prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 02 de março de 2008)
Não há dúvidas de que o livro de Jonas está sentenciado a ser o livro do peixe. São dois extremos, um exagero de peixe que ameaça a razão, e o mesmo exagero que é uma resposta de fé. Nisso Jonas se dá como o exagero de Deus, tanto de um lado, quanto de outro. A beleza tá nisso. Sempre quando se falar de Jonas deve-se falar do peixe. A discussão mais simples, e sem sentido, é se o peixe existiu ou não. Quem faz essa pergunta está fora de foco. Precisa de uma confirmação categórica: o peixe existiu, e se a Bíblia dissesse que Jonas é que teria engolido uma baleia, eu também acreditaria. Discussão inútil. Um diz que é impossível e outro diz que não importa a impossibilidade, pois acredita do mesmo jeito. E fica nisso.
É claro que o peixe é, de certo modo, secundário no texto. Se não tivesse havido o peixe, ainda assim teria havido a mensagem a ser proclamada à cidade de Nínive, com as suas carências, e Deus sendo levado a outras nações. O livro é do profeta Jonas, não do peixe. Peixe não escreve profecia. Depois, o peixe não pode ser mais importante que a mensagem de Jonas. Ou será que é? De fato, enquanto você fica se perguntando se o peixe existiu ou não, quero tentar responder sobre a necessidade de ter havido um peixe. Como você viu, vou sair por outra porta, e vou me dar bem, você vai ver.
Limitar os exageros do texto de Jonas ao peixe é ser cruel. Tudo no livro de Jonas é colossal. Começa com uma tempestade que ninguém dá jeito, e Jonas sendo jogado na água. Passa pelo peixe, que daqui a pouco a gente conversa sobre ele. Chega a pregação e Jonas percorre a cidade d’uma vez, e uma vez só. O resultado é melhor que em qualquer outra parte do profetismo em Israel. Elias, Isaías, Amós, Oséias, e qualquer outro profeta, juntos ou separados, perdem de goleada diante dos resultados de Jonas. Jeremias então, nem se fala. Se fôssemos atualizar o ministério de Jeremias, seria como se ele tivesse encerrado as atividades da igreja por falta de membros. Ninguém gostava de seus sermões, sequer acreditou neles. Jeremias falou muito e não deu em nada. Iria tirar tantos “zeros” na aula de homilética que o professor ficaria sem “zeros” pra dar a outra pessoa. Hoje seria um pastor desempregado. O seu planejamento estratégico era pregar, só isso, e não conseguiu convencer ninguém.
Jonas, ao contrário, pregou rápido e convenceu todo mundo. E depois? Ficou exageradamente inconformado, dormiu de raiva e, enquanto isso, uma planta cresceu para fazer-lhe sombra. Planta que cresce sem respeitar a biologia, só pode ser exagerada. Nisso tudo há exagero: num dado momento Jonas dorme no navio, noutro é jogado no mar e vai até o fundo, no limite entre a vida e a morte. Depois faz uma oração na barriga de um peixe, que nunca mais iria tomar conhecimento outra vez, e possivelmente sequer utilizou a tal experiência como conteúdo da pregação. Finalmente descansa sob o tal arbusto que nasceu de uma hora pra outra. Da viagem de Jonas ao arbusto, demorou quanto tempo? Cinco dias, dez? Observe só o ciclo: vocação, tempestade, fundo do mar, barriga do peixe, pregação, e o misterioso arbusto. Não é um exagero?
Deus, no livro de Jonas, exagera. Mostra-se como o Senhor da natureza e dos mares. Mostra-se Senhor de quem nunca ouviu falar dele. Mostra-se como perdoador extremado - ao invés de permitir que Jonas morresse, na imensidão profunda de ondas que o envolviam, na solidão sem fim de quem está definitivamente rompido com o que há de mais sagrado, com a cabeça roçando e enroscando em algas, no lugar que não é lugar de tão fundo, no mistério do mar que seria mais misterioso do qualquer outro mistério - o assustador mar da Antigüidade que desembocava num abismo sem fim - para salvá-lo, do que não tem salvação, Deus fez até o que não poderá ser jamais compreendido: um peixe.
Agora, o que é o mais importante no texto? O peixe? Se existiu ou não? A possibilidade de uma planta crescer do dia pra noite? A disposição dos Ninivitas na aceitação da mensagem? A capacidade de Jonas em se comunicar? (essa doeu!) Ou o exagerado Deus? Que busca o que não pode ser buscado, seja aquele que nunca ouviu falar dele, seja aquele que se encontra no fundo do que há de mais fundo, na solidão da solidão, no medo do medo, na angustia do angustiante, onde não se respira e não há possibilidade de vida. De repente, a solução que ninguém acreditaria se alguém contasse, e tinha que ser história de pescador pra ser mais real que o acontecido: um peixe exagerado que engole, mas não digere, monstruoso, mas que protege e é capaz de chegar à praia, apesar de tão grande, e devolver o profeta que nem precisou de cuidados médicos. O peixe é grande, mas não encalha e ainda volta por onde tinha vindo, o que nunca jamais se soube ou saberá - sumiu como se nunca tivesse sido.
Acreditar que Deus acalma a tempestade, não assustou Jonas. Crer no peixe, já é difícil, mas vamos ver no que dá. Uma planta que cresce de uma hora pra outra, desafiando a vida, não sei não. Agora, conceber Deus como perdoador? Ah! Isso é pedir muito, é muito pra minha cabeça. Melhor me é morrer do que viver! (4:8) – disse Jonas. O Senhor é exagerado. Faz algo monstruoso, mas que não assusta, um exagero que não pode ser compreendido só para buscar quem não merece, e devolver a vida, mesmo quando quem a recebeu de volta não sabe o que isso significa. Isso é que é sobra de misericórdia, pra Jonas nenhum botar defeito!
terça-feira, 4 de março de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário