prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(texto publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 08 de junho de 2008)
Acho que Z., naquela tarde, estava drogado. Sou péssimo em conhecer essas coisas. Z. tem 17 anos e veio do Piauí, Teresina. Ficou eufórico quando mencionei a beleza daquela cidade, do trajeto de carro pelo interior do Estado, mais pelo sul, passando por Brasília e seguindo, não por Palmas, mas à direita, direto e olhando para ver o palácio onde está assentado o poder, hotéis caros, cheio de gente que se encontra acima da ética, basta ter amigos. E haja amigos!
Os amigos do poder também ficam do lado direito, são portanto reacionários por vocação e geografia. Depois você segue em frente, e logo se depara com os buracos bem na saída do quintal do poder, e se não fosse a sua consciência do lugar, afirmaria com toda a certeza de que o sítio estaria abandonado. Estrada ruim, muito ruim. Daí você segue para Correntes e finalmente, um posto marca a entrada ao sertão do Piauí, e dependendo da época terá a oportunidade de ver os leitos dos rios em tempo de seca. Impagável. Z. disse pra mim: Foi por lá? E respondi: Sim, e nem carro era, Pálio 97 mil. Daí ele disse o nome da estrada, que até então eu não sabia. Você também não vai saber o que isso significa, só passando por lá, mas como nunca mais devo escrever sobre isso, não posso deixar de compartilhar contigo o trecho de estrada mais famoso daquelas paradas, ainda na Bahia, entrando pelo sul do Piauí, cerca de 60 quilômetros com a demora de quatro horas para travessia. Z. afirmou de novo: Foi por lá? Pela vaquejada?
Com ou sem vaquejada, o certo era que Z., agora com nome e lugar de nascimento definido, fazia o povo rir e parecia meio fora de lugar. O assunto era Relacionamento Interpessoal. Daí ficou pior. Uma pessoa nas condições normais de temperatura e pressão já não saberia dizer o que isso significa, imagine Z.! Ele entregou um pequeno texto de exercício, como pouquíssimas palavras, e muitos erros: lavá loças, entre eles. Não dá pra explicar a diferença entre lavá loças e Relacionamento Interpessoal. Lá pelas tantas disse: Professor, um dia joguei uma cadeira na professora e fui expulso da escola. Também, ela jogou um giz em mim! Que é isso mano?! Sou homem! A aula rodou, esquecendo a vaquejada, o interior do Piauí e a cadeirada na professora. Piauí voltou no final, não sei se movido por uma lembrança que nunca lhe sai da cabeça, Z. me perguntou se eu sabia o que era palmatória. Disse que sim. Olhou para mim – Aprendi isso no Piauí. A professora o fazia esticar a mão aberta para receber a punição. Tinha então quatro anos de idade.
Olhei para ele e fiquei pensando numa mão gordinha, cheia de dobras, com a palma para cima. As palmas das mãos viradas para cima, no comportamento humano, são símbolo de quem se humilha em busca de piedade. Descobri que eu precisava aprender a lavá loças, e esquecer um pouco o Relacionamento Interpessoal.
Não sou fatalista em achar que tudo na vida de Z. depende de sua mão gordinha aos quatro anos sendo castigada por um imbatível gigante com várias vezes o seu tamanho. Também não sou ingênuo a ponto de achar que aquilo não significou nada. Uma lembrança dos quatro anos só pode ser a de alguma coisa muito importante. Z. não aprendeu a escrever com a professora, mas a vida lhe ensinou que ninguém, nunca mais, bateria em sua mão: é preferível jogar cadeiras, e o sabor disso não tem preço.
A professora achou que estava ensinando uma coisa, e era outra.Acho que nunca se deu conta disso e, se ainda estiver na ativa, na sala dos professores comenta que filho nenhum, de ninguém me faz de tonta, o negócio comigo é assim...
Z. me fez sentir medo da minha própria ignorância. Uma das regras básicas do Relacionamento Interpessoal é que somente uma outra pessoa pode ser para mim um espelho e dizer quem de fato sou. É simples. Quando você quer saber se o cabelo está bom, a barba bem feita e o que fazer para esconder as rugas ou a careca, a primeira coisa é olhar-se num espelho. Agora, quando você deseja saber da própria alma, sentimentos, e medir o tamanho do amor, da paciência, e se conhecer um pouco mais, não basta olhar para aquele tipo de espelho. Você precisa de um outro. Precisa olhar para uma outra pessoa. Daí você compara o comportamento do outro, com o seu comportamento e faz uma análise. É o escape. Você procura uma pessoa amiga, e se deixa invadir na vida pessoal. A pessoa entra no seu mundo, só pela conversa, e você, que estava com medo de entrar sozinho em si mesmo, pega na mão dela e vai atrás. O outro funciona como se fosse um guia, com facão na mão abrindo picada e uma lanterna, porque o interior da gente é sempre escuro. O outro vai iluminando o caminho e dando nome aos seus sentimentos. Parece que tudo fica mais claro. Pessoas precisam de pessoas. Só uma outra pessoa pode ser espelho para alguém, e o pior é que sempre será, de um modo ou de outro, à convite ou por agressão. Fiquei com medo de fazer parte do segundo grupo.
Uma criança, aos quatro anos pode aprender a escrever lavá loças, mas também pode conhecer o mundo da violência, e isso dentro do lugar dos sonhos chamado escola. Só que não é só a escola a vilã. Pode ser a família, e quem sabe a igreja, que passará a vida toda tentando ensinar amor para quem fixou a palmatória como a comunicação mais cruel e desumana. Sob o clima da responsabilidade, seriedade e compromisso profissional, ficam disfarçadas as agressividades de quem faz uma coisa, quando o resultado é outro, no medo que, quando e se sumir, manda buscar outro lá no Piauí, como diria Belchior.
O apóstolo Paulo, conversando sobre o que se ensina e com quem se aprende, diz: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. É isso aí. Ensinar (quase) qualquer um ensina, agora só quem é pessoa vai além dos livros, fora do texto e dentro da vida. Isso é válido para pais, professores e religiosos. Talvez a tarefa mais difícil do ser humano não seja a de passar conteúdos intrincados, cheios de fórmulas que logo serão esquecidas, memorização de doutrinas e ritos confessionais a serem repetidos, como se o verdadeiro amor estivesse ali. É preciso um pouco mais. Livros, você os encontra nas prateleiras, mas só o amor vem do coração. Acho que o lavá loças está correto. Mais próximo da vida de Z. que o meu Relacionamento Interpessoal. Z. caso seja possível um dia, perdoe a minha colega, ela não sabia o que estava fazendo.
terça-feira, 17 de junho de 2008
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