prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 04 de maio de 2008)
Em outubro de 1977, e teve que ser no dia 13, a Ponte Preta entrava em campo para a disputa da final do Campeonato Paulista. E quem em Campinas não se lembra do Rui Rei? Eu me lembro. Vi a cena ao vivo, pela televisão Millen, com perninhas no próprio aparelho, no sofá de curvim verde e branco, todo desenhado com minúsculos retângulos de linhas douradas, como se fosse uma parede de tijolos sem reboque, aquele do tipo que abria e virava cama quando a gente tentava juntar o assento com o encosto, formando um “v” seguido de um “clete-clete”, quando de repente, sem ninguém entender, aos 15 minutos do primeiro tempo Rui Rei entraria para a história. Recebeu o cartão amarelo e logo em seguida o vermelho, saiu de campo e praticamente saiu da vida. Ninguém entendeu. Mas nunca mais foi esquecido, também nunca conseguiu explicar.
Quando se perde a credibilidade não há explicação que dê conta. Já não é uma questão do que é certo ou errado. Você lê sobre o início da igreja, e não consegue explicar a razão pela qual tanta gente morreu de graça, só por ser cristão. Desde então o “mundo” sempre será visto como aquele que está “contra” a igreja. Não ficou nisso. O contrário também é verdadeiro. Você também não consegue explicar o motivo que levou a igreja a matar tanta gente, também de graça no período negro da inquisição. Aí é o “mundo” que pensa que a vilã é a igreja, e a melhor forma de se livrar dela é matando Deus. Mortes que não resolveram nada, se é que um dia poderão resolver alguma coisa.
Não vá longe, dê uma lida nas histórias bíblicas da conquista da terra prometida pelos judeus, lá no livro de Josué, pelo menos até o capítulo doze. Tudo bem, você também vai defender o seu cantinho afirmando que naquele tempo era assim mesmo, as guerras eram religiosas (acho que as atuais também são), havia uma espécie de lei da vida, ou mata ou morre. Com isso, parece que os israelitas estariam certos em responder no mesmo tom. Só que não aceito isso porque aprendi, desde que comecei a ser gente, que ao cristão paira o esforço de não ser igual. Tudo bem, a cultura era aquela mesma, e eu sei que há uma diferença entre judeus e cristãos, vá lá, mas não tente me convencer de que os que foram massacrados se tratavam de povos espiritualmente inferiores, muito, mas muito pecadores. Pecado por pecado, meu caro, não faz escapar ninguém, nem você e muito menos eu. Por esse caminho, zero seis, você se condena, me condena e condena todos em sua volta. Ao ler o capítulo onze de Josué que narra a destruição das cidades e mortes de todos os habitantes (leia-se mulheres e crianças também), você tem a sensação de que alguma coisa está errada. Por mais explicação que se dê, sempre fica a dúvida se não poderia ter sido diferente. A morte motivada já é duro de engolir, quanto mais a que vem de graça. Não há religião que possa sustentar o tirar a vida por causa de um credo. As pessoas são a nossa missão, não nossas vítimas. Precisam ser amadas, não exploradas.
Nesse ponto, quero dizer que a credibilidade dos cristãos vai muito mal, e não é culpa de qualquer perseguição. Em alguns casos a igreja estragou o cristianismo. Disse uma coisa e fez/faz o contrário. Não, não é que faz diferente, faz o contrário mesmo. Utilizamos determinados textos bíblicos, como o ser cabeça e não ser cauda, pra justificar a correria em busca de conforto e riqueza. Ser cabeça é liderar o mundo, comandar as reformas em favor da vida; é fazer com que aqueles desnorteados assumam o compromisso com o próximo, com o resgate da dignidade humana. Tô cansado de ver gente na televisão se apropriando de Deuteronômio 28:13, e fazendo uma leitura torta. O texto fala da independência, assumir liderança e o discurso a riqueza ali é apenas um detalhe. O mundo carece de valores, não de dinheiro. O que gera a fome não é a falta de dinheiro, mas ausência de valores. Bombas são jogadas, ao invés de comida, doenças e não remédios, preconceito e não amor. E ninguém tá nem aí. Não é uma questão de dinheiro. E o povo de Deus? Bem, o povo de Deus fica correndo atrás das mesmas coisas. Fica utilizando a expressão bíblica para reforçar o que há de mais degradante, correndo atrás do que tem sido um dos problemas da humanidade. Atrás significa ser rebocado. Isso é ser cauda. Ser cauda é calda, é uma água. Ser cabeça, isso sim. Assumir valores, defender o que é ético, sair em defesa da vida. Seja prático, se você saísse hoje do jogo, que falta faria?
Daí a gente olha pro Rui Rei e fica indignado dele ter sido expulso logo no início do primeiro tempo. Não sei, mas já acho muito a gente fazer parte do time, não deveria sobrar nem pra gandula.
sábado, 3 de maio de 2008
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