segunda-feira, 26 de maio de 2008

PAULO, O VELHO - ASSIM NASCE UM PASTOR

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(ao meu amigo, hoje colega, Jeferson Rodolfo Cristianini, quando da sua ordenação ao Ministério Pastoral, publicado no boletim de ordenação, Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 e 25 de maio de 2008)


A interpretação da vida, pelo caminho da memória é coisa de doido. Paul Ricoeur diz que o esquecimento, possivelmente, ofereceria elementos mais importantes para a compreensão da vida que a memória. Esta é seletiva, muitas vezes triunfalista, contaminada com as emoções e quase sempre quando dela se faz uso, não se sabe direito se o imaginário não está invertendo os acontecimentos, coisas que pareciam ter sido ditas depois, poderiam ser anteriores, detalhes que se perderam, julgamentos, palavras ditas, tudo misturado com vida, dor, alegria e expectativas criam uma indagação crônica sobre a serviço de quem recordamos e revivemos o que talvez jamais tenha acontecido. Pelos sonhos da memória resgatamos o que jamais fomos, mas nos tornamos como sendo, porque a memória é a interpretação do presente. Você pensa que está se lembrando do passado, mas foi o presente que o fez pensar e recuperar coisas que estavam escondidas, quietas, sufocadas e perdidas. Daí você jamais saberá a diferença entre uma coisa e outra. É como se você tentasse comparar fotografias da vida, o momento paralisado pelo tempo. Nelas é possível observar os detalhes, lançar um olhar curioso em busca dos sete erros, como se fosse brincadeira em quadrinhos, e daí fazer um diagnóstico modesto: foi assim..., ou um talvez tenha sido assim... – duvidoso, porém humano.

É essa a minha leitura dos últimos escritos de Paulo, um humano, demasiadamente humano. Tomado pelo esquecimento dos grandes tratados de teologia, do primeiro período, o que restou foi o vivido, não o conceituado. É como se tivesse havido dois Paulos, um antes e um depois, um jovem e um velho. Dois Paulos, até parece coisa de academia, que fica dividindo gente como se fosse queijo. É um tal de jovem Heidegger, e segundo Heidegger, primeiro, segundo e (talvez) terceiro Rahner. Você não conhece nem bem um, quanto mais três do mesmo que virou outro.

Paulo, o jovem! Já leu a intrincada Carta aos Romanos, e seu discurso da possibilidade teológica de inclusão dos gentios? Texto complicado, não é? Já leu a Carta aos Gálatas e o combate declarado ao judaísmo? Lembra-se de Paulo confrontando Pedro, lá no capítulo dois? E as cartas Aos Coríntios? Na primeira, inconformado com a imoralidade, recomenda que se entregue uma pessoa a Satanás! Uau! Pois é, esse foi o Paulo do começo, o que atropela, forte, destemido, corajoso, em alguns momentos até impiedoso. Não sei se estas se tornaram memórias tristes, já que nunca mais voltou a mencioná-las. Já pensou se Paulo mantivesseaquele discurso do “eu não mudo?” Depois a gente precisa esquecer, e tem que ser de propósito. Não estou falando de perdão, mas é quase. Vez por outra, você precisa formatar a memória, salvar o necessário num canto, compactado, e apagar tudo como se fizesse uma retífica. A cabeça da gente fica lenta com tantos arquivos temporários. Daí você pode olhar o próprio passado como se tivesse sido uma outra pessoa. E era. Pode rir, sentir pena ou vergonha de si mesmo. Isso faz parte.

O jovem Paulo morreu na prisão. Morreu antes da morte, morreu no esquecimento, sepultado pela memória, que matou outras memórias, um esquecer a impiedade praticada em nome da justiça(?), ou um amor defendido por meio da impaciência (que alguns chamam de sinceridade) (?), ou ainda de uma liberdade de expressão sob o domínio de um único controle(?), o inventário de sofrimento, que depois perdeu a importância porque muita gente passou a sofrer também. Memórias que já não serviam mais.

Leia Paulo, o velho, aquele que passou pelas prisões. Leia com atenção porque senão você vai ficar como alguns que não acreditam ter sido a mesma pessoa. Veja o nada façais por contenda ou vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo de Aos Filipenses. Dá pra imaginar que Paulo, o velho, poderia mandar alguém para ser entregue a Satanás? Se desejar, leia toda a carta, leia o regozijai-vos sempre no Senhor, leia mais, leia sobre aquele que aprendeu que uma pessoa poderia pregar a Cristo até por inveja - é tá lá sim, basta procurar. Quando alguém diz que Paulo escreveu tal carta por conta de amar mais aquela comunidade, a chamada igreja do coração, fico a pensar que seria a igreja da remissão.

Paulo remido pelas memórias, centrado no afeto e na gratidão, coisas trazidas pela vida, sofrimento, prisão e tempo, muito tempo pra ficar pensando, tempo sozinho com Deus, muitas noites conversando consigo, reescrevendo a sua teologia mais próxima da vida e das pessoas, mais próxima do ser gente, menos cruel, ninguém sendo mandado para o inferno, mas entregando o agressor aos cuidados de Deus, lá no fim da vida. Claro que é outro discurso, e gostaria de saber o que a Teologia Sistemática faz com isso. Preso não viaja, escreve um pouco e ora muito, mas muito mesmo, um pouco mais do que você está pensando, muito, mas muito tempo para refletir, rememorar, pensar outra vez nas memórias já pensadas, palavras passando repetidas como se não pudessem ser esquecidas e que novamente voltam, nunca concluídas, e mais oração, muita oração. Sem dia, e sem noite. Tudo igual. O tempo parado. A vida paralisada com a imagem da mesma sala, mesma parede estática, mesma visão curta, sem horizonte e um olhar para dentro sem espelho, e ficar gastando o chão de tanto dar voltas, e pensar, pensar e pensar, orar, orar e apenas orar, rememorar e rememorar, muito tempo para escolher o supra sumo da vida, e esquecer o resto, e ficar só com o sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.

Paulo, o velho, e tinha que ter ficado velho para virar Paulo. Ao invés da lista de sofrimento e da reclamação do trabalho que as igrejas davam, confessa que o para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho [...] mas julgo mais necessário por amor de vós, ficar na carne. O que você prefere: ouvir relatório de sofrimento, ou o desejo confessado de alguém que vive só para continuar te amando?

Um primeiro, outro segundo, quem sabe um terceiro ou até mesmo um quarto de você que se transformou em outro que é você mesmo. Nascido das longas conversas com Deus e o próprio pensamento, se esquecendo e se refazendo em meio às próprias lembranças. Assim nasce um pastor.

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