prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(ao meu amigo, hoje colega, Jeferson Rodolfo Cristianini, quando da sua ordenação ao Ministério Pastoral, publicado no boletim de ordenação, Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 e 25 de maio de 2008)
A interpretação da vida, pelo caminho da memória é coisa de doido. Paul Ricoeur diz que o esquecimento, possivelmente, ofereceria elementos mais importantes para a compreensão da vida que a memória. Esta é seletiva, muitas vezes triunfalista, contaminada com as emoções e quase sempre quando dela se faz uso, não se sabe direito se o imaginário não está invertendo os acontecimentos, coisas que pareciam ter sido ditas depois, poderiam ser anteriores, detalhes que se perderam, julgamentos, palavras ditas, tudo misturado com vida, dor, alegria e expectativas criam uma indagação crônica sobre a serviço de quem recordamos e revivemos o que talvez jamais tenha acontecido. Pelos sonhos da memória resgatamos o que jamais fomos, mas nos tornamos como sendo, porque a memória é a interpretação do presente. Você pensa que está se lembrando do passado, mas foi o presente que o fez pensar e recuperar coisas que estavam escondidas, quietas, sufocadas e perdidas. Daí você jamais saberá a diferença entre uma coisa e outra. É como se você tentasse comparar fotografias da vida, o momento paralisado pelo tempo. Nelas é possível observar os detalhes, lançar um olhar curioso em busca dos sete erros, como se fosse brincadeira em quadrinhos, e daí fazer um diagnóstico modesto: foi assim..., ou um talvez tenha sido assim... – duvidoso, porém humano.
É essa a minha leitura dos últimos escritos de Paulo, um humano, demasiadamente humano. Tomado pelo esquecimento dos grandes tratados de teologia, do primeiro período, o que restou foi o vivido, não o conceituado. É como se tivesse havido dois Paulos, um antes e um depois, um jovem e um velho. Dois Paulos, até parece coisa de academia, que fica dividindo gente como se fosse queijo. É um tal de jovem Heidegger, e segundo Heidegger, primeiro, segundo e (talvez) terceiro Rahner. Você não conhece nem bem um, quanto mais três do mesmo que virou outro.
Paulo, o jovem! Já leu a intrincada Carta aos Romanos, e seu discurso da possibilidade teológica de inclusão dos gentios? Texto complicado, não é? Já leu a Carta aos Gálatas e o combate declarado ao judaísmo? Lembra-se de Paulo confrontando Pedro, lá no capítulo dois? E as cartas Aos Coríntios? Na primeira, inconformado com a imoralidade, recomenda que se entregue uma pessoa a Satanás! Uau! Pois é, esse foi o Paulo do começo, o que atropela, forte, destemido, corajoso, em alguns momentos até impiedoso. Não sei se estas se tornaram memórias tristes, já que nunca mais voltou a mencioná-las. Já pensou se Paulo mantivesseaquele discurso do “eu não mudo?” Depois a gente precisa esquecer, e tem que ser de propósito. Não estou falando de perdão, mas é quase. Vez por outra, você precisa formatar a memória, salvar o necessário num canto, compactado, e apagar tudo como se fizesse uma retífica. A cabeça da gente fica lenta com tantos arquivos temporários. Daí você pode olhar o próprio passado como se tivesse sido uma outra pessoa. E era. Pode rir, sentir pena ou vergonha de si mesmo. Isso faz parte.
O jovem Paulo morreu na prisão. Morreu antes da morte, morreu no esquecimento, sepultado pela memória, que matou outras memórias, um esquecer a impiedade praticada em nome da justiça(?), ou um amor defendido por meio da impaciência (que alguns chamam de sinceridade) (?), ou ainda de uma liberdade de expressão sob o domínio de um único controle(?), o inventário de sofrimento, que depois perdeu a importância porque muita gente passou a sofrer também. Memórias que já não serviam mais.
Leia Paulo, o velho, aquele que passou pelas prisões. Leia com atenção porque senão você vai ficar como alguns que não acreditam ter sido a mesma pessoa. Veja o nada façais por contenda ou vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo de Aos Filipenses. Dá pra imaginar que Paulo, o velho, poderia mandar alguém para ser entregue a Satanás? Se desejar, leia toda a carta, leia o regozijai-vos sempre no Senhor, leia mais, leia sobre aquele que aprendeu que uma pessoa poderia pregar a Cristo até por inveja - é tá lá sim, basta procurar. Quando alguém diz que Paulo escreveu tal carta por conta de amar mais aquela comunidade, a chamada igreja do coração, fico a pensar que seria a igreja da remissão.
Paulo remido pelas memórias, centrado no afeto e na gratidão, coisas trazidas pela vida, sofrimento, prisão e tempo, muito tempo pra ficar pensando, tempo sozinho com Deus, muitas noites conversando consigo, reescrevendo a sua teologia mais próxima da vida e das pessoas, mais próxima do ser gente, menos cruel, ninguém sendo mandado para o inferno, mas entregando o agressor aos cuidados de Deus, lá no fim da vida. Claro que é outro discurso, e gostaria de saber o que a Teologia Sistemática faz com isso. Preso não viaja, escreve um pouco e ora muito, mas muito mesmo, um pouco mais do que você está pensando, muito, mas muito tempo para refletir, rememorar, pensar outra vez nas memórias já pensadas, palavras passando repetidas como se não pudessem ser esquecidas e que novamente voltam, nunca concluídas, e mais oração, muita oração. Sem dia, e sem noite. Tudo igual. O tempo parado. A vida paralisada com a imagem da mesma sala, mesma parede estática, mesma visão curta, sem horizonte e um olhar para dentro sem espelho, e ficar gastando o chão de tanto dar voltas, e pensar, pensar e pensar, orar, orar e apenas orar, rememorar e rememorar, muito tempo para escolher o supra sumo da vida, e esquecer o resto, e ficar só com o sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.
Paulo, o velho, e tinha que ter ficado velho para virar Paulo. Ao invés da lista de sofrimento e da reclamação do trabalho que as igrejas davam, confessa que o para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho [...] mas julgo mais necessário por amor de vós, ficar na carne. O que você prefere: ouvir relatório de sofrimento, ou o desejo confessado de alguém que vive só para continuar te amando?
Um primeiro, outro segundo, quem sabe um terceiro ou até mesmo um quarto de você que se transformou em outro que é você mesmo. Nascido das longas conversas com Deus e o próprio pensamento, se esquecendo e se refazendo em meio às próprias lembranças. Assim nasce um pastor.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
segunda-feira, 12 de maio de 2008
EVA, VIDA
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 11 de maio de 2008)
As narrativas sobre a criação estão sendo redescobertas, e se constituem num desafio à interpretação. Ler a literalidade é fácil, quase mecânico. Você fixa a individualidade do primeiro ser humano e de sua parceira, o segundo ser humano, a primeira inserção do mal, e o resultado que se tem é a corrupção da raça. Observado desse modo, o texto fica fácil, o pecado é instituído, o ser humano condenado e daí por diante não se espera mais nada. Numa breve narrativa são levantadas todas as perguntas que nos inquietam: De onde viemos? O que é a morte? Qual será o nosso destino? – e são respondidas em forma de rara beleza poética. As cenas vão passando, há um determinado lugar, lindo lugar, cheio de água, coalhado de verde e de frutos; vida de um lado, vida de outro, brilho pro lado de cima, águas pro lado de baixo, e tudo vai surgindo de uma forma que não precisa de explicação: Disse Deus. Só. Disse e pronto. Você pode explicar a luz? Não precisa, apenas Disse Deus. Olha para as estrelas, e haja teoria da Grande Explosão, de elaboração duvidosa, quase uma religião, sem comprovação, hipóteses daqui, hipóteses dali, e o texto bíblico é simples, sintético e objetivo, apenas Disse Deus. Só isso, Disse e pronto. Vai assim, até que surge Eva.
A impressão que se tem é a de que se tratou de um nome titulado com honra. Não foi. Até então homem e mulher são apenas indicações de gêneros. Eva aparece como a explicação da perda do paraíso. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois do tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o lugar em que essa cede lugar à narrativa meio turva, mais cheia de detalhes, o primeiro texto do cotidiano, num passeio sem qualquer pretensão, num dia qualquer, e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido, ficar num canto e quem quiser achar vai ter que procurar. Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida? Vida parece bom para quem se esconde, tem medo e vergonha. Tá de bom tamanho: Vida.
Então a narrativa poderia ser assim: 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à Vida: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?/ 2. Respondeu a Vida à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer. /3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. / 4. Disse a serpente à Vida: Certamente não morrereis. /5. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal./ 6. Então, vendo a Vida que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu./ 7. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. Deus fez a Vida e a Vida desejou ser livre, mesmo que isso custasse o seu fim, e se tornasse morte.
Só que a Vida não foi punida só com a morte, foi punida com a vida – Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada aos seres humanos, antes de perder o paraíso, bem antes. Antes da condenação da morte, bem antes. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início, será contraditória para sempre, vai trocar o paraíso pela liberdade. Tem gente que diz com a boca cheia: vou para o inferno, mas não mudo. Sabe de uma coisa? - isso parece absurdo, mas Deus respeita quem deseja trocar uma pela outra. A Vida é assim, desde o início. Ela olhou para a liberdade, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem segura a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); desejou o que é belo (agradável aos olhos); e desejou ser livre, sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco (desejável para dar entendimento).
Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antigüidade remota, aquele que não teria desejos, que não levaria em conta o prazer, que não se fascinasse com o que é belo e que não desejasse ser livre? Você consegue imaginar uma coisa dessas? Eu não consigo. Só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, dominar as emoções, controlar a pressão alta por meio do relaxamento, ter que escolher uma coisa e outra, poder fazer isso, sentir culpa, medo, muito medo, medo de tudo e ficar buscando a Deus por qualquer coisinha que aconteça, porque dependo dele pra tudo. Fico sonhando com o meu retorno ao paraíso, e isso é que dá sentido. A esperança do voltar, apenas voltar.
E não foi Eva a mãe de tudo isso? Você acha que foi um nome honorífico? Não foi. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa. Nascer dói, pra quem nasce e pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, nunca mais pára de doer, nunca mais sossega, nunca mais tem segurança outra vez. Dói de um lado e de outro. A Vida que gerou a vida, quer protegê-la das ameaças, e a vida que foi gerada pela Vida quer romper o cordão e também experimentar um pouco da morte. Será que é isso, finalmente, o significado de ser mãe é padecer no paraíso?
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 11 de maio de 2008)
As narrativas sobre a criação estão sendo redescobertas, e se constituem num desafio à interpretação. Ler a literalidade é fácil, quase mecânico. Você fixa a individualidade do primeiro ser humano e de sua parceira, o segundo ser humano, a primeira inserção do mal, e o resultado que se tem é a corrupção da raça. Observado desse modo, o texto fica fácil, o pecado é instituído, o ser humano condenado e daí por diante não se espera mais nada. Numa breve narrativa são levantadas todas as perguntas que nos inquietam: De onde viemos? O que é a morte? Qual será o nosso destino? – e são respondidas em forma de rara beleza poética. As cenas vão passando, há um determinado lugar, lindo lugar, cheio de água, coalhado de verde e de frutos; vida de um lado, vida de outro, brilho pro lado de cima, águas pro lado de baixo, e tudo vai surgindo de uma forma que não precisa de explicação: Disse Deus. Só. Disse e pronto. Você pode explicar a luz? Não precisa, apenas Disse Deus. Olha para as estrelas, e haja teoria da Grande Explosão, de elaboração duvidosa, quase uma religião, sem comprovação, hipóteses daqui, hipóteses dali, e o texto bíblico é simples, sintético e objetivo, apenas Disse Deus. Só isso, Disse e pronto. Vai assim, até que surge Eva.
A impressão que se tem é a de que se tratou de um nome titulado com honra. Não foi. Até então homem e mulher são apenas indicações de gêneros. Eva aparece como a explicação da perda do paraíso. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois do tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o lugar em que essa cede lugar à narrativa meio turva, mais cheia de detalhes, o primeiro texto do cotidiano, num passeio sem qualquer pretensão, num dia qualquer, e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido, ficar num canto e quem quiser achar vai ter que procurar. Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida? Vida parece bom para quem se esconde, tem medo e vergonha. Tá de bom tamanho: Vida.
Então a narrativa poderia ser assim: 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à Vida: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?/ 2. Respondeu a Vida à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer. /3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. / 4. Disse a serpente à Vida: Certamente não morrereis. /5. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal./ 6. Então, vendo a Vida que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu./ 7. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. Deus fez a Vida e a Vida desejou ser livre, mesmo que isso custasse o seu fim, e se tornasse morte.
Só que a Vida não foi punida só com a morte, foi punida com a vida – Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada aos seres humanos, antes de perder o paraíso, bem antes. Antes da condenação da morte, bem antes. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início, será contraditória para sempre, vai trocar o paraíso pela liberdade. Tem gente que diz com a boca cheia: vou para o inferno, mas não mudo. Sabe de uma coisa? - isso parece absurdo, mas Deus respeita quem deseja trocar uma pela outra. A Vida é assim, desde o início. Ela olhou para a liberdade, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem segura a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); desejou o que é belo (agradável aos olhos); e desejou ser livre, sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco (desejável para dar entendimento).
Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antigüidade remota, aquele que não teria desejos, que não levaria em conta o prazer, que não se fascinasse com o que é belo e que não desejasse ser livre? Você consegue imaginar uma coisa dessas? Eu não consigo. Só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, dominar as emoções, controlar a pressão alta por meio do relaxamento, ter que escolher uma coisa e outra, poder fazer isso, sentir culpa, medo, muito medo, medo de tudo e ficar buscando a Deus por qualquer coisinha que aconteça, porque dependo dele pra tudo. Fico sonhando com o meu retorno ao paraíso, e isso é que dá sentido. A esperança do voltar, apenas voltar.
E não foi Eva a mãe de tudo isso? Você acha que foi um nome honorífico? Não foi. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa. Nascer dói, pra quem nasce e pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, nunca mais pára de doer, nunca mais sossega, nunca mais tem segurança outra vez. Dói de um lado e de outro. A Vida que gerou a vida, quer protegê-la das ameaças, e a vida que foi gerada pela Vida quer romper o cordão e também experimentar um pouco da morte. Será que é isso, finalmente, o significado de ser mãe é padecer no paraíso?
sábado, 3 de maio de 2008
DÁ PRA EXPLICAR?
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 04 de maio de 2008)
Em outubro de 1977, e teve que ser no dia 13, a Ponte Preta entrava em campo para a disputa da final do Campeonato Paulista. E quem em Campinas não se lembra do Rui Rei? Eu me lembro. Vi a cena ao vivo, pela televisão Millen, com perninhas no próprio aparelho, no sofá de curvim verde e branco, todo desenhado com minúsculos retângulos de linhas douradas, como se fosse uma parede de tijolos sem reboque, aquele do tipo que abria e virava cama quando a gente tentava juntar o assento com o encosto, formando um “v” seguido de um “clete-clete”, quando de repente, sem ninguém entender, aos 15 minutos do primeiro tempo Rui Rei entraria para a história. Recebeu o cartão amarelo e logo em seguida o vermelho, saiu de campo e praticamente saiu da vida. Ninguém entendeu. Mas nunca mais foi esquecido, também nunca conseguiu explicar.
Quando se perde a credibilidade não há explicação que dê conta. Já não é uma questão do que é certo ou errado. Você lê sobre o início da igreja, e não consegue explicar a razão pela qual tanta gente morreu de graça, só por ser cristão. Desde então o “mundo” sempre será visto como aquele que está “contra” a igreja. Não ficou nisso. O contrário também é verdadeiro. Você também não consegue explicar o motivo que levou a igreja a matar tanta gente, também de graça no período negro da inquisição. Aí é o “mundo” que pensa que a vilã é a igreja, e a melhor forma de se livrar dela é matando Deus. Mortes que não resolveram nada, se é que um dia poderão resolver alguma coisa.
Não vá longe, dê uma lida nas histórias bíblicas da conquista da terra prometida pelos judeus, lá no livro de Josué, pelo menos até o capítulo doze. Tudo bem, você também vai defender o seu cantinho afirmando que naquele tempo era assim mesmo, as guerras eram religiosas (acho que as atuais também são), havia uma espécie de lei da vida, ou mata ou morre. Com isso, parece que os israelitas estariam certos em responder no mesmo tom. Só que não aceito isso porque aprendi, desde que comecei a ser gente, que ao cristão paira o esforço de não ser igual. Tudo bem, a cultura era aquela mesma, e eu sei que há uma diferença entre judeus e cristãos, vá lá, mas não tente me convencer de que os que foram massacrados se tratavam de povos espiritualmente inferiores, muito, mas muito pecadores. Pecado por pecado, meu caro, não faz escapar ninguém, nem você e muito menos eu. Por esse caminho, zero seis, você se condena, me condena e condena todos em sua volta. Ao ler o capítulo onze de Josué que narra a destruição das cidades e mortes de todos os habitantes (leia-se mulheres e crianças também), você tem a sensação de que alguma coisa está errada. Por mais explicação que se dê, sempre fica a dúvida se não poderia ter sido diferente. A morte motivada já é duro de engolir, quanto mais a que vem de graça. Não há religião que possa sustentar o tirar a vida por causa de um credo. As pessoas são a nossa missão, não nossas vítimas. Precisam ser amadas, não exploradas.
Nesse ponto, quero dizer que a credibilidade dos cristãos vai muito mal, e não é culpa de qualquer perseguição. Em alguns casos a igreja estragou o cristianismo. Disse uma coisa e fez/faz o contrário. Não, não é que faz diferente, faz o contrário mesmo. Utilizamos determinados textos bíblicos, como o ser cabeça e não ser cauda, pra justificar a correria em busca de conforto e riqueza. Ser cabeça é liderar o mundo, comandar as reformas em favor da vida; é fazer com que aqueles desnorteados assumam o compromisso com o próximo, com o resgate da dignidade humana. Tô cansado de ver gente na televisão se apropriando de Deuteronômio 28:13, e fazendo uma leitura torta. O texto fala da independência, assumir liderança e o discurso a riqueza ali é apenas um detalhe. O mundo carece de valores, não de dinheiro. O que gera a fome não é a falta de dinheiro, mas ausência de valores. Bombas são jogadas, ao invés de comida, doenças e não remédios, preconceito e não amor. E ninguém tá nem aí. Não é uma questão de dinheiro. E o povo de Deus? Bem, o povo de Deus fica correndo atrás das mesmas coisas. Fica utilizando a expressão bíblica para reforçar o que há de mais degradante, correndo atrás do que tem sido um dos problemas da humanidade. Atrás significa ser rebocado. Isso é ser cauda. Ser cauda é calda, é uma água. Ser cabeça, isso sim. Assumir valores, defender o que é ético, sair em defesa da vida. Seja prático, se você saísse hoje do jogo, que falta faria?
Daí a gente olha pro Rui Rei e fica indignado dele ter sido expulso logo no início do primeiro tempo. Não sei, mas já acho muito a gente fazer parte do time, não deveria sobrar nem pra gandula.
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 04 de maio de 2008)
Em outubro de 1977, e teve que ser no dia 13, a Ponte Preta entrava em campo para a disputa da final do Campeonato Paulista. E quem em Campinas não se lembra do Rui Rei? Eu me lembro. Vi a cena ao vivo, pela televisão Millen, com perninhas no próprio aparelho, no sofá de curvim verde e branco, todo desenhado com minúsculos retângulos de linhas douradas, como se fosse uma parede de tijolos sem reboque, aquele do tipo que abria e virava cama quando a gente tentava juntar o assento com o encosto, formando um “v” seguido de um “clete-clete”, quando de repente, sem ninguém entender, aos 15 minutos do primeiro tempo Rui Rei entraria para a história. Recebeu o cartão amarelo e logo em seguida o vermelho, saiu de campo e praticamente saiu da vida. Ninguém entendeu. Mas nunca mais foi esquecido, também nunca conseguiu explicar.
Quando se perde a credibilidade não há explicação que dê conta. Já não é uma questão do que é certo ou errado. Você lê sobre o início da igreja, e não consegue explicar a razão pela qual tanta gente morreu de graça, só por ser cristão. Desde então o “mundo” sempre será visto como aquele que está “contra” a igreja. Não ficou nisso. O contrário também é verdadeiro. Você também não consegue explicar o motivo que levou a igreja a matar tanta gente, também de graça no período negro da inquisição. Aí é o “mundo” que pensa que a vilã é a igreja, e a melhor forma de se livrar dela é matando Deus. Mortes que não resolveram nada, se é que um dia poderão resolver alguma coisa.
Não vá longe, dê uma lida nas histórias bíblicas da conquista da terra prometida pelos judeus, lá no livro de Josué, pelo menos até o capítulo doze. Tudo bem, você também vai defender o seu cantinho afirmando que naquele tempo era assim mesmo, as guerras eram religiosas (acho que as atuais também são), havia uma espécie de lei da vida, ou mata ou morre. Com isso, parece que os israelitas estariam certos em responder no mesmo tom. Só que não aceito isso porque aprendi, desde que comecei a ser gente, que ao cristão paira o esforço de não ser igual. Tudo bem, a cultura era aquela mesma, e eu sei que há uma diferença entre judeus e cristãos, vá lá, mas não tente me convencer de que os que foram massacrados se tratavam de povos espiritualmente inferiores, muito, mas muito pecadores. Pecado por pecado, meu caro, não faz escapar ninguém, nem você e muito menos eu. Por esse caminho, zero seis, você se condena, me condena e condena todos em sua volta. Ao ler o capítulo onze de Josué que narra a destruição das cidades e mortes de todos os habitantes (leia-se mulheres e crianças também), você tem a sensação de que alguma coisa está errada. Por mais explicação que se dê, sempre fica a dúvida se não poderia ter sido diferente. A morte motivada já é duro de engolir, quanto mais a que vem de graça. Não há religião que possa sustentar o tirar a vida por causa de um credo. As pessoas são a nossa missão, não nossas vítimas. Precisam ser amadas, não exploradas.
Nesse ponto, quero dizer que a credibilidade dos cristãos vai muito mal, e não é culpa de qualquer perseguição. Em alguns casos a igreja estragou o cristianismo. Disse uma coisa e fez/faz o contrário. Não, não é que faz diferente, faz o contrário mesmo. Utilizamos determinados textos bíblicos, como o ser cabeça e não ser cauda, pra justificar a correria em busca de conforto e riqueza. Ser cabeça é liderar o mundo, comandar as reformas em favor da vida; é fazer com que aqueles desnorteados assumam o compromisso com o próximo, com o resgate da dignidade humana. Tô cansado de ver gente na televisão se apropriando de Deuteronômio 28:13, e fazendo uma leitura torta. O texto fala da independência, assumir liderança e o discurso a riqueza ali é apenas um detalhe. O mundo carece de valores, não de dinheiro. O que gera a fome não é a falta de dinheiro, mas ausência de valores. Bombas são jogadas, ao invés de comida, doenças e não remédios, preconceito e não amor. E ninguém tá nem aí. Não é uma questão de dinheiro. E o povo de Deus? Bem, o povo de Deus fica correndo atrás das mesmas coisas. Fica utilizando a expressão bíblica para reforçar o que há de mais degradante, correndo atrás do que tem sido um dos problemas da humanidade. Atrás significa ser rebocado. Isso é ser cauda. Ser cauda é calda, é uma água. Ser cabeça, isso sim. Assumir valores, defender o que é ético, sair em defesa da vida. Seja prático, se você saísse hoje do jogo, que falta faria?
Daí a gente olha pro Rui Rei e fica indignado dele ter sido expulso logo no início do primeiro tempo. Não sei, mas já acho muito a gente fazer parte do time, não deveria sobrar nem pra gandula.
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