quinta-feira, 10 de abril de 2008

VAMOS FAZER FILHOS!

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 12 de agosto de 2007, por ocasião do dia dos pais)

Não adianta os jovens e adolescentes ficarem entusiasmados. A conversa não é com vocês, sinto muito. Nem com os solteiros e separados. Daí um morador do meu condomínio disse: tô perdido – minha mulher inventou de ficar grávida! Claro que é uma conversa machista, de quem pensa que mulher se engravida por conta própria. Apesar do mau humor – dele é claro, pois eu estava numa manhã de bem com a vida – dei os parabéns. Com um sorriso amarelo, ele disse que o outro filho já estava com onze anos. De fato, recomeçar tudo de novo, com direito a cólicas, fraldas, papinhas e perder a mulher por um tempo ocupada exclusivamente com a cria, desestimula qualquer um que vive no tempo da ditadura do conforto. Nada que dê trabalho. Você pensa quinze vezes antes de dispensar um funcionário, se preocupa com a família dele, e se surpreende com a felicidade daquele que vai ficar em casa sem fazer nada sem se sentir culpado. Justifica que o motivo é de força maior, e vamos ver a sessão da tarde em plena segunda-feira. A gente só aceita a quebra de ritmo, se for pra menos. Quebra de ritmo pra mais, não é quebra de ritmo, é o vislumbre de agonia.

Deixe o meu vizinho com o machismo dele, que eu vou aqui defendendo o meu cantinho, num estímulo contrário ao discurso de todo mundo: vamos fazer filhos, minha gente! Se você pensa que estou sendo bonzinho, pode tirar o cavalo da chuva. Estou sendo bastante egoísta, porque estou pensando que, sem filhos, não se comemora o dia dos pais (nem das mães). Antes o dia dos pais (e o das mães) era uma festa só. Teve uma vez em casa que resolvemos dar um caminhão de presentes para a minha mãe. Deixe-me explicar que caminhão aqui é apenas uma metáfora, um dizer de excesso, um montão. Pois é, todos pobres, pouca alimentação e pouquíssimo, ou como diria o Chaves, poucossissíssimo dinheiro. Enchemos a mesa com tudo aquilo que mais tarde abasteceria o mercado de um e noventa e nove. Naquele tempo tais lojas não existiam. Colocamos tudo em cima da mesa da cozinha para que ela se assustasse com o nosso carinho pela manhã. Não sei se ela chegou a se levantar de madrugada e antecipadamente soube da surpresa. Se foi assim, fez muito bem o papel de quem ganha alguma coisa e não desanima quem deu – ficou pasma! Ponto pra nós. Depois foi a vez da macarronada, Tubaína e guaraná Santana. Uma festa só: sete filhos em volta de uma mesa comemorando o dia de quem nos dera a vida.

Que pena! A mesma vida, impulsionada por toda a tragédia que tem rondado o mundo e seu crescimento demográfico, está ameaçada de extinção ou de diminuição. Ainda tem o avanço da medicina que tem sido extremamente importante para cuidar dos que têm dó de morrer, acrescentou mais dias aos que já têm vida. Estes não querem ceder espaço e tempo para os que sequer podem expressar os seus desejos. Não se deve dividir nada com um outro, especialmente se a gente tem a opção de não permitir que nasça. Vivíamos numa miséria em casa, dava até dó. Sou o quinto filho e nos tempos atuais não teria a menor chance. Passei fome, mas gostei de ter nascido.

Você vai achar que estou exagerando. Sou pastor, tenho autorização para ser exagerado; faz parte da minha natureza. Talvez você seja um daqueles que acredita que a vida tem que rodar com menos sofrimento, com menos fome no mundo, com mais emprego já que o crescimento demográfico é uma tragédia para a economia. Tá certo: dou a mão à palmatória. Só que o dia dos pais, no plural e na multiplicação, está ficando mais curto, no singular e na subtração. Está ficando triste. A igreja está ficando triste. Sumiram as crianças barulhentas que traziam carrinhos à pilha ao culto, com direito à sirene de polícia e de ambulância. Onde estão as crianças andando pelos corredores da igreja? Aquela sala cheia de cabecinhas, trancinhas, chiquinhas e cabelos cortados no modo americano? Sala cheirando a suor pela correria que marcava o início da escola dominical. Berçários lotados que mais pareciam a produção da Ford: era um atrás do outro. Salas decoradas, brinquedos pelo chão, chupetas encontradas pelo caminho, e muito choro, aquele barulho que ainda cheira à vida, na liberação da angústia do existir, ecoando e penetrando como se fosse toque prolongado e agudo de uma corneta que fazia gemer as cartilagens dos adultos. Não tinha quem não se incomodasse. Hoje já não incomodam mais. Conseguimos impor o cheiro do nosso mofo ao perfume das fraldas, o nosso silêncio sepulcral aos gritos rápidos de alegria de quem corre sabendo que vai sendo perseguida pelo pai que, num dado momento, a fará voar para três, talvez quatro vezes mais a sua própria altura. É o vôo da liberdade, e da segurança. É impossível não mostrar a banguela e o dente solitário.

A vida está ficando chata, porque ser adulto é ser chato. A gente não voa, não caminha pelos corredores, nem sai correndo para o início das aulas. Não tem cheiro de suor - aaaggghhh, que coisa nojenta! Só que é a gente que decide que quem não nasceu, não vai nascer. E ficamos mais tempo do que deveríamos, ocupando um lugar que já não é mais nosso. Mas quem em sã consciência é capaz de concordar com isso? Viemos no bico da cegonha, mas não queremos chegar ao bico do corvo. Nem tudo o que tem bico, penas e voa, faz parte dos nossos sonhos. Esticar a vida e o conforto também é lutar pela sobrevivência. Ficamos espertos nisso.

Minha campanha é legítima: vamos fazer filhos! Distribuir vida, apesar de não ser nossa. Produzir esperança e recriar um paraíso, senão o bíblico, pelo menos um tipo para o qual não falte jardineiro. Quero que no futuro o dia dos pais não seja extinto por falta de candidato.

Nenhum comentário: