sábado, 15 de março de 2008

PERDÃO: INGREDIENTES, DATA DE FABRICAÇÃO E PRAZO DE VALIDADE

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva

(publicado no Boletim Dominical da Igreja Batista em Barão Geraldo, 16 de março de 2008)


Eu sei que você não gosta dessa conversa, mas perdão tem prazo de validade. Você prefere o setenta vezes sete, mas isso não se refere ao tempo, mas à quantidade. E se acontecer de novo, igualzinho, sem tirar nada, como fica? Não fica. Em termos de quantidade o perdão não tem limite. O negócio é munir-se de paciência, agüentar firme, burilar as emoções, cuidar dos sentimentos e perdoar - again, again, again.

O prazo de validade do perdão está no Sermão do Monte. Como sabemos, o Evangelho de Mateus foi escrito em época de perseguição, e quase tudo nele tem esse sentido, e tinha que começar com as bem-aventuranças: a felicidade acima da conta em tempo de morte. Ser bem-aventurado é a condição daquele que suporta todas as adversidades, é perseguido, enfrenta uma guerra, mas promove a paz, dedicando-se à defesa da fé com uma total pureza de coração, e o resultado é ver a Deus. Os bem-aventurados também são os mesmos que esperam a justiça perfeita e que não irá tardar; choram as suas dores, e já podem viver a plenitude da felicidade, porque serão pastoreados pessoalmente pelo Senhor. Ser humilde de espírito e manso de coração são os desafios em meio à tragédia da vida, mas o resultado é a bem-aventurança da conquista de um reino e a herança de uma nova terra. Observada por essa perspectiva, a perseguição é um privilégio de poucos e motivo de regozijo, especialmente se for absolutamente injusta, permeada de mentira: a injusta fica mais injusta, e a alegria fica mais alegre. O ser sal não seria outra coisa senão o viver a plena felicidade: beber e se lambuzar do tempo da bem-aventurança durante a travessia da plena turbulência e perseguição. Não adianta querer se esconder: todo discípulo verdadeiro é luz do mundo, vai ser visto e perseguido, as boas obras irão iluminar até quem os persegue, os quais ficarão se perguntando: qual o significado disso? Não é uma questão de fuga. Trata-se da natureza do próprio Evangelho que é assim e somente assim.

Quem não compreende a contradição entre a perseguição injusta, mais injusta que já poderia ter sido vista, em contraste com a dor mais doída de quem sofre sem precisar sofrer, e a alegria mais alegre de poder superar tudo isso, não entende as bem-aventuranças, talvez nem o Sermão do Monte.

Lindo, né? A matemática é simples:

o supra-sumo da perseguição sofrida,
o supra-sumo da dor vivida,
e o supra-sumo da alegria desfrutada.

A expressão não poderia ser outra: bem-aventurado tá de bom tamanho. Felicíssimo também seria, mas prefiro o bem-aventurado. Fica mais bonito, é uma palavra do meu imaginário sagrado, pura e santa. Símbolo religioso é símbolo religioso, não dá pra mudar, senão perde o brilho.

Pois é, perseguidos dessa maneira, a falta de convivência em amor sem dúvida fragmenta a comunidade e esta praticamente perde o sentido. Uma comunidade dividida volta-se “para dentro”, para resolver os seus problemas. Mateus está muito preocupado com esse assunto, e compara as divergências como caso de vida ou morte. Uns matam tirando a vida, outros mediante a falta de perdão. O perdão não é uma questão de opção, mas necessidade de sobrevivência. Mateus é bastante claro: tente resolver o problema, caminhe com o ofensor, mas resolva logo, enquanto está no trajeto, isto é, enquanto for possível mudar a situação. De que adianta resolver algum problema de relacionamento depois de 10, 15 ou 20 anos? A pessoa ofendida já não poderá ser restaurada, foi marginalizada pela comunidade, não teve a oportunidade de rever os seus conceitos, o tempo passou, o cenário mudou, a vida mudou, a história é outra, e o perdão vira apenas um problema de consciência. Não serve pra nada! Desculpe, estou sendo exagerado. Vamos dizer que serve pra pouca coisa. Pouquíssima! Quase nada, ou nada – pronto, voltei ao ponto de partida, não vale nada mesmo.

A falta de perdão sempre ameaça a comunidade, do mesmo modo como a violência à vida. A sobrevivência da igreja não está no culto ou na celebração, mas no perdão. O fator principal de testemunho não está no discurso de amor, mas no amor aplicado às pessoas. O trabalho mais importante na vida cristã é aprender a amar, e não tem jeito de ser diferente.

Depois das bem-aventuranças, do sal da terra e da luz do mundo, o Sermão do Monte traz a informação da verdadeira lei de Deus, algo parecido com isto: se você quer ser justo, justo, mas justo mesmo, mais justo que qualquer religioso justo, comece com o perdão, uma questão de vida e ou de morte. A vida vive da vida assim como a comunidade vive do perdão. É isso, ou isso mesmo.

Um comentário:

Anônimo disse...

O pastor toco no ponto principal da vida crista, o amor de uns pelos outros.