terça-feira, 29 de abril de 2008

A IGREJA DO ABRAÇO

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva

(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 27 de abril de 2008)


Nossa igreja precisa de abraço - não é algo que se diga, porque é humano demais, mas foi o que ouvi. Cheira à gente, tem cara de desejo e se confunde com a frivolidade, passagem rápida, como se não ficasse qualquer resultado. Será que alguma igreja precisa de abraço?

Foi uma frase dita por alguém que procurava analisar uma situação. Escutei, com a perna cruzada, calcanhar por sobre o joelho e mãos que se esfregavam uma à outra. Se os meus braços também estivessem cruzados, algum especialista de comportamento humano poderia afirmar que se tratava de uma posição defensiva. Não poderia ter sido assim, porque não foi uma observação grosseira, veio como um dito lento, medido, escorregado pelo pensamento, quase um pedido. Um abraço é tão pouca coisa, que não dá para acreditar que um dia tenha virado sonho.

Tive que escutar isso, e pensar que na igreja, o lugar onde reside o amor, há falta dele. Não deveria ser assim, mas acabou sendo, e não é exclusividade daquela comunidade. A religião instituída, de qualquer natureza, é estabelecida pela definição de suas doutrinas e credos, e não tem como ser diferente. Tais doutrinas e credos acabam por tomar o lugar do ser humano por meio da estrutura e dos programas. Estabelecem-se as funções, a eficácia no desempenho, as regras de execução, os objetivos definidos, a maneira pela qual as pessoas serão alcançadas, o porquê de não terem sido, ou se o foram com muita facilidade, houve erro de planejamento? Foi pouco otimista? Erros de cálculo sobre as projeções? Vamos colocar num quadro estatístico, rol de membros, atividades desenvolvidas, receitas e despesas, treinamento aqui, desse lado o que foi alcançado próximo ao que foi projetado para que seja possível visualizar a diferença, número de pessoas no ponto de partida, aqui, número de pessoas no final do projeto, ali, as variáveis, a probabilidade de erro, dois por cento para mais, ou dois por cento para menos, está assim: deveríamos estar ali, mas estamos aqui, deve ter acontecido alguma coisa errada em algum lugar. Faltou a coluna do abraço, onde deveria estar mesmo?

Não está. Não há uma coluna do abraço porque o planejamento não comporta isso. Daí você lê os propósitos de algumas comunidades e nunca vê nada além do comum. Ninguém menciona o abraço, porque é simples demais. De tão inútil, não entra nas estatísticas, não faz parte de qualquer plano e certamente nenhuma comunidade que se preze tem a coragem de colocá-lo como um dos elementos centrais de seu discurso. Uma igreja que tem por alvo se abraçar, é humana demais, quase uma heresia.

Eu gostaria de fundar “a igreja do abraço”, e acho que estaria mais próxima à comunidade sonhada por Jesus. Uma comunidade de amor e afeto na qual as pessoas seriam mais importantes que o calendário, viveriam a paixão sincera de um evangelho que não precisaria ser monitorado. Cada qual daria conta de sua própria fé, teria consciência de que necessitaria conversar consigo mesmo sobre a sua própria vida, reavaliar conceitos, motivação, desempenho e o desejo de se dedicar um pouco mais. Nessa igreja não haveria cargos ou funções, só dons e amor, cada pessoa ocuparia o seu espaço com uma alegria tal que encheria os olhos de qualquer um, diferente da institucionalização forçada, que tem poucos cargos definidos, com não sei quantas pessoas querendo ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, decidido por meio de eleições quem vai ficar com o quê, que não decide coisa nenhuma, lugar onde o abraço cedeu a vez para o chega pra lá.

Sem cargos e funções, está decretado: na igreja do abraço, só tem abraço! Ninguém sabe fazer nada e se fizer um pouco é porque Deus não enviou outro mais capacitado, que um dia virá e tomará o lugar, fará melhor e será abraçado por isso. Não é concorrente, é irmão no abraço, companheiro que veio fazer o que o outro não consegue, e vai ficar ali até que chegue outro melhor do que ele e que um dia também será abraçado. Haveria um culto solene, chamado culto do abraço, sem mensagem formal, cântico formal ou oração formal. Grupinhos constituídos aleatoriamente, sem sorteio ou rito, gente virada para trás nos bancos, estes seriam substituídos por cadeiras, que seriam deslocadas formando círculos de debates sobre a vida cristã, texto bíblico, troca de experiências e orações, muitas orações, gente abraçada orando junto. Um grupo cantando, outro rindo, outro chorando, ninguém distraído ou analisando as batidas do relógio, estudando o longo discurso programado, diretivo, exortativo, em algumas ocasiões até mecânico, lido, voz cadenciada, ritmada, mesma entonação e postura. Nada de fila indiana de bancos, colados um atrás do outro, e ficar olhando a nuca de ninguém. Nada disso. A igreja do abraço é a igreja do sorriso, tem que se ver a face, olhar o que dizem os olhos, ver as sobrancelhas erguidas e os braços longos que se abrem como gesto de aceitação.

Na igreja do abraço será proibido o tapinha nas costas. Coisa indecente é o tal do tapinha! Coisa de político! Na igreja do abraço, só há abraços, calor humano, gente se encontrando, se enroscando e conversando. Sem barreiras ou preconceitos, gente pobre com gente rica, raças misturadas, doutores e analfabetos, todos conversando sobre coisas comuns, seus medos, crises, dependência de Deus, conhecimento das Escrituras, sem receio de mencionar os seus dramas mais pessoais, e mais orações, outras orações, sem vozes empostadas ou vocabulário arcaico, orações na primeira pessoa do singular – “eu”, não na segunda do singular – “tu”, por ser irritantemente solene, e nem na primeira do plural – “nós”, por ser melancolicamente indefinida.

Parece muito, mas um abraço é apenas um abraço, não dá conta nem de ser heresia; coisa pequena demais para fazer tanta falta, se transformar em sonho e despertar tanta saudade.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A ORAÇÃO INÚTIL (?)

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva

(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 20 de abril de 2008)


Confesso que errei. Preciso me redimir.

Sempre compreendi a oração da Igreja por Pedro, quando este estivera preso, como um fiasco. Só pra lembrar: Herodes, embalado pela perseguição, tirara a vida de Tiago depois colocara Pedro na prisão, enquanto os judeus, politiqueiros e fundamentalistas, comemoravam o dia dos pães asmos. Pedro, assim, corria risco de morte. Num dado momento foi libertado de forma sobrenatural. Procurou os seus pares, apresentando-se àqueles que por ele oravam. Embora estivessem orando, ninguém acreditou que Pedro pudesse sair vivo da prisão. Se Pedro dependesse da fé deles estaria perdido. Aparentemente, um verdadeiro fiasco.

Já ensinei isso e conversei comicamente sobre o episódio. Ri de quem ora sem fé, de Pedro perdido, e mostrei que Deus conduz o seu plano apesar das nossas orações. O “apesar” deve ser lido em negrito. Só que errei, e foi por muito. Não há nada de engraçado quando se pensa na igreja escondida, amedrontada e ameaçada diante de um sujeito sem qualquer escrúpulo ou bom-senso, como Herodes. Não há nada de engraçado quando se passa uma noite na prisão, e muito menos no sofrimento pela morte injusta dos primeiros mártires. A morte de Tiago, após a de Estevão, abriria os anos de terror contra os cristãos de tal forma que matá-los seria uma espécie de diversão. Num primeiro momento a perseguição seria apenas religiosa. Imagine então quando o Império Romano desejou fazer parte da carnificina, declarando que a luta contra os cristãos era um problema de “segurança nacional”, tipo ditadura tupiniquim! Não houve guerra, mas caçada. Um safári por vilas, lugarejos, estradas e principalmente centros urbanos. A igreja orava nessas circunstâncias. Não era uma questão de acreditar na vida, mas na morte, porque esta parecia ser a mais provável. Alguém bateria à porta arrastando mulheres, crianças e pescadores. A morte viria buscá-los, e não havia meio de se evitar isso. Foi o que fez Pedro: bateu à porta. Foi o que pensou a igreja: era som, toque e chamada da morte. A morte não veio e Pedro se foi, colocou outro em seu lugar e se despediu. Não quis voltar para o terraço. A igreja não acreditou no que pediu, e Pedro, por sua vez, só se deu conta do que estava acontecendo depois de acontecido. Fé também significa insegurança, por mais contraditório que isso possa parecer. Um e outro estavam no mesmo barco.

A oração não se valida por conta da resposta, mas pela oração mesma. Essa é a parte difícil de explicar. É também aqui que está a minha interpretação equivocada. Sempre quando se fala de oração, pensa-se nos resultados. Faça isso, desse modo, e receba assim, desse jeito. Daí aparecem os manuais “aprenda a orar em 28 dias”, “como desenvolver orações poderosas”, “treze mil trocentas e quinze orações respondidas”, “como fazer Deus ouvir a sua oração”, “a oração que faz efeito”, “movendo o coração de Deus”, são verdadeiros tratados, colocados em ordem ritual de prioridade, o que fazer primeiro, o que esperar depois, o que dizer durante, como deve ser a postura enquanto se ora, você tem fé? Deus não responde a sua oração? Como não? E quem é que nunca teve uma oração não respondida? Queremos aprender a orar, obter a fórmula secreta e o caminho mais curto, eficiente e eficaz para que o coração de Deus seja alcançado.

Observada por essa perspectiva, a oração da igreja por Pedro foi um vexame. Se pensada como um momento em si mesma, era o que a igreja mais precisava. Aquelas poucas pessoas, de uma minúscula comunidade, mesmo que preocupados com Pedro, careciam uns dos outros. A oração que faziam já se constituía como abençoadora, só por ser oração. A validade não estava na resposta, mas na oração mesma. Enquanto oravam, se protegiam, buscavam socorro, colocavam seus medos, suas preocupações e a impotência diante de algo que nada poderiam fazer – um punhado de gente contra um reino. Só um milagre salvaria Pedro, coisa que não acreditavam. Só que amavam a Pedro, e isso por si só já fazia daquele momento algo singular.

Esperar milagre é o que muitos fazem, continuar orando apenas com base no amor é para poucos. É a confiança que supera a confiança. É fácil orar quando se sabe que fatalmente irá receber, que tamanho terá, a que horas acontecerá, tempo de duração e ocasião, local e aparência. Tudo já terminado antes de se começar a pedir. Orar, quando as coisas são assim, é apenas um detalhe.

Agora, quando você ora meio no vazio, de quem faz isso por amor a quem sofre, e mesmo sem ver o futuro continua orando só pelo prazer de conversar com Deus sobre a vida, o medo, a dor do sofrimento do outro, mesmo sem entender muito, isso é diferente. É mais inseguro, porque ainda não foi dado, e não se sabe se será ou como será, mas em compensação não há um automatismo como um maquinário que engole e transforma gente em máquina feito “Tempos Modernos”. A oração não é uma produção em série, não tem seqüência numérica, nem registro de propriedade. Não tem carimbo ou manual. Tem no máximo um roteiro, uma espécie de mais ou menos, uma busca, um deslocamento da pessoa para Deus, um desejo, um sentimento profundo de amar, sofrer e se render. Quando se ora, a resposta já aconteceu, independente do resultado. Veio em forma de dependência, submissão e humildade. Já se fez presente como amor, embrulhado e pronto para ser degustado. Não tem botão para ser apertado, mas tem memória, recordação e esperança. Isso tem, e tem mesmo. Tem também um sentido de ausência, um sair do mundo, desligar-se, ocupar-se com Deus, somente com Ele e conversar sem pressa como quem tem muitas histórias e não suporta a ânsia de contá-las, mesmo quando já se sabe não serem novas para quem as escuta. São pretextos para uma conversa que se arrasta para a rua. Está no coração do motorista enquanto dirige, ou do pedreiro enquanto coloca a telha, do músico enquanto afina o instrumento ou da criança enquanto aprende. Está na paixão da dona de casa e mãe, enquanto trabalha e pensa nos filhos. Não há a necessidade de se aguardar uma resposta. A espera é mais saborosa que o acontecimento, e o problema mais interessante que a solução. Mostra que a gente não sabe nada. Depois fica fácil. Até parece que a gente já sabia, mas é necessário sentir-se perdido, para ser encontrado, e esperar a morte bater à porta para se saber o que é a vida.

Não acredito que a oração daquela comunidade tenha sido inútil, e não acho que uma pessoa deva deixar de orar só porque tem dúvidas sobre a sua própria fé. Oração é um modo de vida e se constitui, por si mesma, na própria resposta.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

APENAS GRAÇA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 13 de abril de 2008)

Estava disposto a escrever sobre Sêneca, contemporâneo de Jesus: viver é tanto aprender a viver, quanto aprender a morrer. A vida é um aprendizado para a vida, mas é também um aprendizado para a morte. Daí voltei a Jó e encontrei uma contradição semelhante: viver em graça é aprender a sorrir e sofrer, viver e morrer.

Eu sei que há toda uma discussão sobre a datação do livro de Jó. Qualquer pessoa que tenha acesso a livros e críticas, ou mesmo uma conexão de internet, mesmo que discada, vai encontrar trocentos escritos sobre isso. A questão aqui não é a de você ficar desconfiado do texto, mas compreender que talvez o livro de Jó seja mais recente do que se pensava anteriormente e o debate sobre a graça, tema tardio e que já está presente nos profetas, seria o seu assunto principal. Enquanto a perspectiva da graça aparece como um dentre tantos temas na teologia profética, o livro de Jó parece ser todo voltado ao tema, mediante uma rara beleza poética. Tem mais: o profetismo é unilateral, do profeta para o povo. A graça em Jó tem um caráter interpessoal. Trata-se de uma conversa de gente comum sobre Deus e a miséria humana. Pessoas que se amam e se cuidam, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento humano. Seria possível um sofrimento sem causa?

Já passamos por Sêneca e chegamos a Jó. Antes que você pule de parágrafo e comece pelo avesso, preciso dar-lhe a pista de como é que se junta vida e morte, sofrimento e salvação, sob o domínio da graça. Isso parece um absurdo, eu sei. Quando você ouve falar sobre a graça, já sabe que virá algo nobre. Uma palavra próxima seria perdão. Pensou em graça, pensou em perdão, paz e descanso. Uma graça que aniquila a pessoa e que traz sofrimento, lágrimas, dor, perda de filhos, perda de tudo, definitivamente não pode ser graça. Eu sei que você pensa assim. Não se culpe, por favor. Também tenho dificuldade emocional de aceitar isso. Aprendi que tudo o que a gente faz, recebe de volta, seja bom, seja ruim. Daí a idéia de que nada acontece por acaso.

Não quero dizer que isso também não seja bíblico. Abro o texto e o que vou mais encontrar nele é a reflexão sobre os descaminhos de alguém, onde se perdeu, se fez bem, ou se fez mal, como morreu, onde e como foi sepultado, o que fazia e como vivia em época de crise, como enfrentou a morte, o que pensava sobre o viver o certo e se afastar do errado, as conseqüências dos erros – punição e cativeiro, escravidão como despojamento ou aprisionamento da vontade. Tudo isso eu leio e entendo, e por conta dessas coisas fico pensando que pouco sei sobre a graça. Recuso-me a entendê-la porque ela vai além de tudo isso e encontra sentido apenas no agir livre de Deus, coisa que não entendo. Sei o que é, mas não entendo.

Havia um motivo para o sofrimento de Jó? Pode ser que sim, só que nem mesmo Jó o encontrou. Seria pelo fato do ser humano ser limitado e pecador por natureza? Então Jó não seria culpado. Seria possível refletir um pouco mais e encontrar alguma coisa que pudesse justificar tal sofrimento? Isso sim, mas não o suficiente para explicar tudo o que Jó estava sofrendo. A punição fora descomunal e desproporcional. No pensamento de Jó, injusta. Jó só não perdera a vida, mas perdera o prazer de viver e viu o dia do seu nascimento como uma tragédia da natureza. Preferiria não ter nascido, mas nem isso o ser humano pode controlar. Preferiria morrer, mas não se morre por meio do desejo. Jó sabia de quatro coisas: sofria, nada poderia justificar tamanho sofrimento, Deus não castiga quem não merece e castigo de Deus não tem solução. Quando há uma causa, você a identifica, corrige e se libera do sofrimento. O castigo de Deus, em Jó, é como a dor que não está no corpo. É a dor que não tem explicação.

É aí que entra o conceito de graça no texto de Jó: é uma ação livre de Deus e não pode ser pensada a partir do que é justo ou injusto. Deus faz o que quer, do jeito que quer, para quem quer que seja, e não precisa de motivo para isso. Nem mesmo a vivência trágica do ser humano obriga Deus a tomar qualquer atitude. Deus é livre até mesmo da própria liberdade, e se aparentemente não for justo, não significa que tenha sido injusto. Justiça não é o contrário de injustiça, pois Deus está além destas coisas. Sofrimento não quer dizer punição, assim como a alegria não significa prêmio. Sofrimento e alegria não significam nada. Jó era justo e abastado, continuou justo na miséria. Seu pecado foi não compreender a graça. Graça é ação livre de Deus, e ponto final. A paz de Deus, que excede qualquer compreensão, porque é em graça, é a paz que não tem e nem precisa ser explicada.Não depende de alguma coisa, porque é imotivada. É apenas paz, portanto graça. O que vem de Deus não se explica, é graça. O que vem de Deus não se conserta, é graça. Deus não precisa explicar o que faz e como faz, e isso é graça. Não tem defeito de fabricação, já é perfeito antes de ser qualquer coisa. Já nasce certo, porque é graça.

Daí quando Jó diz que nu havia saído do ventre da mãe, se alegrado e sofrido, vivido e agora morria, tudo era uma questão apenas da graça. Deus dá e tira, sem explicação ou motivo. O que nos resta é bendizer o nome do Senhor. É uma expressão de reconhecimento da graça: vive-se e morre-se nela e por ela. Tanto a morte, como o sofrimento, não a diminuem. A vida não a aumenta. Para que seja abundante, será necessária uma nova ação em graça. Graça é apenas graça, inexplicável graça. O ser humano diante dela é nu, não tem e nunca terá nada. Vida e morte se encontram no mesmo ponto de partida: graça e apenas graça. Não há nada de errado em sofrer enquanto se vive, e viver enquanto se morre, pois tudo é graça.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

VAMOS FAZER FILHOS!

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 12 de agosto de 2007, por ocasião do dia dos pais)

Não adianta os jovens e adolescentes ficarem entusiasmados. A conversa não é com vocês, sinto muito. Nem com os solteiros e separados. Daí um morador do meu condomínio disse: tô perdido – minha mulher inventou de ficar grávida! Claro que é uma conversa machista, de quem pensa que mulher se engravida por conta própria. Apesar do mau humor – dele é claro, pois eu estava numa manhã de bem com a vida – dei os parabéns. Com um sorriso amarelo, ele disse que o outro filho já estava com onze anos. De fato, recomeçar tudo de novo, com direito a cólicas, fraldas, papinhas e perder a mulher por um tempo ocupada exclusivamente com a cria, desestimula qualquer um que vive no tempo da ditadura do conforto. Nada que dê trabalho. Você pensa quinze vezes antes de dispensar um funcionário, se preocupa com a família dele, e se surpreende com a felicidade daquele que vai ficar em casa sem fazer nada sem se sentir culpado. Justifica que o motivo é de força maior, e vamos ver a sessão da tarde em plena segunda-feira. A gente só aceita a quebra de ritmo, se for pra menos. Quebra de ritmo pra mais, não é quebra de ritmo, é o vislumbre de agonia.

Deixe o meu vizinho com o machismo dele, que eu vou aqui defendendo o meu cantinho, num estímulo contrário ao discurso de todo mundo: vamos fazer filhos, minha gente! Se você pensa que estou sendo bonzinho, pode tirar o cavalo da chuva. Estou sendo bastante egoísta, porque estou pensando que, sem filhos, não se comemora o dia dos pais (nem das mães). Antes o dia dos pais (e o das mães) era uma festa só. Teve uma vez em casa que resolvemos dar um caminhão de presentes para a minha mãe. Deixe-me explicar que caminhão aqui é apenas uma metáfora, um dizer de excesso, um montão. Pois é, todos pobres, pouca alimentação e pouquíssimo, ou como diria o Chaves, poucossissíssimo dinheiro. Enchemos a mesa com tudo aquilo que mais tarde abasteceria o mercado de um e noventa e nove. Naquele tempo tais lojas não existiam. Colocamos tudo em cima da mesa da cozinha para que ela se assustasse com o nosso carinho pela manhã. Não sei se ela chegou a se levantar de madrugada e antecipadamente soube da surpresa. Se foi assim, fez muito bem o papel de quem ganha alguma coisa e não desanima quem deu – ficou pasma! Ponto pra nós. Depois foi a vez da macarronada, Tubaína e guaraná Santana. Uma festa só: sete filhos em volta de uma mesa comemorando o dia de quem nos dera a vida.

Que pena! A mesma vida, impulsionada por toda a tragédia que tem rondado o mundo e seu crescimento demográfico, está ameaçada de extinção ou de diminuição. Ainda tem o avanço da medicina que tem sido extremamente importante para cuidar dos que têm dó de morrer, acrescentou mais dias aos que já têm vida. Estes não querem ceder espaço e tempo para os que sequer podem expressar os seus desejos. Não se deve dividir nada com um outro, especialmente se a gente tem a opção de não permitir que nasça. Vivíamos numa miséria em casa, dava até dó. Sou o quinto filho e nos tempos atuais não teria a menor chance. Passei fome, mas gostei de ter nascido.

Você vai achar que estou exagerando. Sou pastor, tenho autorização para ser exagerado; faz parte da minha natureza. Talvez você seja um daqueles que acredita que a vida tem que rodar com menos sofrimento, com menos fome no mundo, com mais emprego já que o crescimento demográfico é uma tragédia para a economia. Tá certo: dou a mão à palmatória. Só que o dia dos pais, no plural e na multiplicação, está ficando mais curto, no singular e na subtração. Está ficando triste. A igreja está ficando triste. Sumiram as crianças barulhentas que traziam carrinhos à pilha ao culto, com direito à sirene de polícia e de ambulância. Onde estão as crianças andando pelos corredores da igreja? Aquela sala cheia de cabecinhas, trancinhas, chiquinhas e cabelos cortados no modo americano? Sala cheirando a suor pela correria que marcava o início da escola dominical. Berçários lotados que mais pareciam a produção da Ford: era um atrás do outro. Salas decoradas, brinquedos pelo chão, chupetas encontradas pelo caminho, e muito choro, aquele barulho que ainda cheira à vida, na liberação da angústia do existir, ecoando e penetrando como se fosse toque prolongado e agudo de uma corneta que fazia gemer as cartilagens dos adultos. Não tinha quem não se incomodasse. Hoje já não incomodam mais. Conseguimos impor o cheiro do nosso mofo ao perfume das fraldas, o nosso silêncio sepulcral aos gritos rápidos de alegria de quem corre sabendo que vai sendo perseguida pelo pai que, num dado momento, a fará voar para três, talvez quatro vezes mais a sua própria altura. É o vôo da liberdade, e da segurança. É impossível não mostrar a banguela e o dente solitário.

A vida está ficando chata, porque ser adulto é ser chato. A gente não voa, não caminha pelos corredores, nem sai correndo para o início das aulas. Não tem cheiro de suor - aaaggghhh, que coisa nojenta! Só que é a gente que decide que quem não nasceu, não vai nascer. E ficamos mais tempo do que deveríamos, ocupando um lugar que já não é mais nosso. Mas quem em sã consciência é capaz de concordar com isso? Viemos no bico da cegonha, mas não queremos chegar ao bico do corvo. Nem tudo o que tem bico, penas e voa, faz parte dos nossos sonhos. Esticar a vida e o conforto também é lutar pela sobrevivência. Ficamos espertos nisso.

Minha campanha é legítima: vamos fazer filhos! Distribuir vida, apesar de não ser nossa. Produzir esperança e recriar um paraíso, senão o bíblico, pelo menos um tipo para o qual não falte jardineiro. Quero que no futuro o dia dos pais não seja extinto por falta de candidato.

terça-feira, 8 de abril de 2008

NINGUÉM É GENTE

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(crônica publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 06 de abril de 2008)

Voltei à escola pública. Encontrei um ex-aluno e amigo numa unidade da periferia, olhou-me desconfiado, desejando saber o que eu fazia por lá num dia de semana à noite. Deu um sorriso meio de canto: Esse não é o seu lugar! Sua voz saiu numa afirmação decrescente, como se desejasse sussurrar a palavra “lugar”. Certamente dava à decepção um tom dramático. Não observei na fala qualquer reprovação. Tinha uma cadência mais para triste. Talvez pensasse que eu seria mais útil ministrando aulas de Teologia, quem sabe Novo Testamento, Filosofia da Religião, Teologia Contemporânea, História da Teologia, Teologias do Antigo e Novo Testamento, mais Antigo que Novo, uma das minhas paixões, crítica literária, crítica da forma, história das tradições, ou até mesmo Hermenêutica, na nova leitura pelos caminhos da metáfora e imaginário simbólico presentes na literatura do mundo antigo.

A conversa foi no início do início, antes da minha reestréia na escola pública. Quando da minha despedida, no começo dos anos 90 do século passado (para parecer mais distante), pensei que jamais voltaria. Ouvi atentamente a palavra amiga, como um elogio. Talvez não fosse. Também sorri. Não disse nada, e entrei pelo caminho de uma conversa sem importância. Não mencionei a minha paixão pela escola pública. Lugar da liberdade e do livre pensar, coisa rara, daí a razão pela qual os relacionamentos lá são tão complicados. Ainda não sabia qual seria a minha reação com o retorno depois de tantos anos. Também estava curioso, até um pouco inseguro. Iria encontrar um novo adolescente, muito diferente daquele no perdido início dos anos noventa, que a essa altura, possivelmente, muitos já seriam avós.

Voltei para casa depois da primeira re-experiência, como um ex-recruta. Fui recebido com um certo tom de humor: E daí, como foi? Havia sido muito bom. A minha disciplina, num projeto de inclusão, é ética e cidadania, que nada mais é do que conversar sobre os valores da vida. Naquele dia havia contado ao alunos a minha história. Falei-lhes do rito de passagem que havia em casa para os meninos, quando estes completassem doze anos: ganhar do pai uma caixa de engraxate, feita de madeira aproveitada de caixa de laranja, equipada com uma pasta Nugget preta, outra marrom e outra incolor, escovas para cada uma delas e trapos de roupas velhas. A caixa tinha uma “portinha” com dobradiça de couro, já que uma outra seria muito cara, e uma lingüeta como tranca. Falei-lhes dos dois ou três quilômetros de caminhada, descalço, até a praça central, pelo calçadão da Paulista, a batida da escova na lateral da caixa para o “cliente” colocar o outro pé, a escova desgastando o excesso para o brilho, com maestria, como se fosse uma batuta. Finalmente o toque do pano sobre o calçado, ora suave, ora agressivo, como uma sinfonia. Os alunos escutavam. Formavam um círculo ao meu redor, ninguém escrevia nada, os cadernos fechados, os livros também, os olhos abertos perguntando se tudo era mesmo verdade. O que significa ser doutor, professor?- e lá vieram mais histórias sobre a memória da vida, os cadernos feitos com papel de pão e o sorvete de garapa dos inimagináveis anos 60.

Senti-me como se tivesse redescoberto algo que jamais deveria ter esquecido. Adolescentes pobres, que olharam o meu velho computador, e bota velho nisso! – Da hora seu computador professor! Acessa a internet? Depois soube dos pais separados, das meninas que já têm filhos, dos que tiveram passagem pela polícia, dos que não conseguem parar de falar, do lugar onde moram, ruas sem nada e de mulheres que roubaram os maridos de outras e vivem quase no mesmo endereço, do mesmo lado da calçada. Padrastos, madrastas, namorados da mãe, namoradas do pai, os outros filhos do meu pai, os outros filhos da minha mãe, ou do pai do meu irmão, do meu segundo irmão porque o primeiro tem ainda um outro pai, do irmão preso, do tio traficante, a espera do primeiro período de aulas para comer um bolinho inglês seco (e tinha que ser tipo europeu). Come-se um e outros trinta vão escondidos em bolsa, bolso, debaixo da camiseta rasgada, mas não faltava o boné, nem a bolsa cor-de-rosa de um sintético barato. Havia ali médicos e médicas, fisioterapeutas, advogados e até estilistas, profissionais que dificilmente irão além do segundo grau, uns acabarão nas ruas, outros verão os sonhos declinando como um sol que se cansou do dia.

A vida é isso, bruta, real e doída. Ela se desenrolava enquanto eu havia estado em reclusão tentando compreender a cultura do mundo antigo e a filosofia existencial. Numa das noites, olhei pela janela e perguntei: Que estrada é aquela que passa lá embaixo? Um aluno respondeu sem olhar: É a Band, professor. Voltei a perguntar: E os bairros? Aí todos responderam como se fosse um coro: é o DIC, o Ouro Verde, aqui mais pra direita. Pensei: Como será o DIC? A minha missão é de ser uma voz às nações, e eu não sei nem o que significa “DIC”; não me lembro de ter passado por lá. A sombra da noite, e o pó do vidro sobrepunham o meu rosto às luzes, de tal forma que eu não sabia se estava olhando para fora ou para dentro.

Belchior diz que ninguém é gente. Não quer dizer que não haja pessoas no mundo, mas exatamente o contrário: os esquecidos, aqueles que para nós não passam de ninguém, são na verdade gente anônima considerada nada. Éramos povo, e agora somos massa, disse Camus. A massa esconde os ninguéns que deixam de ser pessoas e passam a ser estatística de desempregados, analfabetos e excluídos dos processos sociais. Os discípulos de Jesus, que formaram a primeira igreja cristã que se tem notícia, achavam no início que só eles eram gente (Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?). Depois Pedro achou que Cornélio era ninguém. João Batista descobriu-se apenas como uma voz, e Paulo entendeu que o ninguém era ele mesmo. É preciso ser ninguém para se tornar gente. Não sei o que é ser pastor, para quem não foi engraxate, nem andou descalço. Foi bom ter voltado. Não sei dizer se eu era professor ou aluno.