quinta-feira, 17 de abril de 2008

APENAS GRAÇA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 13 de abril de 2008)

Estava disposto a escrever sobre Sêneca, contemporâneo de Jesus: viver é tanto aprender a viver, quanto aprender a morrer. A vida é um aprendizado para a vida, mas é também um aprendizado para a morte. Daí voltei a Jó e encontrei uma contradição semelhante: viver em graça é aprender a sorrir e sofrer, viver e morrer.

Eu sei que há toda uma discussão sobre a datação do livro de Jó. Qualquer pessoa que tenha acesso a livros e críticas, ou mesmo uma conexão de internet, mesmo que discada, vai encontrar trocentos escritos sobre isso. A questão aqui não é a de você ficar desconfiado do texto, mas compreender que talvez o livro de Jó seja mais recente do que se pensava anteriormente e o debate sobre a graça, tema tardio e que já está presente nos profetas, seria o seu assunto principal. Enquanto a perspectiva da graça aparece como um dentre tantos temas na teologia profética, o livro de Jó parece ser todo voltado ao tema, mediante uma rara beleza poética. Tem mais: o profetismo é unilateral, do profeta para o povo. A graça em Jó tem um caráter interpessoal. Trata-se de uma conversa de gente comum sobre Deus e a miséria humana. Pessoas que se amam e se cuidam, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento humano. Seria possível um sofrimento sem causa?

Já passamos por Sêneca e chegamos a Jó. Antes que você pule de parágrafo e comece pelo avesso, preciso dar-lhe a pista de como é que se junta vida e morte, sofrimento e salvação, sob o domínio da graça. Isso parece um absurdo, eu sei. Quando você ouve falar sobre a graça, já sabe que virá algo nobre. Uma palavra próxima seria perdão. Pensou em graça, pensou em perdão, paz e descanso. Uma graça que aniquila a pessoa e que traz sofrimento, lágrimas, dor, perda de filhos, perda de tudo, definitivamente não pode ser graça. Eu sei que você pensa assim. Não se culpe, por favor. Também tenho dificuldade emocional de aceitar isso. Aprendi que tudo o que a gente faz, recebe de volta, seja bom, seja ruim. Daí a idéia de que nada acontece por acaso.

Não quero dizer que isso também não seja bíblico. Abro o texto e o que vou mais encontrar nele é a reflexão sobre os descaminhos de alguém, onde se perdeu, se fez bem, ou se fez mal, como morreu, onde e como foi sepultado, o que fazia e como vivia em época de crise, como enfrentou a morte, o que pensava sobre o viver o certo e se afastar do errado, as conseqüências dos erros – punição e cativeiro, escravidão como despojamento ou aprisionamento da vontade. Tudo isso eu leio e entendo, e por conta dessas coisas fico pensando que pouco sei sobre a graça. Recuso-me a entendê-la porque ela vai além de tudo isso e encontra sentido apenas no agir livre de Deus, coisa que não entendo. Sei o que é, mas não entendo.

Havia um motivo para o sofrimento de Jó? Pode ser que sim, só que nem mesmo Jó o encontrou. Seria pelo fato do ser humano ser limitado e pecador por natureza? Então Jó não seria culpado. Seria possível refletir um pouco mais e encontrar alguma coisa que pudesse justificar tal sofrimento? Isso sim, mas não o suficiente para explicar tudo o que Jó estava sofrendo. A punição fora descomunal e desproporcional. No pensamento de Jó, injusta. Jó só não perdera a vida, mas perdera o prazer de viver e viu o dia do seu nascimento como uma tragédia da natureza. Preferiria não ter nascido, mas nem isso o ser humano pode controlar. Preferiria morrer, mas não se morre por meio do desejo. Jó sabia de quatro coisas: sofria, nada poderia justificar tamanho sofrimento, Deus não castiga quem não merece e castigo de Deus não tem solução. Quando há uma causa, você a identifica, corrige e se libera do sofrimento. O castigo de Deus, em Jó, é como a dor que não está no corpo. É a dor que não tem explicação.

É aí que entra o conceito de graça no texto de Jó: é uma ação livre de Deus e não pode ser pensada a partir do que é justo ou injusto. Deus faz o que quer, do jeito que quer, para quem quer que seja, e não precisa de motivo para isso. Nem mesmo a vivência trágica do ser humano obriga Deus a tomar qualquer atitude. Deus é livre até mesmo da própria liberdade, e se aparentemente não for justo, não significa que tenha sido injusto. Justiça não é o contrário de injustiça, pois Deus está além destas coisas. Sofrimento não quer dizer punição, assim como a alegria não significa prêmio. Sofrimento e alegria não significam nada. Jó era justo e abastado, continuou justo na miséria. Seu pecado foi não compreender a graça. Graça é ação livre de Deus, e ponto final. A paz de Deus, que excede qualquer compreensão, porque é em graça, é a paz que não tem e nem precisa ser explicada.Não depende de alguma coisa, porque é imotivada. É apenas paz, portanto graça. O que vem de Deus não se explica, é graça. O que vem de Deus não se conserta, é graça. Deus não precisa explicar o que faz e como faz, e isso é graça. Não tem defeito de fabricação, já é perfeito antes de ser qualquer coisa. Já nasce certo, porque é graça.

Daí quando Jó diz que nu havia saído do ventre da mãe, se alegrado e sofrido, vivido e agora morria, tudo era uma questão apenas da graça. Deus dá e tira, sem explicação ou motivo. O que nos resta é bendizer o nome do Senhor. É uma expressão de reconhecimento da graça: vive-se e morre-se nela e por ela. Tanto a morte, como o sofrimento, não a diminuem. A vida não a aumenta. Para que seja abundante, será necessária uma nova ação em graça. Graça é apenas graça, inexplicável graça. O ser humano diante dela é nu, não tem e nunca terá nada. Vida e morte se encontram no mesmo ponto de partida: graça e apenas graça. Não há nada de errado em sofrer enquanto se vive, e viver enquanto se morre, pois tudo é graça.

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