta, um exagero que não pode ser compreendido só para buscar quem não merece, e devolver a vida, mesmo quando quem a recebeu de volta não sabe o que isso significa. Isso é que é sobra de misericórdia, pra Jonas nenhum botar defeito!
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
TEMPESTADES, BONANÇA E EVANGELISMO
Rafael Loyola, doutorando em Ecologia, Unicamp
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 de fevereiro de 2008)
Outro dia estava meditando e refletindo sobre a narrativa bíblica apresentada em Marcos 4.35-41. Nesta passagem, Jesus e seus discípulos estão em um barco no Mar da Galiléia e uma tempestade muito violenta precipita-se sobre eles. O mar começa a revoltar-se e as ondas parecem querer esconder a embarcação no fundo das águas. Até que os discípulos, aterrorizados com a situação, decidem acordar Jesus. Ao ver a situação, Ele simplesmente manda o mar acalmar-se. A tempestade cessa, o mar apazigua-se e o barco volta a quebrar a resistência da água, navegando rumo a seu destino.
O texto é muito rico, e várias interpretações e aplicações para nosso dia-a-dia podem ser apreendidas do texto. Convencionalmente, essa passagem tem sido interpretada a partir de dois aspectos complementares, a saber, (1) aquele que nos revela a soberania de Deus e a divindade de Cristo como seu filho unigênito e (2) aquele que traz a aplicação prática de que, estando com Jesus, nenhuma tempestade é verdadeiramente um motivo de desespero. A metáfora aqui aplicável é a de que a vida do cristão é como um barco que ora desliza prazerosamente sobre as águas, ora é açoitado por ondas que insistem em arremessar o cristão de sua própria nau ou simplesmente colocá-la boca abaixo. Entretanto, aquele que tem a Cristo em seu barco não deve temer, pois Ele pode acalmar toda e qualquer tempestade, uma vez que até mesmo esta é uma manifestação de Sua própria criação. Essa abordagem que acabei de expor, além de bastante apropriada e inteligível, é de uma simplicidade capaz de gerar reflexões íntimas em qualquer um que se detenha por um minuto a pensar sobre os atributos divinos e sobre o cuidado de Deus revelado em toda Escritura Sagrada.
Ainda assim, gostaria de compartilhar com você um outro aspecto do texto. Um aspecto evangelístico e com implicações práticas para nossa vida cotidiana. Naquele dia, enquanto refletia sobre a narrativa, uma única frase desviou toda minha atenção: “e outros barcos o seguiam (v.36)”. Nunca havia reparado nessa frase, ou pelo menos, ainda que a houvesse lido, nunca havia parado para pensar sobre suas implicações. Ora, é claro que, durante a tempestade, esses barcos encontravam-se também no Mar da Galiléia. Eles sofriam os mesmos embates das ondas que o barco no qual estavam Jesus e seus discípulos. Portanto, quando Cristo acalma a tempestade, não apenas seus discípulos são beneficiados, mas todos aqueles que se encontravam em meio à tormenta.
Jesus dorme em meio à tempestade com uma tranqüilidade que só pode aninhar-se em alguém que tem conhecimento ou certeza de seu futuro. A nós falta-nos o conhecimento, mas a certeza faz-se presente. Se caminharmos (ou navegarmos) com Deus, nenhuma tormenta pode desviar-nos do caminho que Ele mesmo traçou – por isso Jesus critica seus discípulos. Mas o fato é que, analogamente, quando Jesus acalma uma tempestade em nossa vida, o mar agitado da vida de outros também é acalmado. E aí surge o aspecto evangelístico do texto. Nós cristão temos o privilégio de caminhar ao lado de Jesus e os efeitos de nossa comunhão com Deus devem refletir-se na vida dos outros, especialmente na daqueles que ainda não tiveram o prazer de experimentar a presença de Cristo. Quando você testemunha o amor de Deus para com você e sua família, quando atribui a Cristo as bênçãos que tem recebido, quando louva ao seu Deus ainda que essas bênçãos aparentemente não lhe tenham sido concedidas, você está na verdade propagando os efeitos da bonança divina através de seus relacionamentos. É assim em casa, na escola, na universidade/faculdade, no trabalho, etc. Reflita por um minuto e veja quantas vezes você ajudou uma pessoa porque os problemas pelos quais ela passava já haviam sido experimentados por você; mas Deus, por Seu amor, lhe deu condições de resolver. Quantas vezes pessoas ao seu redor lhe disseram “eu gosto da maneira como você encara seus problemas!”? Ou, “sabe, é muito bom ter você como amigo(a)!”. Tudo isso é propagação do amor divino. É efeito da ação de Cristo sobre a tempestade pela qual você passava, ou seja, da salvação de Deus dada a você gratuitamente por meio da fé.
Em suma, você é instrumento de Deus para alcançar outras vidas e, mesmo quando seu barco parece virar, Deus está no comando. O mais maravilhoso é que Ele é tão amoroso que, ao acalmar sua tormenta, Ele acalma a daqueles que não O tem em seu barco! Não coincidentemente, enquanto escrevo este texto, ouço uma obra clássica de Vivaldi: A tempestade do mar (La Tempesta di Mare). Há momentos em que o mar se desdobra em agitação (allegro), há outros nos quais parece que toda e qualquer embarcação naufragou (largo). Mas o momento da bonança chega (presto) e, pela alegria melódica, vê-se que a calmaria encheu novamente as águas de vida.
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 de fevereiro de 2008)
Outro dia estava meditando e refletindo sobre a narrativa bíblica apresentada em Marcos 4.35-41. Nesta passagem, Jesus e seus discípulos estão em um barco no Mar da Galiléia e uma tempestade muito violenta precipita-se sobre eles. O mar começa a revoltar-se e as ondas parecem querer esconder a embarcação no fundo das águas. Até que os discípulos, aterrorizados com a situação, decidem acordar Jesus. Ao ver a situação, Ele simplesmente manda o mar acalmar-se. A tempestade cessa, o mar apazigua-se e o barco volta a quebrar a resistência da água, navegando rumo a seu destino.
O texto é muito rico, e várias interpretações e aplicações para nosso dia-a-dia podem ser apreendidas do texto. Convencionalmente, essa passagem tem sido interpretada a partir de dois aspectos complementares, a saber, (1) aquele que nos revela a soberania de Deus e a divindade de Cristo como seu filho unigênito e (2) aquele que traz a aplicação prática de que, estando com Jesus, nenhuma tempestade é verdadeiramente um motivo de desespero. A metáfora aqui aplicável é a de que a vida do cristão é como um barco que ora desliza prazerosamente sobre as águas, ora é açoitado por ondas que insistem em arremessar o cristão de sua própria nau ou simplesmente colocá-la boca abaixo. Entretanto, aquele que tem a Cristo em seu barco não deve temer, pois Ele pode acalmar toda e qualquer tempestade, uma vez que até mesmo esta é uma manifestação de Sua própria criação. Essa abordagem que acabei de expor, além de bastante apropriada e inteligível, é de uma simplicidade capaz de gerar reflexões íntimas em qualquer um que se detenha por um minuto a pensar sobre os atributos divinos e sobre o cuidado de Deus revelado em toda Escritura Sagrada.
Ainda assim, gostaria de compartilhar com você um outro aspecto do texto. Um aspecto evangelístico e com implicações práticas para nossa vida cotidiana. Naquele dia, enquanto refletia sobre a narrativa, uma única frase desviou toda minha atenção: “e outros barcos o seguiam (v.36)”. Nunca havia reparado nessa frase, ou pelo menos, ainda que a houvesse lido, nunca havia parado para pensar sobre suas implicações. Ora, é claro que, durante a tempestade, esses barcos encontravam-se também no Mar da Galiléia. Eles sofriam os mesmos embates das ondas que o barco no qual estavam Jesus e seus discípulos. Portanto, quando Cristo acalma a tempestade, não apenas seus discípulos são beneficiados, mas todos aqueles que se encontravam em meio à tormenta.
Jesus dorme em meio à tempestade com uma tranqüilidade que só pode aninhar-se em alguém que tem conhecimento ou certeza de seu futuro. A nós falta-nos o conhecimento, mas a certeza faz-se presente. Se caminharmos (ou navegarmos) com Deus, nenhuma tormenta pode desviar-nos do caminho que Ele mesmo traçou – por isso Jesus critica seus discípulos. Mas o fato é que, analogamente, quando Jesus acalma uma tempestade em nossa vida, o mar agitado da vida de outros também é acalmado. E aí surge o aspecto evangelístico do texto. Nós cristão temos o privilégio de caminhar ao lado de Jesus e os efeitos de nossa comunhão com Deus devem refletir-se na vida dos outros, especialmente na daqueles que ainda não tiveram o prazer de experimentar a presença de Cristo. Quando você testemunha o amor de Deus para com você e sua família, quando atribui a Cristo as bênçãos que tem recebido, quando louva ao seu Deus ainda que essas bênçãos aparentemente não lhe tenham sido concedidas, você está na verdade propagando os efeitos da bonança divina através de seus relacionamentos. É assim em casa, na escola, na universidade/faculdade, no trabalho, etc. Reflita por um minuto e veja quantas vezes você ajudou uma pessoa porque os problemas pelos quais ela passava já haviam sido experimentados por você; mas Deus, por Seu amor, lhe deu condições de resolver. Quantas vezes pessoas ao seu redor lhe disseram “eu gosto da maneira como você encara seus problemas!”? Ou, “sabe, é muito bom ter você como amigo(a)!”. Tudo isso é propagação do amor divino. É efeito da ação de Cristo sobre a tempestade pela qual você passava, ou seja, da salvação de Deus dada a você gratuitamente por meio da fé.
Em suma, você é instrumento de Deus para alcançar outras vidas e, mesmo quando seu barco parece virar, Deus está no comando. O mais maravilhoso é que Ele é tão amoroso que, ao acalmar sua tormenta, Ele acalma a daqueles que não O tem em seu barco! Não coincidentemente, enquanto escrevo este texto, ouço uma obra clássica de Vivaldi: A tempestade do mar (La Tempesta di Mare). Há momentos em que o mar se desdobra em agitação (allegro), há outros nos quais parece que toda e qualquer embarcação naufragou (largo). Mas o momento da bonança chega (presto) e, pela alegria melódica, vê-se que a calmaria encheu novamente as águas de vida.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
QUANDO EU TIVER SETENTA E CINCO ANOS
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(Esta crônica foi publicada em 05 de novembro de 2006 no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, quando uma pessoa muito querida estava completando 75 anos)
Ainda não cheguei lá. Também não sou garoto. Tive aulas com o pastor Soren. Não com o Francisco Fulgêncio, o pai, que seria um abuso, mas com o João Filson, o filho, que pastoreou uma única Igreja durante os mais de cinqüenta anos de ministério. Pastor Soren dava aulas de Teologia Sistemática. Aquela aula indispensável para os concílios. Os concílios são uma espécie de entrevista com um grupo de pastores que avaliam se a pessoa pode ou não ser um deles. Os quase cinqüenta alunos da classe queríamos ser um deles. Só que o pastor Soren já não dava aulas respondendo perguntas importantes de concílios. Contava as suas histórias, depositava parte da vida em quem pudesse não esquecer as suas memórias. Certa vez um dos colegas, inconformado, diante de um problema crucial, que deveria ser solucionado por quem conhecia e que provavelmente poderia mudar o rumo da nossa história e da teologia, perguntou: Afinal, o ser humano é corpo-alma-espírito, ou é só corpo-alma, sendo o espírito e a alma as mesmas coisas? Esta é a típica pergunta que só faz quem é aluno de teologia, e só vai pensar nela uma vez, quando passar pelo tal concílio. Pastor Soren respondeu: Já foi o tempo em que eu me preocupei com isso! Não é preciso dizer que saímos aborrecidos. Quem quer ser um deles, precisa saber como eles pensam, e dizer que pensa a mesma coisa, do mesmo modo. Matemática simples.
Tive que passar os meus últimos vinte e cinco anos tentando me despreocupar com algumas coisas e substituí-las por outras que realmente possam valer a pena. Hoje estou sendo motivado a pensar nos meus setenta e cinco anos. Tenho como exemplo uma pessoa, com quem tenho aprendido a fazer perguntas cujas respostas podem, de fato, fazer diferença.
Definitivamente, quando tiver setenta e cinco anos, vou querer me arrepender de muitas coisas que fiz de um modo, e que deveria ter feito de outro. Não terei medo de me reavaliar. Não gosto do discurso de quem diz: se pudesse viver outra vez, faria tudo do mesmo modo. Primeiro porque eu já vivi o bastante pra saber que isto é besteira. Depois porque só a idade nos ensina o que é a vida, e mesmo assim a gente nunca aprende. Aos setenta e cinco anos, quero me arrepender do tempo tão curto do casamento, da vida que passou rápida demais, do que ainda não deu tempo de conversar, dos inesquecíveis castelos e do depois de conto. Vou me arrepender do tempo que deixei de pescar. Do tempo que deixei de brincar com os meus filhos. Vou achar que o tempo que eles passaram comigo foi muito curto, logo se casaram, seguiram suas vidas e saíram para aprender a fazer as próprias perguntas importantes. Vou me lembrar das viagens, mas só por causa das pessoas queridas que estavam comigo. Não daquelas feitas às pressas, cheias de compromissos. Assembléias convencionais e debates que sempre voltaram para o mesmo lugar, discutiram as mesmas coisas, com os mesmos pressupostos, com as mesmas pessoas brigando, para se chegar às mesmas conclusões que não resolveram nada e nunca irão resolver qualquer coisa. Quanto tempo perdi ouvindo leituras de atas! Documentos, verdadeiros livros com gráficos, mapas de crescimento, números, extratos bancários, estatutos, muitos estatutos, perspectivas e projetos que nunca foram concluídos, nem o serão, porque o futuro sempre vem navegando e flutuando, meio à deriva, num negócio incerto chamado vida, e os relatórios passam a ser relatórios do que não foi, mas agora será. Será nada! Isto é conversa fiada.
Vou querer rir muito. Ah! Vou mesmo!Quero chegar ao culto sorrindo, desde a entrada, como aquela pessoa que conheço. Depois de uma longa viagem, ter a sensação de que estou voltando para casa. Vou dar muita risada. Não dos outros, mas de mim. Rir do tempo quando eu não sabia fazer perguntas. Da época quando desejava saber se o ser humano é corpo-alma-espírito, da época quando pensava no milênio e nos malabarismos bíblicos em busca da resposta. Vou me lembrar mais das festas, que das reuniões. Da conversa desprovida de defesa no serão depois do culto. Abraçar mais, muito mais. Vou querer ficar impaciente, contando uma história da vida para cada coisa que acontece, como se as experiências não tivessem fim. Quero tirar do armário, não os objetos que ganhei e que já não servem, seja por causa do tamanho, seja por causa da moda, seja por terem se tornado obsoletos - quero ver fotos, muitas fotos. Imagens da minha história. Gente rindo, família na praia, filhos pequenos, adolescentes, casados e já velhos. Quero ver fotos dos meus amigos, pessoas que conheci nas igrejas por onde passei; ovelhas quando eu pensava no milênio e que se tornaram amigos quando aprendi a fazer as perguntas importantes. Vou jogar fora os ternos. Jogar os velhos sermões quando as perguntas eram outras. Vou querer ser acompanhado pelos livros. Continuar lendo dois ou três ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Vou aprender a dizer “não sei”, e isto não fará qualquer diferença. Vou continuar gostando da chuva e pensarei na vida enquanto os pingos nas poças vão trazendo as histórias da infância, pelo vidro, pela janela disputada por muitas cabeças, narizes achatados no fascínio da imagem e as pequenas mãos tirando o embaço. Uma única janela na rua M 1, lá na vila Martins, que dava para uma estrada cheia de lama e pingos que pulavam. E a gente dizia: olha o pai pulando! Terá passado apenas, e tão somente, um período de setenta e cinco anos.
(Esta crônica foi publicada em 05 de novembro de 2006 no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, quando uma pessoa muito querida estava completando 75 anos)
Ainda não cheguei lá. Também não sou garoto. Tive aulas com o pastor Soren. Não com o Francisco Fulgêncio, o pai, que seria um abuso, mas com o João Filson, o filho, que pastoreou uma única Igreja durante os mais de cinqüenta anos de ministério. Pastor Soren dava aulas de Teologia Sistemática. Aquela aula indispensável para os concílios. Os concílios são uma espécie de entrevista com um grupo de pastores que avaliam se a pessoa pode ou não ser um deles. Os quase cinqüenta alunos da classe queríamos ser um deles. Só que o pastor Soren já não dava aulas respondendo perguntas importantes de concílios. Contava as suas histórias, depositava parte da vida em quem pudesse não esquecer as suas memórias. Certa vez um dos colegas, inconformado, diante de um problema crucial, que deveria ser solucionado por quem conhecia e que provavelmente poderia mudar o rumo da nossa história e da teologia, perguntou: Afinal, o ser humano é corpo-alma-espírito, ou é só corpo-alma, sendo o espírito e a alma as mesmas coisas? Esta é a típica pergunta que só faz quem é aluno de teologia, e só vai pensar nela uma vez, quando passar pelo tal concílio. Pastor Soren respondeu: Já foi o tempo em que eu me preocupei com isso! Não é preciso dizer que saímos aborrecidos. Quem quer ser um deles, precisa saber como eles pensam, e dizer que pensa a mesma coisa, do mesmo modo. Matemática simples.
Tive que passar os meus últimos vinte e cinco anos tentando me despreocupar com algumas coisas e substituí-las por outras que realmente possam valer a pena. Hoje estou sendo motivado a pensar nos meus setenta e cinco anos. Tenho como exemplo uma pessoa, com quem tenho aprendido a fazer perguntas cujas respostas podem, de fato, fazer diferença.
Definitivamente, quando tiver setenta e cinco anos, vou querer me arrepender de muitas coisas que fiz de um modo, e que deveria ter feito de outro. Não terei medo de me reavaliar. Não gosto do discurso de quem diz: se pudesse viver outra vez, faria tudo do mesmo modo. Primeiro porque eu já vivi o bastante pra saber que isto é besteira. Depois porque só a idade nos ensina o que é a vida, e mesmo assim a gente nunca aprende. Aos setenta e cinco anos, quero me arrepender do tempo tão curto do casamento, da vida que passou rápida demais, do que ainda não deu tempo de conversar, dos inesquecíveis castelos e do depois de conto. Vou me arrepender do tempo que deixei de pescar. Do tempo que deixei de brincar com os meus filhos. Vou achar que o tempo que eles passaram comigo foi muito curto, logo se casaram, seguiram suas vidas e saíram para aprender a fazer as próprias perguntas importantes. Vou me lembrar das viagens, mas só por causa das pessoas queridas que estavam comigo. Não daquelas feitas às pressas, cheias de compromissos. Assembléias convencionais e debates que sempre voltaram para o mesmo lugar, discutiram as mesmas coisas, com os mesmos pressupostos, com as mesmas pessoas brigando, para se chegar às mesmas conclusões que não resolveram nada e nunca irão resolver qualquer coisa. Quanto tempo perdi ouvindo leituras de atas! Documentos, verdadeiros livros com gráficos, mapas de crescimento, números, extratos bancários, estatutos, muitos estatutos, perspectivas e projetos que nunca foram concluídos, nem o serão, porque o futuro sempre vem navegando e flutuando, meio à deriva, num negócio incerto chamado vida, e os relatórios passam a ser relatórios do que não foi, mas agora será. Será nada! Isto é conversa fiada.
Vou querer rir muito. Ah! Vou mesmo!Quero chegar ao culto sorrindo, desde a entrada, como aquela pessoa que conheço. Depois de uma longa viagem, ter a sensação de que estou voltando para casa. Vou dar muita risada. Não dos outros, mas de mim. Rir do tempo quando eu não sabia fazer perguntas. Da época quando desejava saber se o ser humano é corpo-alma-espírito, da época quando pensava no milênio e nos malabarismos bíblicos em busca da resposta. Vou me lembrar mais das festas, que das reuniões. Da conversa desprovida de defesa no serão depois do culto. Abraçar mais, muito mais. Vou querer ficar impaciente, contando uma história da vida para cada coisa que acontece, como se as experiências não tivessem fim. Quero tirar do armário, não os objetos que ganhei e que já não servem, seja por causa do tamanho, seja por causa da moda, seja por terem se tornado obsoletos - quero ver fotos, muitas fotos. Imagens da minha história. Gente rindo, família na praia, filhos pequenos, adolescentes, casados e já velhos. Quero ver fotos dos meus amigos, pessoas que conheci nas igrejas por onde passei; ovelhas quando eu pensava no milênio e que se tornaram amigos quando aprendi a fazer as perguntas importantes. Vou jogar fora os ternos. Jogar os velhos sermões quando as perguntas eram outras. Vou querer ser acompanhado pelos livros. Continuar lendo dois ou três ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Vou aprender a dizer “não sei”, e isto não fará qualquer diferença. Vou continuar gostando da chuva e pensarei na vida enquanto os pingos nas poças vão trazendo as histórias da infância, pelo vidro, pela janela disputada por muitas cabeças, narizes achatados no fascínio da imagem e as pequenas mãos tirando o embaço. Uma única janela na rua M 1, lá na vila Martins, que dava para uma estrada cheia de lama e pingos que pulavam. E a gente dizia: olha o pai pulando! Terá passado apenas, e tão somente, um período de setenta e cinco anos.
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