sábado, 29 de março de 2008

UM SONHO PERDIDO CHAMADO CÉU

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicada no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo em 30 de março de 2008)

Uma aluna me perguntou: se o que a gente vê não é o céu, o que significa aquele azul? Não era uma criança, mas tratava-se de uma pessoa adulta, moradora de um bairro pobre de Campinas. Tentei falar-lhe sobre a imensidão e o vazio onde a vida está plantada, que o “céu” no sentido religioso tem um outro sentido. Ela olhou-me com a cabeça torta, enxergando a própria sobrancelha, perguntando com os olhos e respondendo pela incompreensão, curiosa sobre a possível diferença entre uma coisa e outra. Fazia já muito tempo que uma pessoa não me perguntava sobre o céu. Mais que isso, alguém que entendia o céu como um algo acima, como os antigos, e tinha que estar acima para ser melhor. Acho que o céu é uma espécie de sonho perdido.

Se você me perguntar o que está acontecendo, talvez não saiba responder, embora tenha a obrigação de fazê-lo. Houve um tempo quando o céu era uma ameaça à conscientização das reais condições da tragédia humana. Ninguém se esquece da religião como ópio do povo. Quem vivia o céu, vivia fora da realidade. As virtudes cristãs, como o amor, o respeito à vida e a dependência da justiça divina, por exemplo, enfraqueciam a luta humana em favor da justiça social, esta só seria alcançada mediante a declaração de um conflito de guerra: trabalhadores do mundo, uni-vos! Pensar o céu era esquecer a vida.

Havia uma razão para isso. O céu não vinha sozinho. Não se tratava apenas de uma esperança solta, deslocada, solitária, como que desvinculado de outras coisas. Nada disso. O céu era o horizonte do final feliz. No seu encalço estava todo o discurso cristão, com o seu fundamento estóico de desapego à vida, temperado, curtido e assado lentamente pelo perdão, humildade, esperança e fé, tudo junto. Essas coisas não prejudicavam o sabor do céu, mas o enriquecia. Faziam dele algo mais do que um estar apenas depois da vida. Era antecipado e degustado enquanto preparado. Nunca vi um prato ficar pronto antes de estar pronto. Com o céu era diferente. Já estava pronto quando inacabado, e depois de pronto ficaria igual ao que era antes. E a gente vivia a vida cristã comendo um pouco de céu por dia, e ele não diminuía, mas aumentava. Aumentava também a curiosidade sobre o pronto do pronto, e a gente sonhava e gostava de dormir só para continuar sonhando.

É claro que não era só isso. As ameaças da vida eram reais. Vivíamos aquele discurso de que as coisas estariam de fato no final. Aquele imaginário cruel do mil passará, o dois mil não chegará, guerra-fria, Vietnã, ditaduras militares na América Latina, as notícias solenes dadas em tom gutural por atores-repórteres sobre os conflitos no Oriente Médio, Egito contra Israel, Israel contra Palestinos, Kadafi contra o resto do mundo, e o que mais se falava era do Armagedom. Isso arrepiava qualquer um. Estávamos apenas esperando o quando.

O fim não veio, o milênio passou, Woodstook virou história. Id Amin também. Os militares estão de pijama e vão bem, obrigado. Kadafi caiu no esquecimento e a Líbia só é lembrada quando alguém, por acaso, observa o mapa em busca da Europa e tropeça com os olhos no caminho.

O fim não veio, mas o céu se foi. O perdão perdeu o seu caráter de esperança e se transformou em convivência. A fé mudou o seu objeto, e já que o céu não veio como a gente sonhava, um tinha que morrer: ou o sonho, ou o céu. Te dou um doce se adivinhar o que aconteceu. Matamos o céu. Foi simples: mudamos o seu “conteúdo”. Criamos um céu sem céu, virou seu, e o discurso assumiu o caráter de céu de vida boa, carro novo, casa nova, emprego novo, céu que virou sucesso e se escondeu no armário vestido de terno ou de Victor Hugo. A esperança ficou tímida. Quase não se fala mais dela. A humildade, sinônimo de pobreza, desavergonhou-se por completo. Ela precisava morrer também, tinha que virar outra coisa, nada de coisa pobre, afinal pobre gosta de dinheiro, quem gosta de miséria é intelectual. Daí a humildade foi transformada em sentimento. Faz algum sentido a humildade ser sentimento? Humildade pra mim é o desapego a tudo o que pode dar ao ser humano a condição de ser o dono do mundo, como se dele, e somente dele, viesse a felicidade e o desassossego. Vender tudo o que tem e dar aos pobres, ficar sem nada, nu, apenas pessoa, nada mais que pessoa, como veio e como irá, sem mais, nem menos, o retorno ao pó se desejar ser bíblico, pensar um pouco e responder a questão que até hoje pouca gente sabe o que fazer com ela: louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? Pergunta boa essa! Se você ainda não sabe, é uma pergunta pelo céu, pelo depois, a esperança que virá, o futuro que não é e que não faz parte de nenhum planejamento de vida, não tem concurso. Ruptura completa com tudo o que é de mais sagrado: liberdade, valores, pensamentos, conhecimento, amigos, parentes, trabalho, bens, estilo de vida, e a lista não tem fim, recebendo como marca e coroa um tremendo ponto final, bem redondinho, indefinível, como um esquecido no final da linha, ou no início de uma reta, quase não dá pra enxergar, parece mais um escorregão da caneta, e a gente só o vê por causa da letra maiúscula no começo de uma nova oração. Tanto faz ser uma oração depois do ponto, ou uma oração depois da vida: tudo é sonho de um novo começo.

Eu não gosto disso, nem um pouco. Não gosto do céu que criamos, nem da humildade burguesa que virou sentimento (coisa ridícula!). O céu tem que ficar lá, onde sempre esteve. Tem que ser a esperança, tem que ser a nova oração iniciada com letra maiúscula, depois do ponto, travessão noutra linha e parágrafo: uma outra conversa. Aquele céu que está lá, ainda precisa continuar regendo a nossa vida de cá. Lá tem que estar o desejado e perfeito belo, a desejada e perfeita virtude, a desejada e perfeita vida, a desejada e perfeita alegria, a plenitude perfeita do que é mais puro e sublime. O céu que criamos, feito de botox e silicone, pra mim não serve. É pálido. Era só o que me faltava, um céu com cara de Michael Jackson.

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