sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

QUANDO EU TIVER SETENTA E CINCO ANOS

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(Esta crônica foi publicada em 05 de novembro de 2006 no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, quando uma pessoa muito querida estava completando 75 anos)

Ainda não cheguei lá. Também não sou garoto. Tive aulas com o pastor Soren. Não com o Francisco Fulgêncio, o pai, que seria um abuso, mas com o João Filson, o filho, que pastoreou uma única Igreja durante os mais de cinqüenta anos de ministério. Pastor Soren dava aulas de Teologia Sistemática. Aquela aula indispensável para os concílios. Os concílios são uma espécie de entrevista com um grupo de pastores que avaliam se a pessoa pode ou não ser um deles. Os quase cinqüenta alunos da classe queríamos ser um deles. Só que o pastor Soren já não dava aulas respondendo perguntas importantes de concílios. Contava as suas histórias, depositava parte da vida em quem pudesse não esquecer as suas memórias. Certa vez um dos colegas, inconformado, diante de um problema crucial, que deveria ser solucionado por quem conhecia e que provavelmente poderia mudar o rumo da nossa história e da teologia, perguntou: Afinal, o ser humano é corpo-alma-espírito, ou é só corpo-alma, sendo o espírito e a alma as mesmas coisas? Esta é a típica pergunta que só faz quem é aluno de teologia, e só vai pensar nela uma vez, quando passar pelo tal concílio. Pastor Soren respondeu: Já foi o tempo em que eu me preocupei com isso! Não é preciso dizer que saímos aborrecidos. Quem quer ser um deles, precisa saber como eles pensam, e dizer que pensa a mesma coisa, do mesmo modo. Matemática simples.

Tive que passar os meus últimos vinte e cinco anos tentando me despreocupar com algumas coisas e substituí-las por outras que realmente possam valer a pena. Hoje estou sendo motivado a pensar nos meus setenta e cinco anos. Tenho como exemplo uma pessoa, com quem tenho aprendido a fazer perguntas cujas respostas podem, de fato, fazer diferença.

Definitivamente, quando tiver setenta e cinco anos, vou querer me arrepender de muitas coisas que fiz de um modo, e que deveria ter feito de outro. Não terei medo de me reavaliar. Não gosto do discurso de quem diz: se pudesse viver outra vez, faria tudo do mesmo modo. Primeiro porque eu já vivi o bastante pra saber que isto é besteira. Depois porque só a idade nos ensina o que é a vida, e mesmo assim a gente nunca aprende. Aos setenta e cinco anos, quero me arrepender do tempo tão curto do casamento, da vida que passou rápida demais, do que ainda não deu tempo de conversar, dos inesquecíveis castelos e do depois de conto. Vou me arrepender do tempo que deixei de pescar. Do tempo que deixei de brincar com os meus filhos. Vou achar que o tempo que eles passaram comigo foi muito curto, logo se casaram, seguiram suas vidas e saíram para aprender a fazer as próprias perguntas importantes. Vou me lembrar das viagens, mas só por causa das pessoas queridas que estavam comigo. Não daquelas feitas às pressas, cheias de compromissos. Assembléias convencionais e debates que sempre voltaram para o mesmo lugar, discutiram as mesmas coisas, com os mesmos pressupostos, com as mesmas pessoas brigando, para se chegar às mesmas conclusões que não resolveram nada e nunca irão resolver qualquer coisa. Quanto tempo perdi ouvindo leituras de atas! Documentos, verdadeiros livros com gráficos, mapas de crescimento, números, extratos bancários, estatutos, muitos estatutos, perspectivas e projetos que nunca foram concluídos, nem o serão, porque o futuro sempre vem navegando e flutuando, meio à deriva, num negócio incerto chamado vida, e os relatórios passam a ser relatórios do que não foi, mas agora será. Será nada! Isto é conversa fiada.

Vou querer rir muito. Ah! Vou mesmo!Quero chegar ao culto sorrindo, desde a entrada, como aquela pessoa que conheço. Depois de uma longa viagem, ter a sensação de que estou voltando para casa. Vou dar muita risada. Não dos outros, mas de mim. Rir do tempo quando eu não sabia fazer perguntas. Da época quando desejava saber se o ser humano é corpo-alma-espírito, da época quando pensava no milênio e nos malabarismos bíblicos em busca da resposta. Vou me lembrar mais das festas, que das reuniões. Da conversa desprovida de defesa no serão depois do culto. Abraçar mais, muito mais. Vou querer ficar impaciente, contando uma história da vida para cada coisa que acontece, como se as experiências não tivessem fim. Quero tirar do armário, não os objetos que ganhei e que já não servem, seja por causa do tamanho, seja por causa da moda, seja por terem se tornado obsoletos - quero ver fotos, muitas fotos. Imagens da minha história. Gente rindo, família na praia, filhos pequenos, adolescentes, casados e já velhos. Quero ver fotos dos meus amigos, pessoas que conheci nas igrejas por onde passei; ovelhas quando eu pensava no milênio e que se tornaram amigos quando aprendi a fazer as perguntas importantes. Vou jogar fora os ternos. Jogar os velhos sermões quando as perguntas eram outras. Vou querer ser acompanhado pelos livros. Continuar lendo dois ou três ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Vou aprender a dizer “não sei”, e isto não fará qualquer diferença. Vou continuar gostando da chuva e pensarei na vida enquanto os pingos nas poças vão trazendo as histórias da infância, pelo vidro, pela janela disputada por muitas cabeças, narizes achatados no fascínio da imagem e as pequenas mãos tirando o embaço. Uma única janela na rua M 1, lá na vila Martins, que dava para uma estrada cheia de lama e pingos que pulavam. E a gente dizia: olha o pai pulando! Terá passado apenas, e tão somente, um período de setenta e cinco anos.

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