prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(O texto que segue foi preparado para ser publicado num periódico. Não se trata de uma "pastoral" como os demais do nosso blog, pois tem uma natureza mais teológica. Talvez devesse ser reformulado, mas pelo menos no seu todo mantém-se relativamente atualizado)
Vez por outra ainda encontro alguém fazendo observações quanto ao liberalismo teológico. Esse foi um movimento europeu, mais precisamente alemão, e que fazia severas críticas aos textos bíblicos, autoria, data, acréscimos e por aí se ia. Pois é, já quase não se fala nisto na academia. Quando se aborda o assunto, já se diz no passado, como algo que não se discute mais. É claro que o tema – teologia liberal – é algo muito abrangente e há até os que colocam entre os liberais, teólogos como Paul Tillich, por exemplo. Isto se dá porque ele, e tantos outros, são incluídos naquele grupo que observava o texto bíblico sob o domínio da suspeita. Isto é, o texto bíblico era, de certo modo, questionado no que diz respeito não necessariamente à sua veracidade, o que de certo modo estava presente, mas principalmente nos seus limites para alcançar a interpretação do sagrado – um sagrado visto pela exclusividade teológica. Em parte essa questão foi o resultado natural da Reforma. Ao declarar que a autoridade estava nas Escrituras, os reformadores focaram toda a problemática religiosa no texto. A pergunta que se levantou, e talvez não pudesse ser outra, foi: que texto?
À época da teologia liberal se discutia a racionalidade, e como esta se aplicaria na leitura do sagrado. Numa linha mais positivista, a preocupação era com a comprovação da verdade. Só seria válido o que pudesse ser comprovado. A ênfase repousava sobre um ser humano que poderia conhecer, desvendar e controlar todas as coisas. Definitivamente passou-se a pensar que o ser humano tinha o mundo em suas mãos. Tudo poderia ser desvendado, do cósmico ao micro, do que o próprio humano é, em termos biológicos, até as suas emoções mais profundas, incluindo a sua espiritualidade e existência. O ser humano seria capaz de controlar a natureza, e o seu futuro. Desse emaranhado de coisas que posteriormente chamaríamos de modernidade, saiu de tudo. Saber de onde viemos passou a ser o assunto científico do momento. Se pudéssemos fazer o traçado de como a humanidade se formou, poderíamos prever os nossos passos rumo ao futuro. Se fosse possível encontrar onde foi que humanidade se perdeu, seria possível corrigir os desvios e racionalmente caminhar para a sociedade perfeita. O que seria mais puro, deveria ser o que estaria mais próximo da verdade. É claro que a esta altura já estou mencionando Darwin (busca do passado), planos qüinqüenais da antiga União Soviética (busca do futuro) e até os totalitarismos de Estado que aconteceram todos juntos em meados do século XX: Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Perón, Getúlio Vargas e Salazar, só para pensar nos mais importantes. O Estado tinha que ser organizado e purificado (nacionalismo econômico-racial), portanto forte. O ser humano seria capaz disso: o mundo estava em suas mãos.
Mais que lembrá-lo da história, quero lhe dizer que a teologia bíblica também sofreu desse mal. Pensava-se mais ou menos assim: se o que é mais antigo está mais próximo da verdade, então devemos procurar o mais antigo nos textos bíblicos. Isto levava ao seguinte problema: o texto bíblico nunca poderia ser considerado como unidade, mas teria sido a elaboração de muitos anos, muitas gerações, em meio a tantos espaços históricos. Se fosse possível chegar ao texto que está atrás do texto, chegaríamos à pureza da verdade religiosa. Não é preciso mencionar aqui que Durkheim foi até aos aborígines, Austrália, considerada a raça mais pura do planeta, e a partir deles, estudar religião. Por tabela, a da contaminação das raças e culturas, o estudiosos da Bíblia passaram a considerar que o texto que temos é resultado de muitos acréscimos; que a Igreja, em sua caminhada, teria acrescentado coisas e tirado outras. Harnack, por exemplo, afirma claramente que o Novo Testamento fora influenciado pelo helenismo, o que o tornava praticamente impossível de ser recuperado. Seria necessário fazer com a Bíblia, o que Darwin havia feito com o ser humano. Havia um texto, por detrás do texto, que não conhecíamos. O protestantismo biblicista foi tomado pela insegurança.
De lá para cá o texto ficou no centro do debate. Isto não foi de todo ruim, pois o estudo da teologia cristã necessitava passar pela Bíblia. É claro que você pode pensar diferente e dizer que a teologia européia, onde se desencadeou tudo isto, trouxe um prejuízo enorme para a fé. Hoje, ao que parece, o espaço geográfico europeu é o centro mundial de ausência de crença na teologia. Só que dizer isto, é jogar fora de uma só vez, as duas guerras mundiais, as diferenças étnicas desde a queda do Império Romano, o domínio norte-americano no pós-guerra, a derrocada dos sistemas políticos - tanto de burgueses como de proletários, sem contar a inquisição da Idade Média, e temos que parar por aqui por causa do nosso espaço. É muita coisa para se jogar fora e dizer que a teologia é a única responsável pela ausência de fé no velho mundo.
O texto bíblico em debate gerou muita discussão. Primeiro procurou-se os tais documentos antigos e quando possivelmente teriam sido escritos (Wellhausen, por exemplo). Depois descobriu-se que a oralidade e a poesia, que mantém uma métrica que não poderia ser mudada na passagem da oralidade para a escrita, seriam textos mais antigos ainda (Günkel). Outros acharam que a religião era mais importante que o texto (Alt), e que o Antigo Testamento, por exemplo, mantinha pelo menos duas tradições diferentes, como se o povo de Israel tivesse sido culturalmente duas tribos (Not). Já G. von Rad compreendeu que o que estava por detrás do texto eram as tradições religiosas, manifestadas nas festas e que num dado momento foram transformadas em texto. Isto é, os autores dos textos, que começaram a escrevê-lo no século IX a. C., seriam narradores da fé comunitária praticada nos ritos. Num destes grandes últimos sistemas, vislumbra-se a construção social das tribos de Israel, com base na luta entre oprimidos e opressores e a busca da liberdade (Gottwald). Surgiu até a teoria do documento “Q” (Bultmann), como uma fonte perdida e que representaria, na sua pureza, as verdadeiras palavras de Jesus, antes da Igreja corromper o texto com a fé. Depois surgiu o “Q1”, “Q2” e “Q3”. Bem, não é possível prosseguir na lista, em razão do espaço, até porque não faria diferença.
Contra tudo isto a teologia conservadora também se posicionava. Talvez o nome mais importante na leitura do Antigo Testamento tenha sido o de Bright, que associou a arqueologia à história das narrativas bíblicas. Por essa escola, a validade das Escrituras passava a depender de determinadas evidências físicas, o que ajudava a tentar comprovar os fatos, mas transferia a autoridade para algo fora do texto. Isto é, quando o leitor depende de uma comprovação arqueológica para demonstrar que o Mar Vermelho se abriu, em última instância está transferindo a autoridade do texto para uma possível comprovação científica, como se essa fosse melhor. Caso faça isso, no fundo a sua fonte de autoridade não são as Escrituras, por mais que afirme isso, mas tal fonte passa a ser a capacidade da pesquisa humana. Se a arqueologia não confirmar o evento, o texto bíblico também não o poderia. A âncora foi boa, mas frágil. Também não é preciso trazer aqui as dificuldades e credibilidade das chamadas das “provas” arqueológicas, praticamente abandonadas hoje pela historiografia, religiosa ou não.
A forma encontrada pelo pragmatismo norte-americano foi de tornar a teologia científica pelo viés da sistematização. Do mesmo mo que a dogmática havia se tornado na possibilidade do controle eclesiástico sobre o sistema teológico católico, o mesmo se daria com a teologia protestante na América do Norte. A teologia sistematizada define a forma de funcionamento de uma determinada instituição, seu credo e forma de expressão. Por conta disso, seja a dogmática católica, ou a sistemática protestante na América do Norte, os resultados se tornam os mesmos: são expressões de fé que dão sustentação para um sistema. A dogmática teria a sua origem na hierarquia, suspeita de autoritária. A sistemática teria a sua origem na comunidade e no texto, suspeita de secularização, como toda a teologia protestante. Por conta disso, a chave hermenêutica de uma teologia fundamentalista é o partir da sistemática, pois esta se constitui na dimensão científica da teologia. Para isso, a ferramenta que se tornou a possibilidade legitimadora foi a exegese, pois apenas essa seria capaz de se alcançar o que realmente o escritor estaria pensando. Tal recurso, dispensando pela historiografia na atualidade, e que também coloca sob suspeita a arqueologia como ciência, tem permanecido quase que exclusivamente no âmbito da teologia fundamentalista. É também uma fonte de autoritarismo, já que é dado ao especialista em grego ou em hebraico, a exclusividade interpretativa do texto, e a estrutura funcional se confirma como modo de opressão. Trata-se de um profundo humanismo, pois concebe à razão a possibilidade de conter e explicar o sagrado, exclusivamente.
O fato é que, uma coisa e outra, fizeram com que a teologia liberal praticamente se despedisse do cenário teológico. Teólogos existenciais, como Paul Tillich, a rejeitaram por conta da crise histórica da teologia liberal diante da cristologia: a suspeita liberal sobre a pessoa de Cristo criava problemas com o logos do cristianismo, que é Cristo – não é possível um cristianismo sem Cristo. Por incrível que pareça, tanto a teologia conservadora quanto a liberal acabaram sendo uma discussão apenas de um “antes” ou um “depois”. A teologia conservadora tentou mostrar que a verdade poderia ser alcançada mediante a razão no bem “antes”. Isto é, os textos no fim das contas são antigos e não há quase nada que possa provar o contrário. Já a teologia liberal tentou mostrar que este “antes”, embora fosse “antes”, deveria ser considerado como sendo bem “depois”, e a verdade deveria ser procurada e encontrada num outro momento, ou quase seria impossível de ser recuperada, até mesmo a possibilidade ou não de Jesus, de fato, ter existido. Foi quase uma discussão sobre o tempo.
Já faz algum tempo quando alguém me questionou se por acaso seria um teólogo liberal. Não sei se a pessoa estaria querendo dizer que não acredito na Bíblia, o que não é verdade, ou se sou retrógrado, o que é quase uma ofensa. Estudamos o texto, como nos é dado, porque é o texto que temos. A teologia não está apenas em determinados textos que possam ser entrecortados para uma melhor compreensão. Nisto, tanto a teologia liberal, como a conservadora, também padecem do mesmo mal. Talvez você não tenha tido acesso a teólogos liberais, mas com certeza já teve contato com algum comentário bíblico. Praticamente, qualquer comentário, faz a análise dos textos de forma tão recortada que um estudo em Romanos, por exemplo, poderia estar em I Coríntios, que não faria qualquer diferença. Hoje estamos tentando descobrir uma nova linguagem na interpretação bíblica. A hermenêutica que desponta na atualidade se preocupa em estudar o texto bíblico como exagero de significado, compreensão do imaginário religioso, e a construção desta memória religiosa. Não é necessário ser especialista em línguas originais para se tentar compreender o imaginário que está presente no texto, até porque a exegese não é suficiente para dar conta disso. Diz apenas o que é a palavra, mas será preciso entender de religião para uma observação mais adequada sobre o que tal palavra alcança no universo do sagrado. Só que, para isto, teremos que iniciar uma nova conversa, numa outra ocasião.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
GRAÇA – UMA QUESTÃO DE INCOMPREENSÃO
Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo no dia 27 de janeiro de 2008.
O sr. Aldo é um daqueles nativos que trabalha durante o verão, cuidando do lixo deixado pelos turistas. A gente o chama de “sr.”, mas não é pela idade. Tem lá os seus trinta e tantos anos, varrendo, tirando folhas e fazendo pequenos serviços na limpeza de um camping no município de Bombinhas, SC. Durante o dia faz isso, mas à noite faz uma certa vigilância na entrada, chega gente, sai gente, gente pedindo informação, montando barracas e por aí se vai. Não é preciso dizer que quase não tem escolaridade, se é que tenha alguma. Sua esposa, que não conheço, está com os dois rins condenados. Faz hemodiálise. Seu filho, que tem apenas 14 anos, deixou os estudos e agora praticamente vive em alto-mar em longas temporadas de pesca. Disse ao pai: vou trabalhar para ajudar o senhor a cuidar da minha mãe. E foi, liberando-se de qualquer sonho de criança, sem orkut, messenger, pipa, bicicleta ou bola. No final do ano disse ao pai: juntei dinheiro para dar uma máquina de lavar pra mãe trabalhar menos. E deu mesmo. Depois voltou para o mar a trabalhar mais. Estou preocupado com o meu filho hoje – disse o sr. Aldo – está ventando muito!
Conversávamos sobre a graça de Deus. Não entendo nada da graça de Deus, não tenho um filho em alto-mar, nem problemas de saúde na família, e já estou completando os meus dias. O meu esforço para crer é apenas um sentimento, que não sei se é metafísico, se é alienação, ou poesia, e fico relendo a Fenomenologia do Espírito de Hegel, tentando compreender o que é e como se dá o conhecimento, enquanto o sr. Aldo pensa no vento. A palavra é a mesma, Espírito, pneuma, vento, ou se preferir, ruá, vento também, que a gente sistematizou e transformou num emaranhado de enunciados e ficou discutindo se Ele pode se manifestar desse ou daquele modo, se tal comunidade religiosa está correta em pensar assim ou não. Só que o vento para Sr. Aldo é outro, é aquele que ameaça o filho com o abraço das ondas, e traz do filho o abraço à mãe.
O sr. Aldo acredita na graça de Deus. Falou-me dela. Disse que Deus é bom, tem cuidado de sua família e dado um filho que enfrenta o mar aos quatorze anos. Ao invés de sonhar com uma lost ou quiksilver, sonha em diminuir o sofrimento da mãe. Fiquei ouvindo o sr. Aldo e aprendendo sobre a graça de Deus. Ele falava de pessoas que, por conta de pequenas coisas, se afastam da igreja. O problema mencionado fora o do costume das mulheres cortarem ou não as pontas dos cabelos, que pr’aqueles lados ainda é tabu. Pra quem lê a Fenomenologia do Espírito, tentei me sair bem, dizendo que as pessoas passam a vida toda crendo em alguma coisa e mudar num certo momento seria como se confessassem ter sofrido à toa. Ele me olhou como se admirasse não ter pensando nisso anteriormente, e deve ter ficado impressionado, pois afinal, quem lê Hegel deve ser sabido, fala de coisas que estão além do que a gente vive, coisa que nunca se pensou antes, abstrações, o que não se pode pegar, ou sentir, como o vento e o cheiro do mar. É preciso ter olhos para se ver o que não pode ser visto, sentir o que não pode ser sentido, e pensar no que não pode ser pensado. Ou seja, nada.
Eu sei que você deve estar pensando na confusão que estou fazendo entre graça e sofrimento, isto é, como se fosse necessário o sofrimento para que houvesse graça. Nada disso. Quando afirmo que o sr. Aldo acredita na graça de Deus não é apenas força de expressão. Ele faz parte de uma comunidade religiosa protestante, que confessa com todo ardor que a salvação é única e exclusivamente por meio de Jesus Cristo. No decorrer da conversa disse: o importante é ter Jesus! – enquanto apanhava e fechava o saco de lixo – mas a gente tem que fazer alguma coisa também – continuou. Algo talvez como continuar crendo na presença de Deus apesar dos rins e do filho abraçado pelo vento. Algo como olhar o mar e esperar.
Se a graça não vem pelo sofrimento – e não vem mesmo! – continuar afirmando que ela nos acompanha quando o tal sofrimento acontece, isso é muito mais difícil. Às vezes é fácil crer, especialmente quando se está observando o mar como obra da criação e o vento, na pior das hipóteses, apenas incomoda. Não saberia dizer o que significa o mar quando leva um filho, nem o que seria um vento com cheiro de abraço da morte. Não sei qual a distância entre o poético e o trágico. O sr. Aldo sabe o que significa continuar crendo, apesar de tudo. Graça é graça, não importam as circunstâncias. O sofrimento, no caso, não é punição, não é ausência ou descaso de Deus. É coisa da vida.
Deixamos o camping numa manhã de terça. O tempo estava fechado e ventava muito. Fazia um friozinho, meio de inverno. Deixamos para o sr. Aldo algumas coisas para uma cesta básica e uma pequena oferta. Olhou para nós e sorriu como se tivesse recebido muito: boa viagem – disse ele – que Deus os acompanhe!
Publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo no dia 27 de janeiro de 2008.
O sr. Aldo é um daqueles nativos que trabalha durante o verão, cuidando do lixo deixado pelos turistas. A gente o chama de “sr.”, mas não é pela idade. Tem lá os seus trinta e tantos anos, varrendo, tirando folhas e fazendo pequenos serviços na limpeza de um camping no município de Bombinhas, SC. Durante o dia faz isso, mas à noite faz uma certa vigilância na entrada, chega gente, sai gente, gente pedindo informação, montando barracas e por aí se vai. Não é preciso dizer que quase não tem escolaridade, se é que tenha alguma. Sua esposa, que não conheço, está com os dois rins condenados. Faz hemodiálise. Seu filho, que tem apenas 14 anos, deixou os estudos e agora praticamente vive em alto-mar em longas temporadas de pesca. Disse ao pai: vou trabalhar para ajudar o senhor a cuidar da minha mãe. E foi, liberando-se de qualquer sonho de criança, sem orkut, messenger, pipa, bicicleta ou bola. No final do ano disse ao pai: juntei dinheiro para dar uma máquina de lavar pra mãe trabalhar menos. E deu mesmo. Depois voltou para o mar a trabalhar mais. Estou preocupado com o meu filho hoje – disse o sr. Aldo – está ventando muito!
Conversávamos sobre a graça de Deus. Não entendo nada da graça de Deus, não tenho um filho em alto-mar, nem problemas de saúde na família, e já estou completando os meus dias. O meu esforço para crer é apenas um sentimento, que não sei se é metafísico, se é alienação, ou poesia, e fico relendo a Fenomenologia do Espírito de Hegel, tentando compreender o que é e como se dá o conhecimento, enquanto o sr. Aldo pensa no vento. A palavra é a mesma, Espírito, pneuma, vento, ou se preferir, ruá, vento também, que a gente sistematizou e transformou num emaranhado de enunciados e ficou discutindo se Ele pode se manifestar desse ou daquele modo, se tal comunidade religiosa está correta em pensar assim ou não. Só que o vento para Sr. Aldo é outro, é aquele que ameaça o filho com o abraço das ondas, e traz do filho o abraço à mãe.
O sr. Aldo acredita na graça de Deus. Falou-me dela. Disse que Deus é bom, tem cuidado de sua família e dado um filho que enfrenta o mar aos quatorze anos. Ao invés de sonhar com uma lost ou quiksilver, sonha em diminuir o sofrimento da mãe. Fiquei ouvindo o sr. Aldo e aprendendo sobre a graça de Deus. Ele falava de pessoas que, por conta de pequenas coisas, se afastam da igreja. O problema mencionado fora o do costume das mulheres cortarem ou não as pontas dos cabelos, que pr’aqueles lados ainda é tabu. Pra quem lê a Fenomenologia do Espírito, tentei me sair bem, dizendo que as pessoas passam a vida toda crendo em alguma coisa e mudar num certo momento seria como se confessassem ter sofrido à toa. Ele me olhou como se admirasse não ter pensando nisso anteriormente, e deve ter ficado impressionado, pois afinal, quem lê Hegel deve ser sabido, fala de coisas que estão além do que a gente vive, coisa que nunca se pensou antes, abstrações, o que não se pode pegar, ou sentir, como o vento e o cheiro do mar. É preciso ter olhos para se ver o que não pode ser visto, sentir o que não pode ser sentido, e pensar no que não pode ser pensado. Ou seja, nada.
Eu sei que você deve estar pensando na confusão que estou fazendo entre graça e sofrimento, isto é, como se fosse necessário o sofrimento para que houvesse graça. Nada disso. Quando afirmo que o sr. Aldo acredita na graça de Deus não é apenas força de expressão. Ele faz parte de uma comunidade religiosa protestante, que confessa com todo ardor que a salvação é única e exclusivamente por meio de Jesus Cristo. No decorrer da conversa disse: o importante é ter Jesus! – enquanto apanhava e fechava o saco de lixo – mas a gente tem que fazer alguma coisa também – continuou. Algo talvez como continuar crendo na presença de Deus apesar dos rins e do filho abraçado pelo vento. Algo como olhar o mar e esperar.
Se a graça não vem pelo sofrimento – e não vem mesmo! – continuar afirmando que ela nos acompanha quando o tal sofrimento acontece, isso é muito mais difícil. Às vezes é fácil crer, especialmente quando se está observando o mar como obra da criação e o vento, na pior das hipóteses, apenas incomoda. Não saberia dizer o que significa o mar quando leva um filho, nem o que seria um vento com cheiro de abraço da morte. Não sei qual a distância entre o poético e o trágico. O sr. Aldo sabe o que significa continuar crendo, apesar de tudo. Graça é graça, não importam as circunstâncias. O sofrimento, no caso, não é punição, não é ausência ou descaso de Deus. É coisa da vida.
Deixamos o camping numa manhã de terça. O tempo estava fechado e ventava muito. Fazia um friozinho, meio de inverno. Deixamos para o sr. Aldo algumas coisas para uma cesta básica e uma pequena oferta. Olhou para nós e sorriu como se tivesse recebido muito: boa viagem – disse ele – que Deus os acompanhe!
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
UM AMIGO, NUM MOMENTO DE ORAÇÃO
Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 07 de abril de 2002 - revisado em fevereiro de 2008.
Estamos falando de Jesus no Getsêmani. Um Jesus só. Não precisava ter ficado só. Levara três amigos. Talvez os julgasse mais próximos. Quem sabe aqueles amigos aguardavam um milagre, semelhante ao da transfiguração. Jesus levara amigos porque desejava não estar só na sua noite mais difícil. Noite de angústia. Noite de um estar a sós com Deus, muito diferente. Diferente sim, porque os momentos com Deus faziam parte da vida de Jesus, e aquele não seria novidade. Seria diferente porque se tratava da última estada com os discípulos. Não queria todos, mas alguns. Não queria movimento, mas também não queria solidão. Também não precisava de encorajamento. Aquelas palavras que alguém diz, do tipo: ‘vamos em frente’, ‘você vai vencer’, mas que são apenas retóricas. Quem diz não acredita muito. Diz só para mostrar para o outro que está sentindo alguma empatia. Jesus não queria hipocrisia. Se gostasse de hipócritas estaria acompanhando os fariseus. O que Jesus queria, afinal? Queria amigos. Amigos que ficassem mais ou menos próximos. Daria uma sensação de não estar só. Só que Jesus queria mais. Queria amigos que orassem com e por ele. Ele não estava com medo. Estava apenas triste e muito só.
O trabalho deles seria orar. Jesus não queria ninguém cortando orelha de quem quer que fosse. Não precisava de defensores. Não queria ser defendido. Queria apenas ser acompanhado em oração. Queria que os amigos dessem muita importância à razão da vida dele, que havia sido dedicada totalmente à sua missão em graça. A oração deles mostraria respeito por tudo o que Jesus fizera. Mostraria ainda que eles confiavam na direção espiritual de Jesus – uma espécie de cumplicidade. A oração seria um apoio, um assumir juntos a cruz, mesmo que não fosse tudo isso. Jesus não queria que outro sofresse a sua dor, nem que tomasse o seu lugar. Queria apenas que os seus melhores amigos estivessem com ele em oração.
Só que não deu. Talvez eles achassem que a oração não fosse tão importante assim. Talvez não imaginassem que Jesus estava mesmo falando sério sobre corpo, morte, sangue, etc. Talvez achassem que Jesus era forte demais, afinal alguém que fez tanta coisa saberia se cuidar. Talvez achassem mesmo que poderia ficar para amanhã. Sabe como é, vamos dormir um pouco, descansar, temos tempo, amanhã tudo começa outra vez, blá, blá, blá... Bem, sei lá o que eles achavam. Só sei que dormiram. Não viram o perigo. Não viram a dor. Não atenderam ao pedido. Achavam que estavam passeando numa linda noite iluminada com as estrelas do céu. Lugar lindo, um jardim na madrugada debaixo do som do nada, sem pessoas que os incomodassem pedindo pão,cura, ou cegos que se achavam no direito de pedir alguma coisa, ou ainda sem mulher doente que ficava querendo tocar no mestre, onde já se viu um negócio desses! O lugar era para eles, não para Jesus, e perderam a oportunidade da vivência num momento único e entraram para a história como os amigos que se esqueceram da oração. Seria o último momento, mas eles não sabiam disso. Acho que depois até sofreram. Eu sei que sofrimentos não se comparam, mas uma seria a culpa pela falta de sensibilidade e companheirismo, outro seria o sofrimento da solidão e da cruz. Estar só, não ter amigos, nem mesmo em oração. Não sei se Jesus compreendeu a limitação deles, não sei se não foi interesse dos narradores dos Evangelhos, ou se simplesmente já não haveria o que fazer, ou ainda se a dor fora tanta que não valeria a pena recordar, mas quando Jesus se encontrou outra vez com os seus discípulos, sequer fez referência, muito menos cobranças. Parece que a amizade e oração não se exigem, apenas se espera, nada mais que isso.
Às vezes eu fico pensando que amigo mesmo é aquele que ora pela gente. Que acompanha quieto, não dizendo hipocritamente estar sofrendo como se estivesse no nosso lugar, só por retórica. Amigo mesmo não prefere dormir. Não prefere resolver a culpa com espadas, cortando orelhas e se fazendo de valente. Amigo mesmo apenas ora. Está sempre por perto e acena para gente ‘olha, estou aqui’. A gente vê o amigo e não se sente só, mesmo sabendo dos resultados de como será escrita a nossa história. Só que às vezes, não dá.
publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 07 de abril de 2002 - revisado em fevereiro de 2008.
Estamos falando de Jesus no Getsêmani. Um Jesus só. Não precisava ter ficado só. Levara três amigos. Talvez os julgasse mais próximos. Quem sabe aqueles amigos aguardavam um milagre, semelhante ao da transfiguração. Jesus levara amigos porque desejava não estar só na sua noite mais difícil. Noite de angústia. Noite de um estar a sós com Deus, muito diferente. Diferente sim, porque os momentos com Deus faziam parte da vida de Jesus, e aquele não seria novidade. Seria diferente porque se tratava da última estada com os discípulos. Não queria todos, mas alguns. Não queria movimento, mas também não queria solidão. Também não precisava de encorajamento. Aquelas palavras que alguém diz, do tipo: ‘vamos em frente’, ‘você vai vencer’, mas que são apenas retóricas. Quem diz não acredita muito. Diz só para mostrar para o outro que está sentindo alguma empatia. Jesus não queria hipocrisia. Se gostasse de hipócritas estaria acompanhando os fariseus. O que Jesus queria, afinal? Queria amigos. Amigos que ficassem mais ou menos próximos. Daria uma sensação de não estar só. Só que Jesus queria mais. Queria amigos que orassem com e por ele. Ele não estava com medo. Estava apenas triste e muito só.
O trabalho deles seria orar. Jesus não queria ninguém cortando orelha de quem quer que fosse. Não precisava de defensores. Não queria ser defendido. Queria apenas ser acompanhado em oração. Queria que os amigos dessem muita importância à razão da vida dele, que havia sido dedicada totalmente à sua missão em graça. A oração deles mostraria respeito por tudo o que Jesus fizera. Mostraria ainda que eles confiavam na direção espiritual de Jesus – uma espécie de cumplicidade. A oração seria um apoio, um assumir juntos a cruz, mesmo que não fosse tudo isso. Jesus não queria que outro sofresse a sua dor, nem que tomasse o seu lugar. Queria apenas que os seus melhores amigos estivessem com ele em oração.
Só que não deu. Talvez eles achassem que a oração não fosse tão importante assim. Talvez não imaginassem que Jesus estava mesmo falando sério sobre corpo, morte, sangue, etc. Talvez achassem que Jesus era forte demais, afinal alguém que fez tanta coisa saberia se cuidar. Talvez achassem mesmo que poderia ficar para amanhã. Sabe como é, vamos dormir um pouco, descansar, temos tempo, amanhã tudo começa outra vez, blá, blá, blá... Bem, sei lá o que eles achavam. Só sei que dormiram. Não viram o perigo. Não viram a dor. Não atenderam ao pedido. Achavam que estavam passeando numa linda noite iluminada com as estrelas do céu. Lugar lindo, um jardim na madrugada debaixo do som do nada, sem pessoas que os incomodassem pedindo pão,cura, ou cegos que se achavam no direito de pedir alguma coisa, ou ainda sem mulher doente que ficava querendo tocar no mestre, onde já se viu um negócio desses! O lugar era para eles, não para Jesus, e perderam a oportunidade da vivência num momento único e entraram para a história como os amigos que se esqueceram da oração. Seria o último momento, mas eles não sabiam disso. Acho que depois até sofreram. Eu sei que sofrimentos não se comparam, mas uma seria a culpa pela falta de sensibilidade e companheirismo, outro seria o sofrimento da solidão e da cruz. Estar só, não ter amigos, nem mesmo em oração. Não sei se Jesus compreendeu a limitação deles, não sei se não foi interesse dos narradores dos Evangelhos, ou se simplesmente já não haveria o que fazer, ou ainda se a dor fora tanta que não valeria a pena recordar, mas quando Jesus se encontrou outra vez com os seus discípulos, sequer fez referência, muito menos cobranças. Parece que a amizade e oração não se exigem, apenas se espera, nada mais que isso.
Às vezes eu fico pensando que amigo mesmo é aquele que ora pela gente. Que acompanha quieto, não dizendo hipocritamente estar sofrendo como se estivesse no nosso lugar, só por retórica. Amigo mesmo não prefere dormir. Não prefere resolver a culpa com espadas, cortando orelhas e se fazendo de valente. Amigo mesmo apenas ora. Está sempre por perto e acena para gente ‘olha, estou aqui’. A gente vê o amigo e não se sente só, mesmo sabendo dos resultados de como será escrita a nossa história. Só que às vezes, não dá.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
ANO NOVO, VIDA NOVA? – Mais pra Belchior, que pra Cazuza
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Publicado no boletim da igreja batista em Barão Geraldo, 30 e 31 de dezembro de 2007,
por ocasião da passagem de 2007 a 2008.
Tenho aprendido que a vida nova não vem com o tempo, não tem data marcada e não pode ser prevista em calendário, apesar do nosso desejo. O tempo são os trilhos, não os vagões. Desliza-se por eles, mas estes não têm a capacidade de mudar qualquer coisa. É a gente que se muda com o tempo, e não o tempo que muda a gente, ou como diria Einstein, não é o tempo que passa pela gente, mas nós é que passamos pelo tempo. Pode parecer meio confuso, mas a força da vida não está no tempo, mas nas pessoas. O movimento está nas pessoas e não no tempo. Quando então se diz que o tempo dará jeito nisso ou naquilo, é apenas uma metáfora. O tempo não resolve nada, mas é como se a gente quisesse dizer: hoje a minha imaturidade, frente a isso, me impede de tentar resolver tal problema, preciso aprender outras coisas, ter uma consciência mais adequada do significado da vida, para que a minha visão sobre tal coisa seja diferente, e possa vislumbrar novas possibilidades. O ano novo não traz vida nova. Seria mais fácil se fosse assim.
Creio que isso também faz parte da nossa condição passiva em querer entender que as coisas sempre serão mudadas por um artifício. Quero explicar melhor isso. Condição passiva é a nossa espera para que alguém faça alguma coisa que mude toda e qualquer situação desfavorável. Trata-se da loteria, do emprego que “cai do céu”, ou qualquer coisa que possa mudar o rumo de tudo sem qualquer esforço. Já soube de alguém que desejou a morte da esposa (o contrário, também é verdadeiro), pela conveniência e facilidade diante de um processo de separação, sem esforço, mudança ou qualquer aborrecimento. Sem divisão de bens, e o que é melhor, com toda a liberdade e ausência de culpa que se poderia imaginar.
A ausência de esforço passa também pelo discurso neopentecostal, quando se diz que o mal que uma pessoa tem pode imediatamente, mas imediatamente mesmo, ser resolvido e exorcizado de uma pessoa. Nesse discurso, todos são irremediavelmente bons e que qualquer maldade que alguém faça se refere sempre a uma força exterior incontrolável, e que está presente nele, contra a vontade e recebe o nome genérico de demônio. É o poder irresistível, princípio básico do Direito, como algo que alguém faz, mas que era inevitável, demonstrando que o réu não deve ser punido, porque evitar estaria completamente fora das suas possibilidades. É uma forma de fuga, uma maneira de se esperar e aguardar que alguma coisa mude, sem que se faça qualquer esforço para a mudança.
Cazuza estava certo disso quando disse que o tempo não pára. Fez uma música com muita raiva da vida, ameaçando você, e eu, com o mesmo destino e torcendo para que isso acontecesse. Torcia pelo mal inevitável, pois se o tempo não pára, e você não tem como parar o tempo, então é só aguardar que vai chegar a sua vez de sofrer, e sofrer muito! Cazuza sofria do cúmulo da passividade, da impotência e do medo de provocar a mudança necessária. Sentia pena de si mesmo, como uma vítima da vida, mas não desejava mudar nada. Mudar dói, mas aguardar o tempo é pior, porque há a possibilidade de se morrer à espera de um trem, numa estação onde não existem trilhos. Só que esse tipo de morte não dá pra perceber, pois a esperança faz o foco se dispersar, e a pessoa fica esperando enquanto morre, e morre enquanto espera. Está na estação errada, mas a esperança não o permite ver isso. O tempo anestesiou, apenas isso, e não mais que isso. Na frase, John, o tempo andou mexendo com a gente, num comentário a respeito da morte de John Lennon, numa das músicas de Belchior, há uma metáfora de retorno ao velho oeste. Lennon, para Belchior, é o símbolo de tudo o que poderia ser de mais positivo na luta pela vida, em favor da paz em tempo de guerra e acabou, ironicamente, vitimado por uma morte como no tempo das diligências. Depois de tudo o que se pregou e se buscou na temática da paz, voltamos ao tempo das mortes primitivas nos duelos em Laredo ou Kansas City. Belchior diz que a felicidade é uma arma quente, diz e canta em ritmo lembrando o velho oeste, como se estivesse num saloon. É como se, para ele, o tempo tivesse parado: ainda somos tão primitivos quanto os colonizadores da América do Norte e fazemos as mesmas barbáries como no tempo das tribos. O tempo parou, porque o ser humano é o mesmo, e com todo o nosso esforço ainda somos primitivamente iguais: resolvemos as coisas com a lei do menor esforço, à bala.
Desculpe, Cazuza, mas o tempo pára. As decisões são fotografias da vida. Congelam o momento, quando nunca mais poderá ser mudado. Torna-se monolítico, enrijecido e inalterável. A existência não é a condução automática para o futuro, como se pudesse embarcar no rabo de um cometa e ficar sonhando com a vida nas estrelas, ou tentando encontrar o planeta onde, por acaso, se possa viver a vida perfeita, como se tudo fosse um movimento do tempo. Não somos pequenos príncipes viajando pelo rumo que o destino nos leva. Ao contrário disso, também não quer dizer que haja um fatalismo tipo programado da vida como se fosse possível calcular exatamente como isso se dará. Na vida a gente programa uma coisa, e muitas vezes, ou quase sempre, chega-se num ponto bem abaixo da margem, por conta da correnteza. Eu sei que você precisa crer no ano novo, porque é uma oportunidade de se voltar à estaca zero. É uma espécie de ciclo do sagrado, você retorna para o lugar onde tudo começou e tem a oportunidade de escrever tudo de forma bastante diferente. Você e eu precisamos disso. Uma nova oportunidade, sempre é bem vinda. Todavia, há uma necessidade de participação mínima, em que você de forma consciente de deliberada, provoca aquelas mudanças que são essenciais para que a história seja outra. Caso contrário, viveremos um eterno velho oeste, ou numa tribo para ser mais brasileiro: mudam-se as roupas, a fala e o conforto, mas no demais tudo continua como dantes, na terra de Abrantes. Não adianta ficar torcendo para que o tempo também atropele o outro, para que ele seja tão infeliz quanto você. Não se trata de uma condição egoísta, mas apenas movimento. Interfira positivamente na sua vida, e tome as decisões que você já sabe que devem ser tomadas. Como não poderia ser diferente, feliz ano novo!
Publicado no boletim da igreja batista em Barão Geraldo, 30 e 31 de dezembro de 2007,
por ocasião da passagem de 2007 a 2008.
Tenho aprendido que a vida nova não vem com o tempo, não tem data marcada e não pode ser prevista em calendário, apesar do nosso desejo. O tempo são os trilhos, não os vagões. Desliza-se por eles, mas estes não têm a capacidade de mudar qualquer coisa. É a gente que se muda com o tempo, e não o tempo que muda a gente, ou como diria Einstein, não é o tempo que passa pela gente, mas nós é que passamos pelo tempo. Pode parecer meio confuso, mas a força da vida não está no tempo, mas nas pessoas. O movimento está nas pessoas e não no tempo. Quando então se diz que o tempo dará jeito nisso ou naquilo, é apenas uma metáfora. O tempo não resolve nada, mas é como se a gente quisesse dizer: hoje a minha imaturidade, frente a isso, me impede de tentar resolver tal problema, preciso aprender outras coisas, ter uma consciência mais adequada do significado da vida, para que a minha visão sobre tal coisa seja diferente, e possa vislumbrar novas possibilidades. O ano novo não traz vida nova. Seria mais fácil se fosse assim.
Creio que isso também faz parte da nossa condição passiva em querer entender que as coisas sempre serão mudadas por um artifício. Quero explicar melhor isso. Condição passiva é a nossa espera para que alguém faça alguma coisa que mude toda e qualquer situação desfavorável. Trata-se da loteria, do emprego que “cai do céu”, ou qualquer coisa que possa mudar o rumo de tudo sem qualquer esforço. Já soube de alguém que desejou a morte da esposa (o contrário, também é verdadeiro), pela conveniência e facilidade diante de um processo de separação, sem esforço, mudança ou qualquer aborrecimento. Sem divisão de bens, e o que é melhor, com toda a liberdade e ausência de culpa que se poderia imaginar.
A ausência de esforço passa também pelo discurso neopentecostal, quando se diz que o mal que uma pessoa tem pode imediatamente, mas imediatamente mesmo, ser resolvido e exorcizado de uma pessoa. Nesse discurso, todos são irremediavelmente bons e que qualquer maldade que alguém faça se refere sempre a uma força exterior incontrolável, e que está presente nele, contra a vontade e recebe o nome genérico de demônio. É o poder irresistível, princípio básico do Direito, como algo que alguém faz, mas que era inevitável, demonstrando que o réu não deve ser punido, porque evitar estaria completamente fora das suas possibilidades. É uma forma de fuga, uma maneira de se esperar e aguardar que alguma coisa mude, sem que se faça qualquer esforço para a mudança.
Cazuza estava certo disso quando disse que o tempo não pára. Fez uma música com muita raiva da vida, ameaçando você, e eu, com o mesmo destino e torcendo para que isso acontecesse. Torcia pelo mal inevitável, pois se o tempo não pára, e você não tem como parar o tempo, então é só aguardar que vai chegar a sua vez de sofrer, e sofrer muito! Cazuza sofria do cúmulo da passividade, da impotência e do medo de provocar a mudança necessária. Sentia pena de si mesmo, como uma vítima da vida, mas não desejava mudar nada. Mudar dói, mas aguardar o tempo é pior, porque há a possibilidade de se morrer à espera de um trem, numa estação onde não existem trilhos. Só que esse tipo de morte não dá pra perceber, pois a esperança faz o foco se dispersar, e a pessoa fica esperando enquanto morre, e morre enquanto espera. Está na estação errada, mas a esperança não o permite ver isso. O tempo anestesiou, apenas isso, e não mais que isso. Na frase, John, o tempo andou mexendo com a gente, num comentário a respeito da morte de John Lennon, numa das músicas de Belchior, há uma metáfora de retorno ao velho oeste. Lennon, para Belchior, é o símbolo de tudo o que poderia ser de mais positivo na luta pela vida, em favor da paz em tempo de guerra e acabou, ironicamente, vitimado por uma morte como no tempo das diligências. Depois de tudo o que se pregou e se buscou na temática da paz, voltamos ao tempo das mortes primitivas nos duelos em Laredo ou Kansas City. Belchior diz que a felicidade é uma arma quente, diz e canta em ritmo lembrando o velho oeste, como se estivesse num saloon. É como se, para ele, o tempo tivesse parado: ainda somos tão primitivos quanto os colonizadores da América do Norte e fazemos as mesmas barbáries como no tempo das tribos. O tempo parou, porque o ser humano é o mesmo, e com todo o nosso esforço ainda somos primitivamente iguais: resolvemos as coisas com a lei do menor esforço, à bala.
Desculpe, Cazuza, mas o tempo pára. As decisões são fotografias da vida. Congelam o momento, quando nunca mais poderá ser mudado. Torna-se monolítico, enrijecido e inalterável. A existência não é a condução automática para o futuro, como se pudesse embarcar no rabo de um cometa e ficar sonhando com a vida nas estrelas, ou tentando encontrar o planeta onde, por acaso, se possa viver a vida perfeita, como se tudo fosse um movimento do tempo. Não somos pequenos príncipes viajando pelo rumo que o destino nos leva. Ao contrário disso, também não quer dizer que haja um fatalismo tipo programado da vida como se fosse possível calcular exatamente como isso se dará. Na vida a gente programa uma coisa, e muitas vezes, ou quase sempre, chega-se num ponto bem abaixo da margem, por conta da correnteza. Eu sei que você precisa crer no ano novo, porque é uma oportunidade de se voltar à estaca zero. É uma espécie de ciclo do sagrado, você retorna para o lugar onde tudo começou e tem a oportunidade de escrever tudo de forma bastante diferente. Você e eu precisamos disso. Uma nova oportunidade, sempre é bem vinda. Todavia, há uma necessidade de participação mínima, em que você de forma consciente de deliberada, provoca aquelas mudanças que são essenciais para que a história seja outra. Caso contrário, viveremos um eterno velho oeste, ou numa tribo para ser mais brasileiro: mudam-se as roupas, a fala e o conforto, mas no demais tudo continua como dantes, na terra de Abrantes. Não adianta ficar torcendo para que o tempo também atropele o outro, para que ele seja tão infeliz quanto você. Não se trata de uma condição egoísta, mas apenas movimento. Interfira positivamente na sua vida, e tome as decisões que você já sabe que devem ser tomadas. Como não poderia ser diferente, feliz ano novo!
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
SE O PÉ DISSER: PORQUE NÃO SOU MÃO, NÃO SOU DO CORPO; NÃO SERÁ POR ISSO DO CORPO?
prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
A crônica que segue foi publicada pela primeira vez no boletim dominical da Igreja Batista no Jardim Maria do Carmo, em Sorocaba, em 23 de abril de 1995 e novamente no semanário da Igreja Batista em Barão Geraldo em 30 de maio de 2004. Embora os meus leitores sejam poucos, tenho recebido pedidos para publicá-la novamente, e assim dar-lhe uma nova vida, senão no texto, pelo menos na persistência.
O fato é que ninguém imaginava que pé poderia pensar. Afinal, nada mais ridículo que um pé tendo opiniões próprias, visão sobre o mundo, envolvido em rodinhas discutindo política, religião e futebol. Foi então que aconteceu o inesperado. Até para ele foi uma surpresa. Não queria “caminhar” tão longe. Começou com uma fantasia, evoluiu para um sonho, transformou-se numa luta, compôs-se em objetivo de vida, para enfim instaurar-se numa frustração, caminho aberto à neurose, que o desequilibrou a tal ponto de não conhecer-se mais. “Sou necessário, logo o corpo não pode viver sem mim” (silogismo aristotélico). Cansara de ser pé. Queria ser outra coisa qualquer. Quem sabe mão, ou cérebro. Sonhava em comandar o corpo. Sempre reclamava quando aquele o fazia lamear-se, chutar pedra por não estar atento por onde o jogavam. Até parecia ser de propósito, coisa que o pé jamais conseguiu provar, mas não deixou de fazer fofoca sobre isto aos outros membros. Pé também faz fofoca. Foi outra coisa que aprenderam dele, sem dúvida uma surpresa que deu início a um processo sobre o qual o corpo jamais poderia compreender os resultados.
Houve alguém que afirmou ter sido o pé um “bode expiatório”. Todos os membros estavam insatisfeitos fazendo sempre a mesma coisa, na mesma função, com as mesmas características. No levantar da lebre pelo pé, a mão mostrou as suas “asinhas”. Reclamou: “Trabalho tanto !”. De fato: lavava o corpo; consertava o que estava quebrado; coçava a cabeça, o nariz, e ainda “metia a mão” (força de expressão), em “bicho de pé” de um pé pintado pidonho perdido em pó (mão também faz poesia!). Foi na mesma época,que ela lamentou não ser olho. Tentou, mas não conseguiu. Foi por pouco. Faltou o apoio político do braço. Sabe como são as mãos, depois delas, sempre querem o braço! Mas ele não se deixou dobrar. Estava contente com o que fazia. A mão tentava convencê-lo que cansara de trabalhar. Até quando o corpo dormia, a mão não parava. Fosse segurando o cobertor, batendo em pernilongo, ou cobrindo a cabeça, etc., etc., etc.. Não tinha descanso. O que faria ele, o braço, com uma mão em “stress”? Foi em vão! O braço não desejava dar uma mãozinha. Não era sua função. Talvez se lhe oferecessem algo como ser perna. Não que desejasse, mas só para variar um pouquinho. Queria saber por experiência o que significava “bater perna”. Nada de especial, só curiosidade. Experimentar a vida, eis o sentido! O braço também tinha suas fraquezas.
Coitado era mesmo do nariz. Ninguém queria trocar de lugar com ele. O corpo, por azar do destino, era alérgico. Alergia emocional. Deixava o pescoço meio duro, que reclamava de tensão muscular. Com isto quem se dava mal era o nariz. Uma coriza que não parava. Era lenço de um lado, lenço do outro, remédios que se pingava, e nada. Chegara um tempo que estivera assado de tanto espirrar. Ficava vermelho, ninguém soube direito se de doente ou de raiva. “Que coisa mais anti-higiênica” dizia sem ser ouvido. Foi quando a mão reclamou de ajudá-lo e o nariz resolveu entrar em estado de greve: “não respiro,não respiro e não respiro !”. Colocou até uma placa: “Chega de Injustiça”. As letras eram azuis.
No geral, podia-se dizer que era uma luta de classes. Os inferiores, inconformados, queriam ocupar o lugar dos superiores, prepotentes. Diziam sempre que a tragédia dos membros do corpo começara como uma “luta de classes”. Alguém ouviu dizer que começara por um deles que teria aprendido isto em algum lugar. Parece que o olho, sem saber, espiou uma revista no cabeleireiro. Depois de lido, jamais esquecido. Pode-se dizer que não se tratava de consciência política de oprimido. Era quase uma revolta acéfala, tipo terceiro mundo, corpo-a-corpo, ou melhor, membro-a-membro, no princípio com as armas mais primitivas possíveis, e depois, inspirados em Gandhi, a resistência pacífica. Não foi possível saber, no final de tudo, onde e quando tudo começara, ou quem estava com a razão. Razão é um estado relativo, muitas vezes. Está com a razão, quem está com razão, e ponto final. Uma espécie de autoritarismo individualista, como se razão fosse unilateral. Nada mais insuportável que uma orelha autoritária!
A história terminou com um nariz que não respirava. Pernas que não andavam. Mãos que não seguravam. “Cérebro que só queria mandar”, criticava a oposição. Braços que tanto faz,como tanto fizesse, era a mesma coisa. Um pescoço desatento a tudo, envolto com as suas dores.E os olhos? Eram verdes! E foi assim que o corpo, primeiro ficou doente, depois morreu. Nunca mais os membros brigaram.
A crônica que segue foi publicada pela primeira vez no boletim dominical da Igreja Batista no Jardim Maria do Carmo, em Sorocaba, em 23 de abril de 1995 e novamente no semanário da Igreja Batista em Barão Geraldo em 30 de maio de 2004. Embora os meus leitores sejam poucos, tenho recebido pedidos para publicá-la novamente, e assim dar-lhe uma nova vida, senão no texto, pelo menos na persistência.
O fato é que ninguém imaginava que pé poderia pensar. Afinal, nada mais ridículo que um pé tendo opiniões próprias, visão sobre o mundo, envolvido em rodinhas discutindo política, religião e futebol. Foi então que aconteceu o inesperado. Até para ele foi uma surpresa. Não queria “caminhar” tão longe. Começou com uma fantasia, evoluiu para um sonho, transformou-se numa luta, compôs-se em objetivo de vida, para enfim instaurar-se numa frustração, caminho aberto à neurose, que o desequilibrou a tal ponto de não conhecer-se mais. “Sou necessário, logo o corpo não pode viver sem mim” (silogismo aristotélico). Cansara de ser pé. Queria ser outra coisa qualquer. Quem sabe mão, ou cérebro. Sonhava em comandar o corpo. Sempre reclamava quando aquele o fazia lamear-se, chutar pedra por não estar atento por onde o jogavam. Até parecia ser de propósito, coisa que o pé jamais conseguiu provar, mas não deixou de fazer fofoca sobre isto aos outros membros. Pé também faz fofoca. Foi outra coisa que aprenderam dele, sem dúvida uma surpresa que deu início a um processo sobre o qual o corpo jamais poderia compreender os resultados.
Houve alguém que afirmou ter sido o pé um “bode expiatório”. Todos os membros estavam insatisfeitos fazendo sempre a mesma coisa, na mesma função, com as mesmas características. No levantar da lebre pelo pé, a mão mostrou as suas “asinhas”. Reclamou: “Trabalho tanto !”. De fato: lavava o corpo; consertava o que estava quebrado; coçava a cabeça, o nariz, e ainda “metia a mão” (força de expressão), em “bicho de pé” de um pé pintado pidonho perdido em pó (mão também faz poesia!). Foi na mesma época,que ela lamentou não ser olho. Tentou, mas não conseguiu. Foi por pouco. Faltou o apoio político do braço. Sabe como são as mãos, depois delas, sempre querem o braço! Mas ele não se deixou dobrar. Estava contente com o que fazia. A mão tentava convencê-lo que cansara de trabalhar. Até quando o corpo dormia, a mão não parava. Fosse segurando o cobertor, batendo em pernilongo, ou cobrindo a cabeça, etc., etc., etc.. Não tinha descanso. O que faria ele, o braço, com uma mão em “stress”? Foi em vão! O braço não desejava dar uma mãozinha. Não era sua função. Talvez se lhe oferecessem algo como ser perna. Não que desejasse, mas só para variar um pouquinho. Queria saber por experiência o que significava “bater perna”. Nada de especial, só curiosidade. Experimentar a vida, eis o sentido! O braço também tinha suas fraquezas.
Coitado era mesmo do nariz. Ninguém queria trocar de lugar com ele. O corpo, por azar do destino, era alérgico. Alergia emocional. Deixava o pescoço meio duro, que reclamava de tensão muscular. Com isto quem se dava mal era o nariz. Uma coriza que não parava. Era lenço de um lado, lenço do outro, remédios que se pingava, e nada. Chegara um tempo que estivera assado de tanto espirrar. Ficava vermelho, ninguém soube direito se de doente ou de raiva. “Que coisa mais anti-higiênica” dizia sem ser ouvido. Foi quando a mão reclamou de ajudá-lo e o nariz resolveu entrar em estado de greve: “não respiro,não respiro e não respiro !”. Colocou até uma placa: “Chega de Injustiça”. As letras eram azuis.
No geral, podia-se dizer que era uma luta de classes. Os inferiores, inconformados, queriam ocupar o lugar dos superiores, prepotentes. Diziam sempre que a tragédia dos membros do corpo começara como uma “luta de classes”. Alguém ouviu dizer que começara por um deles que teria aprendido isto em algum lugar. Parece que o olho, sem saber, espiou uma revista no cabeleireiro. Depois de lido, jamais esquecido. Pode-se dizer que não se tratava de consciência política de oprimido. Era quase uma revolta acéfala, tipo terceiro mundo, corpo-a-corpo, ou melhor, membro-a-membro, no princípio com as armas mais primitivas possíveis, e depois, inspirados em Gandhi, a resistência pacífica. Não foi possível saber, no final de tudo, onde e quando tudo começara, ou quem estava com a razão. Razão é um estado relativo, muitas vezes. Está com a razão, quem está com razão, e ponto final. Uma espécie de autoritarismo individualista, como se razão fosse unilateral. Nada mais insuportável que uma orelha autoritária!
A história terminou com um nariz que não respirava. Pernas que não andavam. Mãos que não seguravam. “Cérebro que só queria mandar”, criticava a oposição. Braços que tanto faz,como tanto fizesse, era a mesma coisa. Um pescoço desatento a tudo, envolto com as suas dores.E os olhos? Eram verdes! E foi assim que o corpo, primeiro ficou doente, depois morreu. Nunca mais os membros brigaram.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
JESUS NASCEU EM DEZEMBRO? – O SAGRADO E O TEMPO
Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Qualquer pergunta que se faça sobre Jesus ter ou não nascido em dezembro, não tem sentido. A questão não é o dia certo, mas o tempo tido como sagrado. É preciso ter uma data, pois sem data é como se na história não tivesse acontecido nada. Só com uma data é possível viver outra vez o passado, e voltar no tempo e estar lá quando tudo aconteceu, quando as coisas saíram quentinhas do forno aceso pela primeira chama, ainda esfumaçando com cheiro de massa e manteiga derretida. É tão forte que a gente chega a sentir saudade do primeiro século, como se tivesse vivido naquela época. Achamos que se tivéssemos estado lá, quando Jesus exerceu o ministério, iríamos entender tudo o que ele ensinou, e nos colocaríamos contra aqueles fariseus prepotentes que não sabiam de nada. Iríamos viver o início puro, ver Jesus andando pela Galiléia, por sobre o mar, e não somente iríamos nos certificar de que tudo foi de fato verdade, como observaríamos os detalhes de forma direta, sem as interpretações intermediárias que só parecem querer confundir.
Estamos no centro do debate sobre tempo e a religião, porque o Natal é símbolo da pureza do nascimento da fé cristã, vindo de uma maternidade pura, virgem – o que parece óbvio, uma pureza antes do nascimento. Isso não é ruim, claro que não! Passa a ser uma espécie de sonho, porque você pensa e volta ao passado, pensa na estrela e fica se perguntando que tamanho teria tido tal estrela para que todo o mundo pudesse ver, como é que uma estrela fica parada em cima de um lugar, iluminando o centro do mundo e do tempo? - e a única imagem que sobra pra você é como se fosse uma imensa lanterna, na melhor das hipóteses um refletor enorme, aquele facho restrito que se encontra em qualquer pintura, desenho ou coisa parecida, que se refira ao Natal e sua enigmática estrela, solitariamente iluminando um barraco. Tem gente que diz ter sido um planeta. Tem gente que vai dizer que foi um cometa! Tem gente que vai dizer até que foram os extraterrestres – é mole? Você fica e prefere a lanterna, mas isso não importa muito, porque a estrela pra você lembra sempre a promessa feita a Abraão, de uma grande e imensa nação, com tanta gente que nem a matemática daria conta, gente pra mais de metro espalhada por esse mundão. Lembra ainda o disse Deus e haja luz. E houve luz. Onde havia trevas, agora haveria luz; e os antigos ficavam olhando e contemplando pensando como seria possível ter tanta coisa grudada lá em cima – um dia tudo vai cair, só pode ser isso! Medo do imenso!
A estrela não é estrela, a estrebaria não é estrebaria. É apenas o lugar e o tempo onde nasce o sagrado. Deus entra na história da humanidade, sem pedir licença – a natureza tem que reverenciar (apontar o lugar, ou apenas se curvar?). Pastores, que a gente não sabe de onde, teriam sido os primeiros a tomar conhecimento. Conhecimento direto – o que havia de mais sagrado conversando com gente que era o símbolo da simplicidade. Lucas é cuidadoso em mostrar que o anúncio não fora dado no templo, aos profissionais da religião, aos que chamavam para si a responsabilidade de interpretar corretamente o que de fato deveria ou não ser aceito como válido. Tais profissionais da letra tentavam vasculhar a história e os detalhes da Lei de Moisés, explicando os pontinhos e os cantinhos dos desenhos quadrados do alfabeto sagrado. Lucas esquece isso e diz que as novas eram para todo o povo, coisa popular, de gente simples, gente que estava no campo e não no templo, que cuidava de ovelhas e não de letra, gente que viu uma manifestação de Deus fora de Jerusalém, o que era uma heresia completa - coisa de quem não sabe direito nem o que é certo, pobres analfabetos - gente bruta que vivia em barracos contemplando um Deus que entrava para a história numa estrebaria. Ora bolas, que coisa mais sem sentido! É aí que está o segredo: quando o sagrado e o tempo se encontram, não é para ter sentido, é apenas para ser pleno, centro, totalidade, só isso.
O lugar e o tempo não poderiam ter sido apontados por uma pessoa, somente e tão somente por uma estrela, inacessível estrela, uma testemunha que não deixou nada escrito porque estrela não escreve, não pode ser interrogada, nem aprisionada, porque fica lá em cima, lá longe, lá onde não se alcança, onde está a promessa feita a Abraão e onde reside o ato sublime do haja luz. Rastro de luz, não é rastro. Daí quem não sabe o que significa o Natal fica procurando cometas. São os mesmos que acham que o Natal se resume a uma mensagem de paz. Só isso? E os anjos? Quem vai perguntar para um anjo se isso foi assim mesmo? Anjo também não escreve. Só que fala. Lança a palavra que não pôde ser gravada, não tem timbre ou musicalidade. Tudo se perde, só para você ficar com aquela sensação de que deve ter sido muito bom, superlativamente maravilhoso.
Quem pode contar o tempo de Jesus? Ao ser introduzido no mundo, o início do início não poderia se perder. Tem que ser de uma virgem, tem que haver uma estrela que atravessou o céu, ninguém sabendo donde veio e ninguém diz para onde foi, e tem que haver pastores e anjos cantando por tudo quanto é canto. Terá que ser numa estrebaria, num lugar longe, fora do discurso religioso formal, lá no meio do campo, numa terra de ninguém, que não havia quem desse crédito, um lugar miserável e de gente desprezível. Longe do centro religioso. Jerusalém de gente polida que se sentia o centro do mundo. Seria o centro de morte, nada mais que isso, e entraria para a história como a cidade onde Deus desfilou a sua morte, caminhou pelas ruas derramando sangue e carregando uma cruz. Jerusalém era tão indigna que nem dentro dela pôde a morte acontecer. A cidade da habitação de Deus, desfilando a morte do próprio Deus, num dia de páscoa e libertação! Quase um sábado! Jerusalém, sem nascimento e sem morte. Apenas uma estrela, que passou pelo alto de suas casas e foi brilhar num outro canto, lá longe onde tem gente que não se sabe quem é, sem nome e sem passado, apenas pastores.
O Natal pode ter uma mensagem de paz, mas não é só isso. É o tempo que não pode ser contado do mistério de Deus que se fez homem; de um Deus que já era antes e continuou sendo, nascido em meio a milagres que ninguém entende ou explica. Um tempo que ninguém pode contar, porque já era antes de ser e continuou sendo depois que não era mais. Traduzindo: quando Jesus nasceu, já existia, e quando morreu continuou existindo. Se você acha que isso é absurdo, é porque não conseguiu ainda entender que o tempo do sagrado é eterno, não tem um antes, nem um depois, apenas um sempre, um eterno presente que se repete como se fosse novo. Depois disso você pode dizer que o Natal representa paz, mas primeiro precisa compreender que se trata de Deus Conosco – o impossível eterno que coube dentro do nosso pequeno e limitado tempo. Não importa que não tenha sido no dia 25 de dezembro.
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Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 23 de dezembro de 2007.
Rua Luis Vicentim, 284 – Próximo ao Terminal de Ônibus
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Cultos: às quartas, 20h; aos domingos 9h e 19h30min
Qualquer pergunta que se faça sobre Jesus ter ou não nascido em dezembro, não tem sentido. A questão não é o dia certo, mas o tempo tido como sagrado. É preciso ter uma data, pois sem data é como se na história não tivesse acontecido nada. Só com uma data é possível viver outra vez o passado, e voltar no tempo e estar lá quando tudo aconteceu, quando as coisas saíram quentinhas do forno aceso pela primeira chama, ainda esfumaçando com cheiro de massa e manteiga derretida. É tão forte que a gente chega a sentir saudade do primeiro século, como se tivesse vivido naquela época. Achamos que se tivéssemos estado lá, quando Jesus exerceu o ministério, iríamos entender tudo o que ele ensinou, e nos colocaríamos contra aqueles fariseus prepotentes que não sabiam de nada. Iríamos viver o início puro, ver Jesus andando pela Galiléia, por sobre o mar, e não somente iríamos nos certificar de que tudo foi de fato verdade, como observaríamos os detalhes de forma direta, sem as interpretações intermediárias que só parecem querer confundir.
Estamos no centro do debate sobre tempo e a religião, porque o Natal é símbolo da pureza do nascimento da fé cristã, vindo de uma maternidade pura, virgem – o que parece óbvio, uma pureza antes do nascimento. Isso não é ruim, claro que não! Passa a ser uma espécie de sonho, porque você pensa e volta ao passado, pensa na estrela e fica se perguntando que tamanho teria tido tal estrela para que todo o mundo pudesse ver, como é que uma estrela fica parada em cima de um lugar, iluminando o centro do mundo e do tempo? - e a única imagem que sobra pra você é como se fosse uma imensa lanterna, na melhor das hipóteses um refletor enorme, aquele facho restrito que se encontra em qualquer pintura, desenho ou coisa parecida, que se refira ao Natal e sua enigmática estrela, solitariamente iluminando um barraco. Tem gente que diz ter sido um planeta. Tem gente que vai dizer que foi um cometa! Tem gente que vai dizer até que foram os extraterrestres – é mole? Você fica e prefere a lanterna, mas isso não importa muito, porque a estrela pra você lembra sempre a promessa feita a Abraão, de uma grande e imensa nação, com tanta gente que nem a matemática daria conta, gente pra mais de metro espalhada por esse mundão. Lembra ainda o disse Deus e haja luz. E houve luz. Onde havia trevas, agora haveria luz; e os antigos ficavam olhando e contemplando pensando como seria possível ter tanta coisa grudada lá em cima – um dia tudo vai cair, só pode ser isso! Medo do imenso!
A estrela não é estrela, a estrebaria não é estrebaria. É apenas o lugar e o tempo onde nasce o sagrado. Deus entra na história da humanidade, sem pedir licença – a natureza tem que reverenciar (apontar o lugar, ou apenas se curvar?). Pastores, que a gente não sabe de onde, teriam sido os primeiros a tomar conhecimento. Conhecimento direto – o que havia de mais sagrado conversando com gente que era o símbolo da simplicidade. Lucas é cuidadoso em mostrar que o anúncio não fora dado no templo, aos profissionais da religião, aos que chamavam para si a responsabilidade de interpretar corretamente o que de fato deveria ou não ser aceito como válido. Tais profissionais da letra tentavam vasculhar a história e os detalhes da Lei de Moisés, explicando os pontinhos e os cantinhos dos desenhos quadrados do alfabeto sagrado. Lucas esquece isso e diz que as novas eram para todo o povo, coisa popular, de gente simples, gente que estava no campo e não no templo, que cuidava de ovelhas e não de letra, gente que viu uma manifestação de Deus fora de Jerusalém, o que era uma heresia completa - coisa de quem não sabe direito nem o que é certo, pobres analfabetos - gente bruta que vivia em barracos contemplando um Deus que entrava para a história numa estrebaria. Ora bolas, que coisa mais sem sentido! É aí que está o segredo: quando o sagrado e o tempo se encontram, não é para ter sentido, é apenas para ser pleno, centro, totalidade, só isso.
O lugar e o tempo não poderiam ter sido apontados por uma pessoa, somente e tão somente por uma estrela, inacessível estrela, uma testemunha que não deixou nada escrito porque estrela não escreve, não pode ser interrogada, nem aprisionada, porque fica lá em cima, lá longe, lá onde não se alcança, onde está a promessa feita a Abraão e onde reside o ato sublime do haja luz. Rastro de luz, não é rastro. Daí quem não sabe o que significa o Natal fica procurando cometas. São os mesmos que acham que o Natal se resume a uma mensagem de paz. Só isso? E os anjos? Quem vai perguntar para um anjo se isso foi assim mesmo? Anjo também não escreve. Só que fala. Lança a palavra que não pôde ser gravada, não tem timbre ou musicalidade. Tudo se perde, só para você ficar com aquela sensação de que deve ter sido muito bom, superlativamente maravilhoso.
Quem pode contar o tempo de Jesus? Ao ser introduzido no mundo, o início do início não poderia se perder. Tem que ser de uma virgem, tem que haver uma estrela que atravessou o céu, ninguém sabendo donde veio e ninguém diz para onde foi, e tem que haver pastores e anjos cantando por tudo quanto é canto. Terá que ser numa estrebaria, num lugar longe, fora do discurso religioso formal, lá no meio do campo, numa terra de ninguém, que não havia quem desse crédito, um lugar miserável e de gente desprezível. Longe do centro religioso. Jerusalém de gente polida que se sentia o centro do mundo. Seria o centro de morte, nada mais que isso, e entraria para a história como a cidade onde Deus desfilou a sua morte, caminhou pelas ruas derramando sangue e carregando uma cruz. Jerusalém era tão indigna que nem dentro dela pôde a morte acontecer. A cidade da habitação de Deus, desfilando a morte do próprio Deus, num dia de páscoa e libertação! Quase um sábado! Jerusalém, sem nascimento e sem morte. Apenas uma estrela, que passou pelo alto de suas casas e foi brilhar num outro canto, lá longe onde tem gente que não se sabe quem é, sem nome e sem passado, apenas pastores.
O Natal pode ter uma mensagem de paz, mas não é só isso. É o tempo que não pode ser contado do mistério de Deus que se fez homem; de um Deus que já era antes e continuou sendo, nascido em meio a milagres que ninguém entende ou explica. Um tempo que ninguém pode contar, porque já era antes de ser e continuou sendo depois que não era mais. Traduzindo: quando Jesus nasceu, já existia, e quando morreu continuou existindo. Se você acha que isso é absurdo, é porque não conseguiu ainda entender que o tempo do sagrado é eterno, não tem um antes, nem um depois, apenas um sempre, um eterno presente que se repete como se fosse novo. Depois disso você pode dizer que o Natal representa paz, mas primeiro precisa compreender que se trata de Deus Conosco – o impossível eterno que coube dentro do nosso pequeno e limitado tempo. Não importa que não tenha sido no dia 25 de dezembro.
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Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 23 de dezembro de 2007.
Rua Luis Vicentim, 284 – Próximo ao Terminal de Ônibus
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Cultos: às quartas, 20h; aos domingos 9h e 19h30min
Em Busca de Sentido
EM BUSCA DE SENTIDO
Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Vou começar com uma historinha. Estava numa reunião, num grupo de pastores. Não havia assunto proeminente, mas lá pelas tantas o orador iniciou o seu discurso tentando nos convencer sobre a importância do texto bíblico. Num dado momento ele olhou para mim e disse que tem feito a leitura de determinados boletins que sequer mencionam uma passagem das Escrituras. Aquilo, obviamente, e desde então, me tirou o sono. Lembro-me de quando os pregadores utilizavam temas pessoais de seus ouvintes, os quais conhecia e achava relevantes para ser assunto de sermão, e viajei no tempo da tv branco e preto, com perninhas no próprio aparelho, à válvula, lá no tempo da transmissão da copa do mundo com bolinha. Não vou explicar isso, quem é do tempo se lembra. Não cheguei à conclusão de que o assunto era comigo por intuição. Também sei fazer conta. Eliminei os pastores auxiliares que estavam presentes, e não escrevem meditações de boletins. Depois eliminei os pastores das igrejas que não têm boletim. Eliminei também (desculpe a referência), os que não têm condições de escrever. Eliminei as missões, algumas não têm boletim, outras são supervisionadas. Eliminei a igreja do pregador, é claro, porque certamente não falava de si. Eliminei ainda os pastores que não pastoreiam. Eliminei ainda os pastores e igrejas ausentes, porque a probabilidade de que estivesse falando para alguém que não poderia escutá-lo deveria ser mínima. Depois pensei quais as meditações de boletins poderiam merecer alguma atenção, e dentre estas, quais poderiam ser elevadas ao status de receber uma citação no horário nobre do sermão. Somei isso com a referência direta no momento da expressão da fala e, com a probabilidade de uma em dez mil duzentos e vinte nove casos, não tive dúvidas: era comigo.
Há um sentido para tudo. Há também sempre uma tentativa de explicação para qualquer coisa. Pode ser que eu tenha ficado feliz em incomodar: quem não incomoda não é visto. Pode ser que a pessoa tenha feito a leitura errada, já que a pastoral é dirigida para uma comunidade específica, que na sua autonomia, prefere um discurso assim. Pode ser que a pessoa tenha apanhado uma única meditação, numa única vez, e generalizado de forma equivocada. Pode ser que a pessoa entenda que a Bíblia só aparece quando é citada, mas não tem condições de entender os princípios bíblicos que estão num discurso. Isso sem falar nas questões pessoais, conscientes ou não, que contribuíram para que tal julgamento fosse formado. Nesse assunto eu não entro. Tenho juízo. As leituras que buscam um sentido são muitas e estão influenciadas pelo mundo de quem interpreta. Os horizontes das pessoas são diferentes. Olhando pela sacada de meu apartamento, vejo alguns prédios. Se eu nunca tivesse saído de casa, não saberia que a vida não termina no prédio da frente. Cada um enxerga o que pode, e muitas vezes só o que quer.
Não estou escrevendo isso de graça. Para não decepcionar aquele pregador, e para que você também não passe a pensar como ele, estive nessa semana lendo o texto de Neemias. O capítulo 6 traz uma história de erro de interpretação. Sambalate e sua turma desconfiaram da reconstrução dos muros de Jerusalém. Primeiro devem ter esperado para ver se de fato seria possível reconstruí-los. Passada essa primeira etapa, Sambalate enviou mensageiros marcando um encontro com Neemias no vale do Ono, o que este recusou. Fez isso insistentemente. Na quinta vez foi mais preciso, e disse que os judeus haviam se tornado ameaçadores e que ouvira sobre Neemias se tornar o novo rei. Mais que isso, soubera que o próprio Neemias colocara profetas para profetizarem em seu favor, confirmando o seu reinado. É claro que Neemias negou tudo. Entretanto, a sua vida ainda estava ameaçada por aquela interpretação. Como as portas do muro ainda não tinham sido colocadas na muralha, o único lugar de segurança que poderia restar era o templo. Daí entra um outro personagem, Delaías, que tentou convencer Neemias a se esconder lá. Ora, isso representaria a profanação do templo, além de Neemias demonstrar uma extrema insegurança. Caso fizesse isso, os próprios judeus não iriam querê-lo mais. Neemias descobriu depois que Delaías havia sido comprado para fazer isso. Não foi uma guerra com armas, mas com palavras e estava em jogo o imaginário religioso. A história acaba aí. O final do capítulo 6, v. 15 em diante trata de outro assunto. Sambalate estava equivocado, mas certamente morreu com a desconfiança e se pudesse teria acabado com vida de Neemias.
O mundo é feito por interpretações. Em qualquer lugar que a gente se depara com qualquer coisa, estará pensando em como aquilo pode fazer algum sentido. Somamos coisas, julgamos aparências, transigimos fronteiras, mencionamos um olhar, fazemos conta em termos de probabilidade para a compreensão do que de fato está acontecendo. Não podemos evitar isso, pois interpretar é viver, e a vida só acontece quando pode sugerir um sentido, mesmo que a gente nunca saiba direito o que de fato significa. Em alguns casos as emoções se misturam tanto às interpretações que a gente vê tudo com paixão e não consegue enxergar outra coisa. Nem sempre conseguimos ser frios, matemáticos, menos intuitivos. Quando se lida com fé então, aí é quase paixão pura. O mesmo se dá quando se trata de relacionamentos, questões familiares, pessoas feridas e coisas dessa natureza. Os caminhos ficam entrecortados com tantas vielas, que a gente não sabe se está indo ou vindo, descendo ou subindo, sofrendo ou sorrindo.
Já superei a crise do boletim e Sambalate já morreu. Quando isso acontece, até parece que nunca houve nada. Contudo creio que a melhor parte é a gente sempre se perguntar: e se eu estiver errado? Não é uma pergunta pra causar insegurança, mas pra gerar uma pitadinha de humildade. Acho que ajuda muito: faz a gente ler um texto com outros olhos e pode evitar uma guerra.
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Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 06 de janeiro de 2008.
Rua Luis Vicentim, 284 – Próximo ao Terminal de Ônibus
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Horário de Cultos: Quartas, 20h e Domingos 9h e 19h30min.
Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Vou começar com uma historinha. Estava numa reunião, num grupo de pastores. Não havia assunto proeminente, mas lá pelas tantas o orador iniciou o seu discurso tentando nos convencer sobre a importância do texto bíblico. Num dado momento ele olhou para mim e disse que tem feito a leitura de determinados boletins que sequer mencionam uma passagem das Escrituras. Aquilo, obviamente, e desde então, me tirou o sono. Lembro-me de quando os pregadores utilizavam temas pessoais de seus ouvintes, os quais conhecia e achava relevantes para ser assunto de sermão, e viajei no tempo da tv branco e preto, com perninhas no próprio aparelho, à válvula, lá no tempo da transmissão da copa do mundo com bolinha. Não vou explicar isso, quem é do tempo se lembra. Não cheguei à conclusão de que o assunto era comigo por intuição. Também sei fazer conta. Eliminei os pastores auxiliares que estavam presentes, e não escrevem meditações de boletins. Depois eliminei os pastores das igrejas que não têm boletim. Eliminei também (desculpe a referência), os que não têm condições de escrever. Eliminei as missões, algumas não têm boletim, outras são supervisionadas. Eliminei a igreja do pregador, é claro, porque certamente não falava de si. Eliminei ainda os pastores que não pastoreiam. Eliminei ainda os pastores e igrejas ausentes, porque a probabilidade de que estivesse falando para alguém que não poderia escutá-lo deveria ser mínima. Depois pensei quais as meditações de boletins poderiam merecer alguma atenção, e dentre estas, quais poderiam ser elevadas ao status de receber uma citação no horário nobre do sermão. Somei isso com a referência direta no momento da expressão da fala e, com a probabilidade de uma em dez mil duzentos e vinte nove casos, não tive dúvidas: era comigo.
Há um sentido para tudo. Há também sempre uma tentativa de explicação para qualquer coisa. Pode ser que eu tenha ficado feliz em incomodar: quem não incomoda não é visto. Pode ser que a pessoa tenha feito a leitura errada, já que a pastoral é dirigida para uma comunidade específica, que na sua autonomia, prefere um discurso assim. Pode ser que a pessoa tenha apanhado uma única meditação, numa única vez, e generalizado de forma equivocada. Pode ser que a pessoa entenda que a Bíblia só aparece quando é citada, mas não tem condições de entender os princípios bíblicos que estão num discurso. Isso sem falar nas questões pessoais, conscientes ou não, que contribuíram para que tal julgamento fosse formado. Nesse assunto eu não entro. Tenho juízo. As leituras que buscam um sentido são muitas e estão influenciadas pelo mundo de quem interpreta. Os horizontes das pessoas são diferentes. Olhando pela sacada de meu apartamento, vejo alguns prédios. Se eu nunca tivesse saído de casa, não saberia que a vida não termina no prédio da frente. Cada um enxerga o que pode, e muitas vezes só o que quer.
Não estou escrevendo isso de graça. Para não decepcionar aquele pregador, e para que você também não passe a pensar como ele, estive nessa semana lendo o texto de Neemias. O capítulo 6 traz uma história de erro de interpretação. Sambalate e sua turma desconfiaram da reconstrução dos muros de Jerusalém. Primeiro devem ter esperado para ver se de fato seria possível reconstruí-los. Passada essa primeira etapa, Sambalate enviou mensageiros marcando um encontro com Neemias no vale do Ono, o que este recusou. Fez isso insistentemente. Na quinta vez foi mais preciso, e disse que os judeus haviam se tornado ameaçadores e que ouvira sobre Neemias se tornar o novo rei. Mais que isso, soubera que o próprio Neemias colocara profetas para profetizarem em seu favor, confirmando o seu reinado. É claro que Neemias negou tudo. Entretanto, a sua vida ainda estava ameaçada por aquela interpretação. Como as portas do muro ainda não tinham sido colocadas na muralha, o único lugar de segurança que poderia restar era o templo. Daí entra um outro personagem, Delaías, que tentou convencer Neemias a se esconder lá. Ora, isso representaria a profanação do templo, além de Neemias demonstrar uma extrema insegurança. Caso fizesse isso, os próprios judeus não iriam querê-lo mais. Neemias descobriu depois que Delaías havia sido comprado para fazer isso. Não foi uma guerra com armas, mas com palavras e estava em jogo o imaginário religioso. A história acaba aí. O final do capítulo 6, v. 15 em diante trata de outro assunto. Sambalate estava equivocado, mas certamente morreu com a desconfiança e se pudesse teria acabado com vida de Neemias.
O mundo é feito por interpretações. Em qualquer lugar que a gente se depara com qualquer coisa, estará pensando em como aquilo pode fazer algum sentido. Somamos coisas, julgamos aparências, transigimos fronteiras, mencionamos um olhar, fazemos conta em termos de probabilidade para a compreensão do que de fato está acontecendo. Não podemos evitar isso, pois interpretar é viver, e a vida só acontece quando pode sugerir um sentido, mesmo que a gente nunca saiba direito o que de fato significa. Em alguns casos as emoções se misturam tanto às interpretações que a gente vê tudo com paixão e não consegue enxergar outra coisa. Nem sempre conseguimos ser frios, matemáticos, menos intuitivos. Quando se lida com fé então, aí é quase paixão pura. O mesmo se dá quando se trata de relacionamentos, questões familiares, pessoas feridas e coisas dessa natureza. Os caminhos ficam entrecortados com tantas vielas, que a gente não sabe se está indo ou vindo, descendo ou subindo, sofrendo ou sorrindo.
Já superei a crise do boletim e Sambalate já morreu. Quando isso acontece, até parece que nunca houve nada. Contudo creio que a melhor parte é a gente sempre se perguntar: e se eu estiver errado? Não é uma pergunta pra causar insegurança, mas pra gerar uma pitadinha de humildade. Acho que ajuda muito: faz a gente ler um texto com outros olhos e pode evitar uma guerra.
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Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 06 de janeiro de 2008.
Rua Luis Vicentim, 284 – Próximo ao Terminal de Ônibus
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Horário de Cultos: Quartas, 20h e Domingos 9h e 19h30min.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Nosso Blog está no ar!
Olá pessoal!O Blog da Família Batista em Barão Geraldo está no ar!
Esse é um espaço para reflexão diária. Aqui serão postadas mensagens e devocionais do pastor Nathanael. Comentários são bem vindos, assim como sugestões e trocas de idéias. Vamos usar mais este canal de comunicação para nossa edificação e comunhão fora da igreja.
Segue abaixo uma devocional escrita pelo nosso pastor em 03/01/2008
"Estive hoje lendo alguns textos, e me deparei em Ezequiel. Li um em Neemias, e outro em 2 Reis, mas acho que são textos que podem ser desenvolvidos numa pastoral de boletim. Contudo, o de Ezequiel, chamou a minha atenção no capítulo 20, as muitas vezes em que o texto apresenta, entre tantas outras, o sábado como um sinal. É bastante diferente, porque já tinha visto pedras como testemunhas, e milagres como sinais, mas não o sábado. As pedras podem testemunhar um pacto, porque ficam sempre no mesmo lugar, os milagres mostram a sobrenaturalidade de Deus, mas e os sábados, que tipo de sinal devem servir? Acho que deve ser por conta do nosso compromisso de, pelo menos num tempo determinado, assumirmos o Senhor como nossa preocupação central. É como se Deus tivesse nos dado uma tarefa prática para que fizéssemos algo com a finalidade de sempre nos lembrarmos dele, como se fosse uma forma de nos ajudar a organizar a nossa indisciplina. Quando a gente fica muito solto, parece que a gente se esquece do Senhor. Isto é, precisamos de uma disciplina, mesmo que seja mínima, para não nos esquecermos jamais que o Senhor está conosco. Tenha um bom dia!"
Pr. Natanael.
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