terça-feira, 17 de junho de 2008

UMA PALAVRA DE AGRADECIMENTO

Com o texto seguinte, encerro a minha participação no blog da nossa igreja, Batista em Barão Geraldo. Quero agradecer o tempo que você gastou lendo, quem sabe rindo, meditando ou até mesmo sofrendo, discordando ou criticando. Você se tornou um amigo virtual, de certo modo anônimo, mas mesmo no anonimato próprio da era digital, um incentivador. Não foram textos pensandos em profundade. Apenas textos, nada mais, nada menos. Ao lê-los, foram transformados e recriados pela sua interpretação pessoal, movida pela imaginação e memória de um um mundo que é só seu. É essa dinâmica que me fascina na literatura.

Grato, e no Amor de Jesus,

Natanael Gabriel da Silva

O QUE E COM QUEM APRENDEMOS

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 08 de junho de 2008)

Acho que Z., naquela tarde, estava drogado. Sou péssimo em conhecer essas coisas. Z. tem 17 anos e veio do Piauí, Teresina. Ficou eufórico quando mencionei a beleza daquela cidade, do trajeto de carro pelo interior do Estado, mais pelo sul, passando por Brasília e seguindo, não por Palmas, mas à direita, direto e olhando para ver o palácio onde está assentado o poder, hotéis caros, cheio de gente que se encontra acima da ética, basta ter amigos. E haja amigos!

Os amigos do poder também ficam do lado direito, são portanto reacionários por vocação e geografia. Depois você segue em frente, e logo se depara com os buracos bem na saída do quintal do poder, e se não fosse a sua consciência do lugar, afirmaria com toda a certeza de que o sítio estaria abandonado. Estrada ruim, muito ruim. Daí você segue para Correntes e finalmente, um posto marca a entrada ao sertão do Piauí, e dependendo da época terá a oportunidade de ver os leitos dos rios em tempo de seca. Impagável. Z. disse pra mim: Foi por lá? E respondi: Sim, e nem carro era, Pálio 97 mil. Daí ele disse o nome da estrada, que até então eu não sabia. Você também não vai saber o que isso significa, só passando por lá, mas como nunca mais devo escrever sobre isso, não posso deixar de compartilhar contigo o trecho de estrada mais famoso daquelas paradas, ainda na Bahia, entrando pelo sul do Piauí, cerca de 60 quilômetros com a demora de quatro horas para travessia. Z. afirmou de novo: Foi por lá? Pela vaquejada?

Com ou sem vaquejada, o certo era que Z., agora com nome e lugar de nascimento definido, fazia o povo rir e parecia meio fora de lugar. O assunto era Relacionamento Interpessoal. Daí ficou pior. Uma pessoa nas condições normais de temperatura e pressão já não saberia dizer o que isso significa, imagine Z.! Ele entregou um pequeno texto de exercício, como pouquíssimas palavras, e muitos erros: lavá loças, entre eles. Não dá pra explicar a diferença entre lavá loças e Relacionamento Interpessoal. Lá pelas tantas disse: Professor, um dia joguei uma cadeira na professora e fui expulso da escola. Também, ela jogou um giz em mim! Que é isso mano?! Sou homem! A aula rodou, esquecendo a vaquejada, o interior do Piauí e a cadeirada na professora. Piauí voltou no final, não sei se movido por uma lembrança que nunca lhe sai da cabeça, Z. me perguntou se eu sabia o que era palmatória. Disse que sim. Olhou para mim – Aprendi isso no Piauí. A professora o fazia esticar a mão aberta para receber a punição. Tinha então quatro anos de idade.

Olhei para ele e fiquei pensando numa mão gordinha, cheia de dobras, com a palma para cima. As palmas das mãos viradas para cima, no comportamento humano, são símbolo de quem se humilha em busca de piedade. Descobri que eu precisava aprender a lavá loças, e esquecer um pouco o Relacionamento Interpessoal.

Não sou fatalista em achar que tudo na vida de Z. depende de sua mão gordinha aos quatro anos sendo castigada por um imbatível gigante com várias vezes o seu tamanho. Também não sou ingênuo a ponto de achar que aquilo não significou nada. Uma lembrança dos quatro anos só pode ser a de alguma coisa muito importante. Z. não aprendeu a escrever com a professora, mas a vida lhe ensinou que ninguém, nunca mais, bateria em sua mão: é preferível jogar cadeiras, e o sabor disso não tem preço.

A professora achou que estava ensinando uma coisa, e era outra.Acho que nunca se deu conta disso e, se ainda estiver na ativa, na sala dos professores comenta que filho nenhum, de ninguém me faz de tonta, o negócio comigo é assim...

Z. me fez sentir medo da minha própria ignorância. Uma das regras básicas do Relacionamento Interpessoal é que somente uma outra pessoa pode ser para mim um espelho e dizer quem de fato sou. É simples. Quando você quer saber se o cabelo está bom, a barba bem feita e o que fazer para esconder as rugas ou a careca, a primeira coisa é olhar-se num espelho. Agora, quando você deseja saber da própria alma, sentimentos, e medir o tamanho do amor, da paciência, e se conhecer um pouco mais, não basta olhar para aquele tipo de espelho. Você precisa de um outro. Precisa olhar para uma outra pessoa. Daí você compara o comportamento do outro, com o seu comportamento e faz uma análise. É o escape. Você procura uma pessoa amiga, e se deixa invadir na vida pessoal. A pessoa entra no seu mundo, só pela conversa, e você, que estava com medo de entrar sozinho em si mesmo, pega na mão dela e vai atrás. O outro funciona como se fosse um guia, com facão na mão abrindo picada e uma lanterna, porque o interior da gente é sempre escuro. O outro vai iluminando o caminho e dando nome aos seus sentimentos. Parece que tudo fica mais claro. Pessoas precisam de pessoas. Só uma outra pessoa pode ser espelho para alguém, e o pior é que sempre será, de um modo ou de outro, à convite ou por agressão. Fiquei com medo de fazer parte do segundo grupo.

Uma criança, aos quatro anos pode aprender a escrever lavá loças, mas também pode conhecer o mundo da violência, e isso dentro do lugar dos sonhos chamado escola. Só que não é só a escola a vilã. Pode ser a família, e quem sabe a igreja, que passará a vida toda tentando ensinar amor para quem fixou a palmatória como a comunicação mais cruel e desumana. Sob o clima da responsabilidade, seriedade e compromisso profissional, ficam disfarçadas as agressividades de quem faz uma coisa, quando o resultado é outro, no medo que, quando e se sumir, manda buscar outro lá no Piauí, como diria Belchior.

O apóstolo Paulo, conversando sobre o que se ensina e com quem se aprende, diz: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. É isso aí. Ensinar (quase) qualquer um ensina, agora só quem é pessoa vai além dos livros, fora do texto e dentro da vida. Isso é válido para pais, professores e religiosos. Talvez a tarefa mais difícil do ser humano não seja a de passar conteúdos intrincados, cheios de fórmulas que logo serão esquecidas, memorização de doutrinas e ritos confessionais a serem repetidos, como se o verdadeiro amor estivesse ali. É preciso um pouco mais. Livros, você os encontra nas prateleiras, mas só o amor vem do coração. Acho que o lavá loças está correto. Mais próximo da vida de Z. que o meu Relacionamento Interpessoal. Z. caso seja possível um dia, perdoe a minha colega, ela não sabia o que estava fazendo.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A FUNDADORA DA IGREJA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado por ocasião do trigésimo aniversário de organização da Igreja Batista em Barão Geraldo, 31 de maio de 01 de junho de 2008)

Hoje quero defender uma tese diferente de tudo o que você já ouviu, leu e viu sobre o surgimento da igreja. Num dia desses participei de um concílio - aquela entrevista entre pastores para saber se um outro pensa igual e pode ser um deles - e uma das perguntas foi sobre o quando da igreja ter sido constituída. A resposta, por convicção ou prudência, foi a de que a igreja, como nós a conhecemos, se fez no dia do pentecostes. Foi claro. Teria sido naquela ocasião que as dimensões fundamentais da comunidade convergiram sinteticamente num único momento: manifestação histórica e definitiva do Espírito Santo, sacrifício vicário de Jesus dado como ato completo, cumprimento de uma profecia, pregação, conversões, universalização do conteúdo de fé a todas as nações, e por aí se vai. Tem gente que afirma, de pé junto, que a comunidade apostólica, muito antes disso, já se constituía como igreja, uma vez que a pessoalidade de Jesus não poderia ser considerada menor que a do Espírito Santo.

Ao mencionar o pentecostes, o examinador deu um sorriso meio de canto: eles estavam acreditando do mesmo modo.

Eu vou deixar esse pessoal discutindo. Nunca foi possível a comprovação de uma coisa ou outra e quero fundar uma nova teoria: a igreja nasceu com a viúva pobre. Já fundei a igreja do abraço, agora vou encontrar um outro lugar para apontar o surgimento da igreja. Nada de apóstolos, profetas e homens. Nada disso. A igreja sendo fundada por uma mulher, e ainda mais viúva. Fora do círculo apostólico, para alguns suspeitos de defender o próprio cantinho. Também sem sobrenaturalismos e das longas discussões sobre dons espirituais, se há ou não um fenômeno do falar em línguas, estrangeiras ou estranhas, nada daquele debate da preocupação com o texto literal cuja interpretação de todo um credo depende de um advérbio “línguas como que de fogo”, e daí ficar discutindo se era “como” mesmo ou se há uma indicação de um fogo simbólico que tem que tomar conta da igreja que “pega fogo” ou o seu contrário, “que povo frio!”, emprestado do Apocalipse. Nada disso, e ficar contando quantas nações havia por ali, se a igreja de Roma nasceu mesmo daquele grupo ou não, se Pedro dizia uma palavra e depois a repetia em cada idioma, até completar o número das tantas etnias mencionadas, ou se Pedro pregou um sermão só e o Espírito Santo é que o interpretou de acordo com o lugar de nascimento de cada um, se o dom estava em Pedro, ou fora dele, nada de ficar especulando essas coisas para reafirmar essa doutrina ou aquela como prova de que, no nascimento da igreja, aconteceram coisas que terão que se repetir pelos séculos dos séculos. Gente negando uma coisa, afirmando outra, ênfase no discurso de Pedro e no sobrenaturalismo ali manifestado. Quero esquecer essa discussão que busca esse tipo de fundamento da igreja, que tem que começar com um problema teológico, sem resposta, para fazer do intérprete que arrisca uma opinião parecer mais sabido do que de fato é. Vamos esquecer esse negócio.

Enquanto você fica pensando no pentecostes e tenta encontrar num dicionário bíblico o que aquele dia significava, e ler o texto outra vez para saber quem está com a razão, quero convidá-lo a pensar na viúva, e já vou afirmando que ela entregou as moedinhas com ou sem Espírito Santo, com ou sem sacrifício completo de Jesus, com ou sem sermão, com ou sem conversões, se tinha gente olhando ou não, se era ou não a sua obrigação, se fez ou não para ser observada por outros, se desejava ou não receber tudo de volta em forma de qualquer benefício, se tinha nome ou não, se desejava receber galardão ou não, se sabia o que era galardão pra começar, se isso iria fazê-la estar mais próxima de Deus ou não, se era o dízimo ou não, se agradeceu a Deus pelo privilégio de ofertar ou não, se teve medo do dia seguinte, se ia faltar pão, ou não, se tinha gente que seria batizada por conta daquele testemunho ou não, se os outros estavam fazendo o mesmo ou não, se o valor era justo para todo o mundo ou não, se a comunidade religiosa para a qual contribuía estava certa ou não, se a doutrina estava sendo focada era correta ou não, se o sacerdote iria roubar as suas moedas ou não, se havia pré-milenismo ou não - quem escreveu Hebreus?

Caso você seja rigoroso com texto, é possível afirmar que a viúva sequer teve uma experiência de profundidade com Deus, não levantou a mão como sinal de conversão, não disse palavras-chaves, aliás não disse nada. Talvez nem soubesse da existência de Jesus. Com certeza não foi batizada, não teve expulsão de demônio, nem cura, ninguém sendo carregado em maca, cego vendo ou aleijado andando. Não teve nada disso. Não se sabe se viveu o suficiente para ver o crescimento da igreja, ou se acabou se tornando de fato uma cristã, com profissão de fé e tudo o que tem direito. Não teve texto, sequer a gente pode saber se era ou não alfabetizada - parece que não - se tinha ou não algum amparo. Afinal, o que fizera para conseguir as duas moedinhas? Que diferença as duas moedinhas fariam para o Reino de Deus? Sem intenção, declaração formal, expectativas, doutrina ou cobranças. Nada. Sem milênio, circuncisão ou predestinação. Nada. Apenas uma coisa, e tem que ter alguma coisa: as ofertas eram depositadas na arca do tesouro, e o nome já diz que não era lugar para o que sobra, conhecido mais como rejeito ou lixo. Na casa do tesouro funciona assim: ou é tudo, ou nada. Ou é tesouro, ou não serve. Se vai depositar alguma coisa, que seja algo muito, mas muito importante.

E daí? O que acha da minha teoria? Não precisa responder. Eu sei que você vai continuar com o seu discurso tentando reafirmar que a igreja teria que ter começado com algo meio confuso, meio escondido e muito misterioso. Afinal de contas uma viúva, é apenas uma viúva, não forma uma comunidade. Só Lucas se importou com ela. Não o culpo. Já acreditei nisso. Hoje prefiro entender a igreja como tendo surgido a partir dos excluídos, de quem não tem esperança, interesse ou qualquer tentativa meio escondida de trocar uma coisa por outra, um benefício por outro, uma entrega qualquer por algo melhor, a sobra pelo tesouro, mesmo que este receba o nome de eternidade.

Bem, talvez essa minha teoria não sobreviva ao amanhecer, e seja apenas um sonho, em forma de recordação: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade (Jeremias 2:2,3 parciais). Sabe de uma coisa? Tenho muita saudade disso! É bom saber que um dia, uma mulher, viúva e anônima, desafiou todo um sistema religioso, e se fez exemplo de pureza e entrega.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

PAULO, O VELHO - ASSIM NASCE UM PASTOR

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(ao meu amigo, hoje colega, Jeferson Rodolfo Cristianini, quando da sua ordenação ao Ministério Pastoral, publicado no boletim de ordenação, Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 e 25 de maio de 2008)


A interpretação da vida, pelo caminho da memória é coisa de doido. Paul Ricoeur diz que o esquecimento, possivelmente, ofereceria elementos mais importantes para a compreensão da vida que a memória. Esta é seletiva, muitas vezes triunfalista, contaminada com as emoções e quase sempre quando dela se faz uso, não se sabe direito se o imaginário não está invertendo os acontecimentos, coisas que pareciam ter sido ditas depois, poderiam ser anteriores, detalhes que se perderam, julgamentos, palavras ditas, tudo misturado com vida, dor, alegria e expectativas criam uma indagação crônica sobre a serviço de quem recordamos e revivemos o que talvez jamais tenha acontecido. Pelos sonhos da memória resgatamos o que jamais fomos, mas nos tornamos como sendo, porque a memória é a interpretação do presente. Você pensa que está se lembrando do passado, mas foi o presente que o fez pensar e recuperar coisas que estavam escondidas, quietas, sufocadas e perdidas. Daí você jamais saberá a diferença entre uma coisa e outra. É como se você tentasse comparar fotografias da vida, o momento paralisado pelo tempo. Nelas é possível observar os detalhes, lançar um olhar curioso em busca dos sete erros, como se fosse brincadeira em quadrinhos, e daí fazer um diagnóstico modesto: foi assim..., ou um talvez tenha sido assim... – duvidoso, porém humano.

É essa a minha leitura dos últimos escritos de Paulo, um humano, demasiadamente humano. Tomado pelo esquecimento dos grandes tratados de teologia, do primeiro período, o que restou foi o vivido, não o conceituado. É como se tivesse havido dois Paulos, um antes e um depois, um jovem e um velho. Dois Paulos, até parece coisa de academia, que fica dividindo gente como se fosse queijo. É um tal de jovem Heidegger, e segundo Heidegger, primeiro, segundo e (talvez) terceiro Rahner. Você não conhece nem bem um, quanto mais três do mesmo que virou outro.

Paulo, o jovem! Já leu a intrincada Carta aos Romanos, e seu discurso da possibilidade teológica de inclusão dos gentios? Texto complicado, não é? Já leu a Carta aos Gálatas e o combate declarado ao judaísmo? Lembra-se de Paulo confrontando Pedro, lá no capítulo dois? E as cartas Aos Coríntios? Na primeira, inconformado com a imoralidade, recomenda que se entregue uma pessoa a Satanás! Uau! Pois é, esse foi o Paulo do começo, o que atropela, forte, destemido, corajoso, em alguns momentos até impiedoso. Não sei se estas se tornaram memórias tristes, já que nunca mais voltou a mencioná-las. Já pensou se Paulo mantivesseaquele discurso do “eu não mudo?” Depois a gente precisa esquecer, e tem que ser de propósito. Não estou falando de perdão, mas é quase. Vez por outra, você precisa formatar a memória, salvar o necessário num canto, compactado, e apagar tudo como se fizesse uma retífica. A cabeça da gente fica lenta com tantos arquivos temporários. Daí você pode olhar o próprio passado como se tivesse sido uma outra pessoa. E era. Pode rir, sentir pena ou vergonha de si mesmo. Isso faz parte.

O jovem Paulo morreu na prisão. Morreu antes da morte, morreu no esquecimento, sepultado pela memória, que matou outras memórias, um esquecer a impiedade praticada em nome da justiça(?), ou um amor defendido por meio da impaciência (que alguns chamam de sinceridade) (?), ou ainda de uma liberdade de expressão sob o domínio de um único controle(?), o inventário de sofrimento, que depois perdeu a importância porque muita gente passou a sofrer também. Memórias que já não serviam mais.

Leia Paulo, o velho, aquele que passou pelas prisões. Leia com atenção porque senão você vai ficar como alguns que não acreditam ter sido a mesma pessoa. Veja o nada façais por contenda ou vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo de Aos Filipenses. Dá pra imaginar que Paulo, o velho, poderia mandar alguém para ser entregue a Satanás? Se desejar, leia toda a carta, leia o regozijai-vos sempre no Senhor, leia mais, leia sobre aquele que aprendeu que uma pessoa poderia pregar a Cristo até por inveja - é tá lá sim, basta procurar. Quando alguém diz que Paulo escreveu tal carta por conta de amar mais aquela comunidade, a chamada igreja do coração, fico a pensar que seria a igreja da remissão.

Paulo remido pelas memórias, centrado no afeto e na gratidão, coisas trazidas pela vida, sofrimento, prisão e tempo, muito tempo pra ficar pensando, tempo sozinho com Deus, muitas noites conversando consigo, reescrevendo a sua teologia mais próxima da vida e das pessoas, mais próxima do ser gente, menos cruel, ninguém sendo mandado para o inferno, mas entregando o agressor aos cuidados de Deus, lá no fim da vida. Claro que é outro discurso, e gostaria de saber o que a Teologia Sistemática faz com isso. Preso não viaja, escreve um pouco e ora muito, mas muito mesmo, um pouco mais do que você está pensando, muito, mas muito tempo para refletir, rememorar, pensar outra vez nas memórias já pensadas, palavras passando repetidas como se não pudessem ser esquecidas e que novamente voltam, nunca concluídas, e mais oração, muita oração. Sem dia, e sem noite. Tudo igual. O tempo parado. A vida paralisada com a imagem da mesma sala, mesma parede estática, mesma visão curta, sem horizonte e um olhar para dentro sem espelho, e ficar gastando o chão de tanto dar voltas, e pensar, pensar e pensar, orar, orar e apenas orar, rememorar e rememorar, muito tempo para escolher o supra sumo da vida, e esquecer o resto, e ficar só com o sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.

Paulo, o velho, e tinha que ter ficado velho para virar Paulo. Ao invés da lista de sofrimento e da reclamação do trabalho que as igrejas davam, confessa que o para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho [...] mas julgo mais necessário por amor de vós, ficar na carne. O que você prefere: ouvir relatório de sofrimento, ou o desejo confessado de alguém que vive só para continuar te amando?

Um primeiro, outro segundo, quem sabe um terceiro ou até mesmo um quarto de você que se transformou em outro que é você mesmo. Nascido das longas conversas com Deus e o próprio pensamento, se esquecendo e se refazendo em meio às próprias lembranças. Assim nasce um pastor.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

EVA, VIDA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 11 de maio de 2008)


As narrativas sobre a criação estão sendo redescobertas, e se constituem num desafio à interpretação. Ler a literalidade é fácil, quase mecânico. Você fixa a individualidade do primeiro ser humano e de sua parceira, o segundo ser humano, a primeira inserção do mal, e o resultado que se tem é a corrupção da raça. Observado desse modo, o texto fica fácil, o pecado é instituído, o ser humano condenado e daí por diante não se espera mais nada. Numa breve narrativa são levantadas todas as perguntas que nos inquietam: De onde viemos? O que é a morte? Qual será o nosso destino? – e são respondidas em forma de rara beleza poética. As cenas vão passando, há um determinado lugar, lindo lugar, cheio de água, coalhado de verde e de frutos; vida de um lado, vida de outro, brilho pro lado de cima, águas pro lado de baixo, e tudo vai surgindo de uma forma que não precisa de explicação: Disse Deus. Só. Disse e pronto. Você pode explicar a luz? Não precisa, apenas Disse Deus. Olha para as estrelas, e haja teoria da Grande Explosão, de elaboração duvidosa, quase uma religião, sem comprovação, hipóteses daqui, hipóteses dali, e o texto bíblico é simples, sintético e objetivo, apenas Disse Deus. Só isso, Disse e pronto. Vai assim, até que surge Eva.

A impressão que se tem é a de que se tratou de um nome titulado com honra. Não foi. Até então homem e mulher são apenas indicações de gêneros. Eva aparece como a explicação da perda do paraíso. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois do tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o lugar em que essa cede lugar à narrativa meio turva, mais cheia de detalhes, o primeiro texto do cotidiano, num passeio sem qualquer pretensão, num dia qualquer, e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido, ficar num canto e quem quiser achar vai ter que procurar. Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida? Vida parece bom para quem se esconde, tem medo e vergonha. Tá de bom tamanho: Vida.

Então a narrativa poderia ser assim: 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à Vida: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?/ 2. Respondeu a Vida à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer. /3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. / 4. Disse a serpente à Vida: Certamente não morrereis. /5. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal./ 6. Então, vendo a Vida que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu./ 7. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. Deus fez a Vida e a Vida desejou ser livre, mesmo que isso custasse o seu fim, e se tornasse morte.

Só que a Vida não foi punida só com a morte, foi punida com a vida – Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada aos seres humanos, antes de perder o paraíso, bem antes. Antes da condenação da morte, bem antes. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início, será contraditória para sempre, vai trocar o paraíso pela liberdade. Tem gente que diz com a boca cheia: vou para o inferno, mas não mudo. Sabe de uma coisa? - isso parece absurdo, mas Deus respeita quem deseja trocar uma pela outra. A Vida é assim, desde o início. Ela olhou para a liberdade, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem segura a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); desejou o que é belo (agradável aos olhos); e desejou ser livre, sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco (desejável para dar entendimento).

Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antigüidade remota, aquele que não teria desejos, que não levaria em conta o prazer, que não se fascinasse com o que é belo e que não desejasse ser livre? Você consegue imaginar uma coisa dessas? Eu não consigo. Só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, dominar as emoções, controlar a pressão alta por meio do relaxamento, ter que escolher uma coisa e outra, poder fazer isso, sentir culpa, medo, muito medo, medo de tudo e ficar buscando a Deus por qualquer coisinha que aconteça, porque dependo dele pra tudo. Fico sonhando com o meu retorno ao paraíso, e isso é que dá sentido. A esperança do voltar, apenas voltar.

E não foi Eva a mãe de tudo isso? Você acha que foi um nome honorífico? Não foi. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa. Nascer dói, pra quem nasce e pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, nunca mais pára de doer, nunca mais sossega, nunca mais tem segurança outra vez. Dói de um lado e de outro. A Vida que gerou a vida, quer protegê-la das ameaças, e a vida que foi gerada pela Vida quer romper o cordão e também experimentar um pouco da morte. Será que é isso, finalmente, o significado de ser mãe é padecer no paraíso?

sábado, 3 de maio de 2008

DÁ PRA EXPLICAR?

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 04 de maio de 2008)

Em outubro de 1977, e teve que ser no dia 13, a Ponte Preta entrava em campo para a disputa da final do Campeonato Paulista. E quem em Campinas não se lembra do Rui Rei? Eu me lembro. Vi a cena ao vivo, pela televisão Millen, com perninhas no próprio aparelho, no sofá de curvim verde e branco, todo desenhado com minúsculos retângulos de linhas douradas, como se fosse uma parede de tijolos sem reboque, aquele do tipo que abria e virava cama quando a gente tentava juntar o assento com o encosto, formando um “v” seguido de um “clete-clete”, quando de repente, sem ninguém entender, aos 15 minutos do primeiro tempo Rui Rei entraria para a história. Recebeu o cartão amarelo e logo em seguida o vermelho, saiu de campo e praticamente saiu da vida. Ninguém entendeu. Mas nunca mais foi esquecido, também nunca conseguiu explicar.

Quando se perde a credibilidade não há explicação que dê conta. Já não é uma questão do que é certo ou errado. Você lê sobre o início da igreja, e não consegue explicar a razão pela qual tanta gente morreu de graça, só por ser cristão. Desde então o “mundo” sempre será visto como aquele que está “contra” a igreja. Não ficou nisso. O contrário também é verdadeiro. Você também não consegue explicar o motivo que levou a igreja a matar tanta gente, também de graça no período negro da inquisição. Aí é o “mundo” que pensa que a vilã é a igreja, e a melhor forma de se livrar dela é matando Deus. Mortes que não resolveram nada, se é que um dia poderão resolver alguma coisa.

Não vá longe, dê uma lida nas histórias bíblicas da conquista da terra prometida pelos judeus, lá no livro de Josué, pelo menos até o capítulo doze. Tudo bem, você também vai defender o seu cantinho afirmando que naquele tempo era assim mesmo, as guerras eram religiosas (acho que as atuais também são), havia uma espécie de lei da vida, ou mata ou morre. Com isso, parece que os israelitas estariam certos em responder no mesmo tom. Só que não aceito isso porque aprendi, desde que comecei a ser gente, que ao cristão paira o esforço de não ser igual. Tudo bem, a cultura era aquela mesma, e eu sei que há uma diferença entre judeus e cristãos, vá lá, mas não tente me convencer de que os que foram massacrados se tratavam de povos espiritualmente inferiores, muito, mas muito pecadores. Pecado por pecado, meu caro, não faz escapar ninguém, nem você e muito menos eu. Por esse caminho, zero seis, você se condena, me condena e condena todos em sua volta. Ao ler o capítulo onze de Josué que narra a destruição das cidades e mortes de todos os habitantes (leia-se mulheres e crianças também), você tem a sensação de que alguma coisa está errada. Por mais explicação que se dê, sempre fica a dúvida se não poderia ter sido diferente. A morte motivada já é duro de engolir, quanto mais a que vem de graça. Não há religião que possa sustentar o tirar a vida por causa de um credo. As pessoas são a nossa missão, não nossas vítimas. Precisam ser amadas, não exploradas.

Nesse ponto, quero dizer que a credibilidade dos cristãos vai muito mal, e não é culpa de qualquer perseguição. Em alguns casos a igreja estragou o cristianismo. Disse uma coisa e fez/faz o contrário. Não, não é que faz diferente, faz o contrário mesmo. Utilizamos determinados textos bíblicos, como o ser cabeça e não ser cauda, pra justificar a correria em busca de conforto e riqueza. Ser cabeça é liderar o mundo, comandar as reformas em favor da vida; é fazer com que aqueles desnorteados assumam o compromisso com o próximo, com o resgate da dignidade humana. Tô cansado de ver gente na televisão se apropriando de Deuteronômio 28:13, e fazendo uma leitura torta. O texto fala da independência, assumir liderança e o discurso a riqueza ali é apenas um detalhe. O mundo carece de valores, não de dinheiro. O que gera a fome não é a falta de dinheiro, mas ausência de valores. Bombas são jogadas, ao invés de comida, doenças e não remédios, preconceito e não amor. E ninguém tá nem aí. Não é uma questão de dinheiro. E o povo de Deus? Bem, o povo de Deus fica correndo atrás das mesmas coisas. Fica utilizando a expressão bíblica para reforçar o que há de mais degradante, correndo atrás do que tem sido um dos problemas da humanidade. Atrás significa ser rebocado. Isso é ser cauda. Ser cauda é calda, é uma água. Ser cabeça, isso sim. Assumir valores, defender o que é ético, sair em defesa da vida. Seja prático, se você saísse hoje do jogo, que falta faria?

Daí a gente olha pro Rui Rei e fica indignado dele ter sido expulso logo no início do primeiro tempo. Não sei, mas já acho muito a gente fazer parte do time, não deveria sobrar nem pra gandula.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A IGREJA DO ABRAÇO

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva

(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 27 de abril de 2008)


Nossa igreja precisa de abraço - não é algo que se diga, porque é humano demais, mas foi o que ouvi. Cheira à gente, tem cara de desejo e se confunde com a frivolidade, passagem rápida, como se não ficasse qualquer resultado. Será que alguma igreja precisa de abraço?

Foi uma frase dita por alguém que procurava analisar uma situação. Escutei, com a perna cruzada, calcanhar por sobre o joelho e mãos que se esfregavam uma à outra. Se os meus braços também estivessem cruzados, algum especialista de comportamento humano poderia afirmar que se tratava de uma posição defensiva. Não poderia ter sido assim, porque não foi uma observação grosseira, veio como um dito lento, medido, escorregado pelo pensamento, quase um pedido. Um abraço é tão pouca coisa, que não dá para acreditar que um dia tenha virado sonho.

Tive que escutar isso, e pensar que na igreja, o lugar onde reside o amor, há falta dele. Não deveria ser assim, mas acabou sendo, e não é exclusividade daquela comunidade. A religião instituída, de qualquer natureza, é estabelecida pela definição de suas doutrinas e credos, e não tem como ser diferente. Tais doutrinas e credos acabam por tomar o lugar do ser humano por meio da estrutura e dos programas. Estabelecem-se as funções, a eficácia no desempenho, as regras de execução, os objetivos definidos, a maneira pela qual as pessoas serão alcançadas, o porquê de não terem sido, ou se o foram com muita facilidade, houve erro de planejamento? Foi pouco otimista? Erros de cálculo sobre as projeções? Vamos colocar num quadro estatístico, rol de membros, atividades desenvolvidas, receitas e despesas, treinamento aqui, desse lado o que foi alcançado próximo ao que foi projetado para que seja possível visualizar a diferença, número de pessoas no ponto de partida, aqui, número de pessoas no final do projeto, ali, as variáveis, a probabilidade de erro, dois por cento para mais, ou dois por cento para menos, está assim: deveríamos estar ali, mas estamos aqui, deve ter acontecido alguma coisa errada em algum lugar. Faltou a coluna do abraço, onde deveria estar mesmo?

Não está. Não há uma coluna do abraço porque o planejamento não comporta isso. Daí você lê os propósitos de algumas comunidades e nunca vê nada além do comum. Ninguém menciona o abraço, porque é simples demais. De tão inútil, não entra nas estatísticas, não faz parte de qualquer plano e certamente nenhuma comunidade que se preze tem a coragem de colocá-lo como um dos elementos centrais de seu discurso. Uma igreja que tem por alvo se abraçar, é humana demais, quase uma heresia.

Eu gostaria de fundar “a igreja do abraço”, e acho que estaria mais próxima à comunidade sonhada por Jesus. Uma comunidade de amor e afeto na qual as pessoas seriam mais importantes que o calendário, viveriam a paixão sincera de um evangelho que não precisaria ser monitorado. Cada qual daria conta de sua própria fé, teria consciência de que necessitaria conversar consigo mesmo sobre a sua própria vida, reavaliar conceitos, motivação, desempenho e o desejo de se dedicar um pouco mais. Nessa igreja não haveria cargos ou funções, só dons e amor, cada pessoa ocuparia o seu espaço com uma alegria tal que encheria os olhos de qualquer um, diferente da institucionalização forçada, que tem poucos cargos definidos, com não sei quantas pessoas querendo ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, decidido por meio de eleições quem vai ficar com o quê, que não decide coisa nenhuma, lugar onde o abraço cedeu a vez para o chega pra lá.

Sem cargos e funções, está decretado: na igreja do abraço, só tem abraço! Ninguém sabe fazer nada e se fizer um pouco é porque Deus não enviou outro mais capacitado, que um dia virá e tomará o lugar, fará melhor e será abraçado por isso. Não é concorrente, é irmão no abraço, companheiro que veio fazer o que o outro não consegue, e vai ficar ali até que chegue outro melhor do que ele e que um dia também será abraçado. Haveria um culto solene, chamado culto do abraço, sem mensagem formal, cântico formal ou oração formal. Grupinhos constituídos aleatoriamente, sem sorteio ou rito, gente virada para trás nos bancos, estes seriam substituídos por cadeiras, que seriam deslocadas formando círculos de debates sobre a vida cristã, texto bíblico, troca de experiências e orações, muitas orações, gente abraçada orando junto. Um grupo cantando, outro rindo, outro chorando, ninguém distraído ou analisando as batidas do relógio, estudando o longo discurso programado, diretivo, exortativo, em algumas ocasiões até mecânico, lido, voz cadenciada, ritmada, mesma entonação e postura. Nada de fila indiana de bancos, colados um atrás do outro, e ficar olhando a nuca de ninguém. Nada disso. A igreja do abraço é a igreja do sorriso, tem que se ver a face, olhar o que dizem os olhos, ver as sobrancelhas erguidas e os braços longos que se abrem como gesto de aceitação.

Na igreja do abraço será proibido o tapinha nas costas. Coisa indecente é o tal do tapinha! Coisa de político! Na igreja do abraço, só há abraços, calor humano, gente se encontrando, se enroscando e conversando. Sem barreiras ou preconceitos, gente pobre com gente rica, raças misturadas, doutores e analfabetos, todos conversando sobre coisas comuns, seus medos, crises, dependência de Deus, conhecimento das Escrituras, sem receio de mencionar os seus dramas mais pessoais, e mais orações, outras orações, sem vozes empostadas ou vocabulário arcaico, orações na primeira pessoa do singular – “eu”, não na segunda do singular – “tu”, por ser irritantemente solene, e nem na primeira do plural – “nós”, por ser melancolicamente indefinida.

Parece muito, mas um abraço é apenas um abraço, não dá conta nem de ser heresia; coisa pequena demais para fazer tanta falta, se transformar em sonho e despertar tanta saudade.