terça-feira, 17 de junho de 2008

UMA PALAVRA DE AGRADECIMENTO

Com o texto seguinte, encerro a minha participação no blog da nossa igreja, Batista em Barão Geraldo. Quero agradecer o tempo que você gastou lendo, quem sabe rindo, meditando ou até mesmo sofrendo, discordando ou criticando. Você se tornou um amigo virtual, de certo modo anônimo, mas mesmo no anonimato próprio da era digital, um incentivador. Não foram textos pensandos em profundade. Apenas textos, nada mais, nada menos. Ao lê-los, foram transformados e recriados pela sua interpretação pessoal, movida pela imaginação e memória de um um mundo que é só seu. É essa dinâmica que me fascina na literatura.

Grato, e no Amor de Jesus,

Natanael Gabriel da Silva

O QUE E COM QUEM APRENDEMOS

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 08 de junho de 2008)

Acho que Z., naquela tarde, estava drogado. Sou péssimo em conhecer essas coisas. Z. tem 17 anos e veio do Piauí, Teresina. Ficou eufórico quando mencionei a beleza daquela cidade, do trajeto de carro pelo interior do Estado, mais pelo sul, passando por Brasília e seguindo, não por Palmas, mas à direita, direto e olhando para ver o palácio onde está assentado o poder, hotéis caros, cheio de gente que se encontra acima da ética, basta ter amigos. E haja amigos!

Os amigos do poder também ficam do lado direito, são portanto reacionários por vocação e geografia. Depois você segue em frente, e logo se depara com os buracos bem na saída do quintal do poder, e se não fosse a sua consciência do lugar, afirmaria com toda a certeza de que o sítio estaria abandonado. Estrada ruim, muito ruim. Daí você segue para Correntes e finalmente, um posto marca a entrada ao sertão do Piauí, e dependendo da época terá a oportunidade de ver os leitos dos rios em tempo de seca. Impagável. Z. disse pra mim: Foi por lá? E respondi: Sim, e nem carro era, Pálio 97 mil. Daí ele disse o nome da estrada, que até então eu não sabia. Você também não vai saber o que isso significa, só passando por lá, mas como nunca mais devo escrever sobre isso, não posso deixar de compartilhar contigo o trecho de estrada mais famoso daquelas paradas, ainda na Bahia, entrando pelo sul do Piauí, cerca de 60 quilômetros com a demora de quatro horas para travessia. Z. afirmou de novo: Foi por lá? Pela vaquejada?

Com ou sem vaquejada, o certo era que Z., agora com nome e lugar de nascimento definido, fazia o povo rir e parecia meio fora de lugar. O assunto era Relacionamento Interpessoal. Daí ficou pior. Uma pessoa nas condições normais de temperatura e pressão já não saberia dizer o que isso significa, imagine Z.! Ele entregou um pequeno texto de exercício, como pouquíssimas palavras, e muitos erros: lavá loças, entre eles. Não dá pra explicar a diferença entre lavá loças e Relacionamento Interpessoal. Lá pelas tantas disse: Professor, um dia joguei uma cadeira na professora e fui expulso da escola. Também, ela jogou um giz em mim! Que é isso mano?! Sou homem! A aula rodou, esquecendo a vaquejada, o interior do Piauí e a cadeirada na professora. Piauí voltou no final, não sei se movido por uma lembrança que nunca lhe sai da cabeça, Z. me perguntou se eu sabia o que era palmatória. Disse que sim. Olhou para mim – Aprendi isso no Piauí. A professora o fazia esticar a mão aberta para receber a punição. Tinha então quatro anos de idade.

Olhei para ele e fiquei pensando numa mão gordinha, cheia de dobras, com a palma para cima. As palmas das mãos viradas para cima, no comportamento humano, são símbolo de quem se humilha em busca de piedade. Descobri que eu precisava aprender a lavá loças, e esquecer um pouco o Relacionamento Interpessoal.

Não sou fatalista em achar que tudo na vida de Z. depende de sua mão gordinha aos quatro anos sendo castigada por um imbatível gigante com várias vezes o seu tamanho. Também não sou ingênuo a ponto de achar que aquilo não significou nada. Uma lembrança dos quatro anos só pode ser a de alguma coisa muito importante. Z. não aprendeu a escrever com a professora, mas a vida lhe ensinou que ninguém, nunca mais, bateria em sua mão: é preferível jogar cadeiras, e o sabor disso não tem preço.

A professora achou que estava ensinando uma coisa, e era outra.Acho que nunca se deu conta disso e, se ainda estiver na ativa, na sala dos professores comenta que filho nenhum, de ninguém me faz de tonta, o negócio comigo é assim...

Z. me fez sentir medo da minha própria ignorância. Uma das regras básicas do Relacionamento Interpessoal é que somente uma outra pessoa pode ser para mim um espelho e dizer quem de fato sou. É simples. Quando você quer saber se o cabelo está bom, a barba bem feita e o que fazer para esconder as rugas ou a careca, a primeira coisa é olhar-se num espelho. Agora, quando você deseja saber da própria alma, sentimentos, e medir o tamanho do amor, da paciência, e se conhecer um pouco mais, não basta olhar para aquele tipo de espelho. Você precisa de um outro. Precisa olhar para uma outra pessoa. Daí você compara o comportamento do outro, com o seu comportamento e faz uma análise. É o escape. Você procura uma pessoa amiga, e se deixa invadir na vida pessoal. A pessoa entra no seu mundo, só pela conversa, e você, que estava com medo de entrar sozinho em si mesmo, pega na mão dela e vai atrás. O outro funciona como se fosse um guia, com facão na mão abrindo picada e uma lanterna, porque o interior da gente é sempre escuro. O outro vai iluminando o caminho e dando nome aos seus sentimentos. Parece que tudo fica mais claro. Pessoas precisam de pessoas. Só uma outra pessoa pode ser espelho para alguém, e o pior é que sempre será, de um modo ou de outro, à convite ou por agressão. Fiquei com medo de fazer parte do segundo grupo.

Uma criança, aos quatro anos pode aprender a escrever lavá loças, mas também pode conhecer o mundo da violência, e isso dentro do lugar dos sonhos chamado escola. Só que não é só a escola a vilã. Pode ser a família, e quem sabe a igreja, que passará a vida toda tentando ensinar amor para quem fixou a palmatória como a comunicação mais cruel e desumana. Sob o clima da responsabilidade, seriedade e compromisso profissional, ficam disfarçadas as agressividades de quem faz uma coisa, quando o resultado é outro, no medo que, quando e se sumir, manda buscar outro lá no Piauí, como diria Belchior.

O apóstolo Paulo, conversando sobre o que se ensina e com quem se aprende, diz: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. É isso aí. Ensinar (quase) qualquer um ensina, agora só quem é pessoa vai além dos livros, fora do texto e dentro da vida. Isso é válido para pais, professores e religiosos. Talvez a tarefa mais difícil do ser humano não seja a de passar conteúdos intrincados, cheios de fórmulas que logo serão esquecidas, memorização de doutrinas e ritos confessionais a serem repetidos, como se o verdadeiro amor estivesse ali. É preciso um pouco mais. Livros, você os encontra nas prateleiras, mas só o amor vem do coração. Acho que o lavá loças está correto. Mais próximo da vida de Z. que o meu Relacionamento Interpessoal. Z. caso seja possível um dia, perdoe a minha colega, ela não sabia o que estava fazendo.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A FUNDADORA DA IGREJA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado por ocasião do trigésimo aniversário de organização da Igreja Batista em Barão Geraldo, 31 de maio de 01 de junho de 2008)

Hoje quero defender uma tese diferente de tudo o que você já ouviu, leu e viu sobre o surgimento da igreja. Num dia desses participei de um concílio - aquela entrevista entre pastores para saber se um outro pensa igual e pode ser um deles - e uma das perguntas foi sobre o quando da igreja ter sido constituída. A resposta, por convicção ou prudência, foi a de que a igreja, como nós a conhecemos, se fez no dia do pentecostes. Foi claro. Teria sido naquela ocasião que as dimensões fundamentais da comunidade convergiram sinteticamente num único momento: manifestação histórica e definitiva do Espírito Santo, sacrifício vicário de Jesus dado como ato completo, cumprimento de uma profecia, pregação, conversões, universalização do conteúdo de fé a todas as nações, e por aí se vai. Tem gente que afirma, de pé junto, que a comunidade apostólica, muito antes disso, já se constituía como igreja, uma vez que a pessoalidade de Jesus não poderia ser considerada menor que a do Espírito Santo.

Ao mencionar o pentecostes, o examinador deu um sorriso meio de canto: eles estavam acreditando do mesmo modo.

Eu vou deixar esse pessoal discutindo. Nunca foi possível a comprovação de uma coisa ou outra e quero fundar uma nova teoria: a igreja nasceu com a viúva pobre. Já fundei a igreja do abraço, agora vou encontrar um outro lugar para apontar o surgimento da igreja. Nada de apóstolos, profetas e homens. Nada disso. A igreja sendo fundada por uma mulher, e ainda mais viúva. Fora do círculo apostólico, para alguns suspeitos de defender o próprio cantinho. Também sem sobrenaturalismos e das longas discussões sobre dons espirituais, se há ou não um fenômeno do falar em línguas, estrangeiras ou estranhas, nada daquele debate da preocupação com o texto literal cuja interpretação de todo um credo depende de um advérbio “línguas como que de fogo”, e daí ficar discutindo se era “como” mesmo ou se há uma indicação de um fogo simbólico que tem que tomar conta da igreja que “pega fogo” ou o seu contrário, “que povo frio!”, emprestado do Apocalipse. Nada disso, e ficar contando quantas nações havia por ali, se a igreja de Roma nasceu mesmo daquele grupo ou não, se Pedro dizia uma palavra e depois a repetia em cada idioma, até completar o número das tantas etnias mencionadas, ou se Pedro pregou um sermão só e o Espírito Santo é que o interpretou de acordo com o lugar de nascimento de cada um, se o dom estava em Pedro, ou fora dele, nada de ficar especulando essas coisas para reafirmar essa doutrina ou aquela como prova de que, no nascimento da igreja, aconteceram coisas que terão que se repetir pelos séculos dos séculos. Gente negando uma coisa, afirmando outra, ênfase no discurso de Pedro e no sobrenaturalismo ali manifestado. Quero esquecer essa discussão que busca esse tipo de fundamento da igreja, que tem que começar com um problema teológico, sem resposta, para fazer do intérprete que arrisca uma opinião parecer mais sabido do que de fato é. Vamos esquecer esse negócio.

Enquanto você fica pensando no pentecostes e tenta encontrar num dicionário bíblico o que aquele dia significava, e ler o texto outra vez para saber quem está com a razão, quero convidá-lo a pensar na viúva, e já vou afirmando que ela entregou as moedinhas com ou sem Espírito Santo, com ou sem sacrifício completo de Jesus, com ou sem sermão, com ou sem conversões, se tinha gente olhando ou não, se era ou não a sua obrigação, se fez ou não para ser observada por outros, se desejava ou não receber tudo de volta em forma de qualquer benefício, se tinha nome ou não, se desejava receber galardão ou não, se sabia o que era galardão pra começar, se isso iria fazê-la estar mais próxima de Deus ou não, se era o dízimo ou não, se agradeceu a Deus pelo privilégio de ofertar ou não, se teve medo do dia seguinte, se ia faltar pão, ou não, se tinha gente que seria batizada por conta daquele testemunho ou não, se os outros estavam fazendo o mesmo ou não, se o valor era justo para todo o mundo ou não, se a comunidade religiosa para a qual contribuía estava certa ou não, se a doutrina estava sendo focada era correta ou não, se o sacerdote iria roubar as suas moedas ou não, se havia pré-milenismo ou não - quem escreveu Hebreus?

Caso você seja rigoroso com texto, é possível afirmar que a viúva sequer teve uma experiência de profundidade com Deus, não levantou a mão como sinal de conversão, não disse palavras-chaves, aliás não disse nada. Talvez nem soubesse da existência de Jesus. Com certeza não foi batizada, não teve expulsão de demônio, nem cura, ninguém sendo carregado em maca, cego vendo ou aleijado andando. Não teve nada disso. Não se sabe se viveu o suficiente para ver o crescimento da igreja, ou se acabou se tornando de fato uma cristã, com profissão de fé e tudo o que tem direito. Não teve texto, sequer a gente pode saber se era ou não alfabetizada - parece que não - se tinha ou não algum amparo. Afinal, o que fizera para conseguir as duas moedinhas? Que diferença as duas moedinhas fariam para o Reino de Deus? Sem intenção, declaração formal, expectativas, doutrina ou cobranças. Nada. Sem milênio, circuncisão ou predestinação. Nada. Apenas uma coisa, e tem que ter alguma coisa: as ofertas eram depositadas na arca do tesouro, e o nome já diz que não era lugar para o que sobra, conhecido mais como rejeito ou lixo. Na casa do tesouro funciona assim: ou é tudo, ou nada. Ou é tesouro, ou não serve. Se vai depositar alguma coisa, que seja algo muito, mas muito importante.

E daí? O que acha da minha teoria? Não precisa responder. Eu sei que você vai continuar com o seu discurso tentando reafirmar que a igreja teria que ter começado com algo meio confuso, meio escondido e muito misterioso. Afinal de contas uma viúva, é apenas uma viúva, não forma uma comunidade. Só Lucas se importou com ela. Não o culpo. Já acreditei nisso. Hoje prefiro entender a igreja como tendo surgido a partir dos excluídos, de quem não tem esperança, interesse ou qualquer tentativa meio escondida de trocar uma coisa por outra, um benefício por outro, uma entrega qualquer por algo melhor, a sobra pelo tesouro, mesmo que este receba o nome de eternidade.

Bem, talvez essa minha teoria não sobreviva ao amanhecer, e seja apenas um sonho, em forma de recordação: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade (Jeremias 2:2,3 parciais). Sabe de uma coisa? Tenho muita saudade disso! É bom saber que um dia, uma mulher, viúva e anônima, desafiou todo um sistema religioso, e se fez exemplo de pureza e entrega.