segunda-feira, 12 de maio de 2008

EVA, VIDA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 11 de maio de 2008)


As narrativas sobre a criação estão sendo redescobertas, e se constituem num desafio à interpretação. Ler a literalidade é fácil, quase mecânico. Você fixa a individualidade do primeiro ser humano e de sua parceira, o segundo ser humano, a primeira inserção do mal, e o resultado que se tem é a corrupção da raça. Observado desse modo, o texto fica fácil, o pecado é instituído, o ser humano condenado e daí por diante não se espera mais nada. Numa breve narrativa são levantadas todas as perguntas que nos inquietam: De onde viemos? O que é a morte? Qual será o nosso destino? – e são respondidas em forma de rara beleza poética. As cenas vão passando, há um determinado lugar, lindo lugar, cheio de água, coalhado de verde e de frutos; vida de um lado, vida de outro, brilho pro lado de cima, águas pro lado de baixo, e tudo vai surgindo de uma forma que não precisa de explicação: Disse Deus. Só. Disse e pronto. Você pode explicar a luz? Não precisa, apenas Disse Deus. Olha para as estrelas, e haja teoria da Grande Explosão, de elaboração duvidosa, quase uma religião, sem comprovação, hipóteses daqui, hipóteses dali, e o texto bíblico é simples, sintético e objetivo, apenas Disse Deus. Só isso, Disse e pronto. Vai assim, até que surge Eva.

A impressão que se tem é a de que se tratou de um nome titulado com honra. Não foi. Até então homem e mulher são apenas indicações de gêneros. Eva aparece como a explicação da perda do paraíso. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois do tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o lugar em que essa cede lugar à narrativa meio turva, mais cheia de detalhes, o primeiro texto do cotidiano, num passeio sem qualquer pretensão, num dia qualquer, e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido, ficar num canto e quem quiser achar vai ter que procurar. Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida? Vida parece bom para quem se esconde, tem medo e vergonha. Tá de bom tamanho: Vida.

Então a narrativa poderia ser assim: 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à Vida: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?/ 2. Respondeu a Vida à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer. /3. mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. / 4. Disse a serpente à Vida: Certamente não morrereis. /5. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal./ 6. Então, vendo a Vida que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu./ 7. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. Deus fez a Vida e a Vida desejou ser livre, mesmo que isso custasse o seu fim, e se tornasse morte.

Só que a Vida não foi punida só com a morte, foi punida com a vida – Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada aos seres humanos, antes de perder o paraíso, bem antes. Antes da condenação da morte, bem antes. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início, será contraditória para sempre, vai trocar o paraíso pela liberdade. Tem gente que diz com a boca cheia: vou para o inferno, mas não mudo. Sabe de uma coisa? - isso parece absurdo, mas Deus respeita quem deseja trocar uma pela outra. A Vida é assim, desde o início. Ela olhou para a liberdade, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem segura a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); desejou o que é belo (agradável aos olhos); e desejou ser livre, sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco (desejável para dar entendimento).

Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antigüidade remota, aquele que não teria desejos, que não levaria em conta o prazer, que não se fascinasse com o que é belo e que não desejasse ser livre? Você consegue imaginar uma coisa dessas? Eu não consigo. Só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, dominar as emoções, controlar a pressão alta por meio do relaxamento, ter que escolher uma coisa e outra, poder fazer isso, sentir culpa, medo, muito medo, medo de tudo e ficar buscando a Deus por qualquer coisinha que aconteça, porque dependo dele pra tudo. Fico sonhando com o meu retorno ao paraíso, e isso é que dá sentido. A esperança do voltar, apenas voltar.

E não foi Eva a mãe de tudo isso? Você acha que foi um nome honorífico? Não foi. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa. Nascer dói, pra quem nasce e pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, nunca mais pára de doer, nunca mais sossega, nunca mais tem segurança outra vez. Dói de um lado e de outro. A Vida que gerou a vida, quer protegê-la das ameaças, e a vida que foi gerada pela Vida quer romper o cordão e também experimentar um pouco da morte. Será que é isso, finalmente, o significado de ser mãe é padecer no paraíso?

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