terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

TEMPESTADES, BONANÇA E EVANGELISMO

Rafael Loyola, doutorando em Ecologia, Unicamp
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 24 de fevereiro de 2008)

Outro dia estava meditando e refletindo sobre a narrativa bíblica apresentada em Marcos 4.35-41. Nesta passagem, Jesus e seus discípulos estão em um barco no Mar da Galiléia e uma tempestade muito violenta precipita-se sobre eles. O mar começa a revoltar-se e as ondas parecem querer esconder a embarcação no fundo das águas. Até que os discípulos, aterrorizados com a situação, decidem acordar Jesus. Ao ver a situação, Ele simplesmente manda o mar acalmar-se. A tempestade cessa, o mar apazigua-se e o barco volta a quebrar a resistência da água, navegando rumo a seu destino.

O texto é muito rico, e várias interpretações e aplicações para nosso dia-a-dia podem ser apreendidas do texto. Convencionalmente, essa passagem tem sido interpretada a partir de dois aspectos complementares, a saber, (1) aquele que nos revela a soberania de Deus e a divindade de Cristo como seu filho unigênito e (2) aquele que traz a aplicação prática de que, estando com Jesus, nenhuma tempestade é verdadeiramente um motivo de desespero. A metáfora aqui aplicável é a de que a vida do cristão é como um barco que ora desliza prazerosamente sobre as águas, ora é açoitado por ondas que insistem em arremessar o cristão de sua própria nau ou simplesmente colocá-la boca abaixo. Entretanto, aquele que tem a Cristo em seu barco não deve temer, pois Ele pode acalmar toda e qualquer tempestade, uma vez que até mesmo esta é uma manifestação de Sua própria criação. Essa abordagem que acabei de expor, além de bastante apropriada e inteligível, é de uma simplicidade capaz de gerar reflexões íntimas em qualquer um que se detenha por um minuto a pensar sobre os atributos divinos e sobre o cuidado de Deus revelado em toda Escritura Sagrada.

Ainda assim, gostaria de compartilhar com você um outro aspecto do texto. Um aspecto evangelístico e com implicações práticas para nossa vida cotidiana. Naquele dia, enquanto refletia sobre a narrativa, uma única frase desviou toda minha atenção: “e outros barcos o seguiam (v.36)”. Nunca havia reparado nessa frase, ou pelo menos, ainda que a houvesse lido, nunca havia parado para pensar sobre suas implicações. Ora, é claro que, durante a tempestade, esses barcos encontravam-se também no Mar da Galiléia. Eles sofriam os mesmos embates das ondas que o barco no qual estavam Jesus e seus discípulos. Portanto, quando Cristo acalma a tempestade, não apenas seus discípulos são beneficiados, mas todos aqueles que se encontravam em meio à tormenta.

Jesus dorme em meio à tempestade com uma tranqüilidade que só pode aninhar-se em alguém que tem conhecimento ou certeza de seu futuro. A nós falta-nos o conhecimento, mas a certeza faz-se presente. Se caminharmos (ou navegarmos) com Deus, nenhuma tormenta pode desviar-nos do caminho que Ele mesmo traçou – por isso Jesus critica seus discípulos. Mas o fato é que, analogamente, quando Jesus acalma uma tempestade em nossa vida, o mar agitado da vida de outros também é acalmado. E aí surge o aspecto evangelístico do texto. Nós cristão temos o privilégio de caminhar ao lado de Jesus e os efeitos de nossa comunhão com Deus devem refletir-se na vida dos outros, especialmente na daqueles que ainda não tiveram o prazer de experimentar a presença de Cristo. Quando você testemunha o amor de Deus para com você e sua família, quando atribui a Cristo as bênçãos que tem recebido, quando louva ao seu Deus ainda que essas bênçãos aparentemente não lhe tenham sido concedidas, você está na verdade propagando os efeitos da bonança divina através de seus relacionamentos. É assim em casa, na escola, na universidade/faculdade, no trabalho, etc. Reflita por um minuto e veja quantas vezes você ajudou uma pessoa porque os problemas pelos quais ela passava já haviam sido experimentados por você; mas Deus, por Seu amor, lhe deu condições de resolver. Quantas vezes pessoas ao seu redor lhe disseram “eu gosto da maneira como você encara seus problemas!”? Ou, “sabe, é muito bom ter você como amigo(a)!”. Tudo isso é propagação do amor divino. É efeito da ação de Cristo sobre a tempestade pela qual você passava, ou seja, da salvação de Deus dada a você gratuitamente por meio da fé.

Em suma, você é instrumento de Deus para alcançar outras vidas e, mesmo quando seu barco parece virar, Deus está no comando. O mais maravilhoso é que Ele é tão amoroso que, ao acalmar sua tormenta, Ele acalma a daqueles que não O tem em seu barco! Não coincidentemente, enquanto escrevo este texto, ouço uma obra clássica de Vivaldi: A tempestade do mar (La Tempesta di Mare). Há momentos em que o mar se desdobra em agitação (allegro), há outros nos quais parece que toda e qualquer embarcação naufragou (largo). Mas o momento da bonança chega (presto) e, pela alegria melódica, vê-se que a calmaria encheu novamente as águas de vida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

QUANDO EU TIVER SETENTA E CINCO ANOS

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(Esta crônica foi publicada em 05 de novembro de 2006 no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, quando uma pessoa muito querida estava completando 75 anos)

Ainda não cheguei lá. Também não sou garoto. Tive aulas com o pastor Soren. Não com o Francisco Fulgêncio, o pai, que seria um abuso, mas com o João Filson, o filho, que pastoreou uma única Igreja durante os mais de cinqüenta anos de ministério. Pastor Soren dava aulas de Teologia Sistemática. Aquela aula indispensável para os concílios. Os concílios são uma espécie de entrevista com um grupo de pastores que avaliam se a pessoa pode ou não ser um deles. Os quase cinqüenta alunos da classe queríamos ser um deles. Só que o pastor Soren já não dava aulas respondendo perguntas importantes de concílios. Contava as suas histórias, depositava parte da vida em quem pudesse não esquecer as suas memórias. Certa vez um dos colegas, inconformado, diante de um problema crucial, que deveria ser solucionado por quem conhecia e que provavelmente poderia mudar o rumo da nossa história e da teologia, perguntou: Afinal, o ser humano é corpo-alma-espírito, ou é só corpo-alma, sendo o espírito e a alma as mesmas coisas? Esta é a típica pergunta que só faz quem é aluno de teologia, e só vai pensar nela uma vez, quando passar pelo tal concílio. Pastor Soren respondeu: Já foi o tempo em que eu me preocupei com isso! Não é preciso dizer que saímos aborrecidos. Quem quer ser um deles, precisa saber como eles pensam, e dizer que pensa a mesma coisa, do mesmo modo. Matemática simples.

Tive que passar os meus últimos vinte e cinco anos tentando me despreocupar com algumas coisas e substituí-las por outras que realmente possam valer a pena. Hoje estou sendo motivado a pensar nos meus setenta e cinco anos. Tenho como exemplo uma pessoa, com quem tenho aprendido a fazer perguntas cujas respostas podem, de fato, fazer diferença.

Definitivamente, quando tiver setenta e cinco anos, vou querer me arrepender de muitas coisas que fiz de um modo, e que deveria ter feito de outro. Não terei medo de me reavaliar. Não gosto do discurso de quem diz: se pudesse viver outra vez, faria tudo do mesmo modo. Primeiro porque eu já vivi o bastante pra saber que isto é besteira. Depois porque só a idade nos ensina o que é a vida, e mesmo assim a gente nunca aprende. Aos setenta e cinco anos, quero me arrepender do tempo tão curto do casamento, da vida que passou rápida demais, do que ainda não deu tempo de conversar, dos inesquecíveis castelos e do depois de conto. Vou me arrepender do tempo que deixei de pescar. Do tempo que deixei de brincar com os meus filhos. Vou achar que o tempo que eles passaram comigo foi muito curto, logo se casaram, seguiram suas vidas e saíram para aprender a fazer as próprias perguntas importantes. Vou me lembrar das viagens, mas só por causa das pessoas queridas que estavam comigo. Não daquelas feitas às pressas, cheias de compromissos. Assembléias convencionais e debates que sempre voltaram para o mesmo lugar, discutiram as mesmas coisas, com os mesmos pressupostos, com as mesmas pessoas brigando, para se chegar às mesmas conclusões que não resolveram nada e nunca irão resolver qualquer coisa. Quanto tempo perdi ouvindo leituras de atas! Documentos, verdadeiros livros com gráficos, mapas de crescimento, números, extratos bancários, estatutos, muitos estatutos, perspectivas e projetos que nunca foram concluídos, nem o serão, porque o futuro sempre vem navegando e flutuando, meio à deriva, num negócio incerto chamado vida, e os relatórios passam a ser relatórios do que não foi, mas agora será. Será nada! Isto é conversa fiada.

Vou querer rir muito. Ah! Vou mesmo!Quero chegar ao culto sorrindo, desde a entrada, como aquela pessoa que conheço. Depois de uma longa viagem, ter a sensação de que estou voltando para casa. Vou dar muita risada. Não dos outros, mas de mim. Rir do tempo quando eu não sabia fazer perguntas. Da época quando desejava saber se o ser humano é corpo-alma-espírito, da época quando pensava no milênio e nos malabarismos bíblicos em busca da resposta. Vou me lembrar mais das festas, que das reuniões. Da conversa desprovida de defesa no serão depois do culto. Abraçar mais, muito mais. Vou querer ficar impaciente, contando uma história da vida para cada coisa que acontece, como se as experiências não tivessem fim. Quero tirar do armário, não os objetos que ganhei e que já não servem, seja por causa do tamanho, seja por causa da moda, seja por terem se tornado obsoletos - quero ver fotos, muitas fotos. Imagens da minha história. Gente rindo, família na praia, filhos pequenos, adolescentes, casados e já velhos. Quero ver fotos dos meus amigos, pessoas que conheci nas igrejas por onde passei; ovelhas quando eu pensava no milênio e que se tornaram amigos quando aprendi a fazer as perguntas importantes. Vou jogar fora os ternos. Jogar os velhos sermões quando as perguntas eram outras. Vou querer ser acompanhado pelos livros. Continuar lendo dois ou três ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Vou aprender a dizer “não sei”, e isto não fará qualquer diferença. Vou continuar gostando da chuva e pensarei na vida enquanto os pingos nas poças vão trazendo as histórias da infância, pelo vidro, pela janela disputada por muitas cabeças, narizes achatados no fascínio da imagem e as pequenas mãos tirando o embaço. Uma única janela na rua M 1, lá na vila Martins, que dava para uma estrada cheia de lama e pingos que pulavam. E a gente dizia: olha o pai pulando! Terá passado apenas, e tão somente, um período de setenta e cinco anos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

CONSUMISMO: OBESIDADE E ANEMIA

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva

(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 18 de fevereiro de 2008)


Sempre fui apaixonado por música. Num certo dia trabalhei toda uma manhã limpando quintal à enxada, pisando em olheiro de formiga e juntando tudo com rastelo, só para comprar um compact, que não era CD, mas o simples, com uma música de cada lado. Fui para a cidade a pé, com os meus cinco não sei o quê de dinheiro, sem direito a ônibus para não faltar nada dos cinco, seis ou sete quilômetros de ida e de volta, debaixo do sol de meio-dia, só pra trazer o compact debaixo do braço. Era um sábado, e passei aquela tarde inteira ouvindo música no rádio-vitrola, com três faixas de onda, envernizado e à válvula.Chegava rápido no final da música e lá vinha o plus, plus-plus, plus-plus, plus-plus e o disco ficaria eternamente rodando se não houvesse intervenção. Fiquei sonhando com aquela época: as ouvíamos também debaixo de uma árvore, lá na vila Martins, num grupo de adolescentes cuja metade já deve ter morrido, a árvore já virou palito ou lenha e a rua, asfaltada. Não sobrou nem a poeira. Por conta disso, arrumei um aparelho que toca o bolachão, mas não deu certo. A gente ficava ali, em roda do disco que também rodava, cantava, mudava de uma para a outra faixa com toda a cautela - e colocar a agulha entre faixas num LP sem riscar era como engatar a marcha de um carro em movimento no tempo certo sem precisar da embreagem. Coisa fina! Os discos e as faixas iam sendo escolhidos, colocados, cantados, dançados e repetidos, mas tinha que ter a gente por perto fazendo isso. A gente participava da música, ela não ficava lá tocando como se não tivesse ninguém para ouvir, só para fazer barulho. Pelo contrário, era curtida e todo o mundo tinha que ouvir, o que não impedia que vez por outra se colocasse uma porcaria.

Hoje sou um consumidor de música. Não um consumidor como aquele que se apaixona por ouvir e deslizar no ritmo da poesia. Sou um consumidor da pior espécie possível. Posso colocar quase mil e quinhentas músicas num único disquinho, que fica virando sem a minha intervenção e tocando por uma semana. Toca tanto que até esqueço que está lá. E fica lá, competindo com a gente que conversa, totalmente à disposição.

Estou deixando você meio zonzo, rodando como um disco sobre o próprio eixo, mas o bolachão é apenas o ponto de partida para uma conversa sobre a multiplicação geométrica do consumo sem gosto. Tudo fica à disposição, infinitamente logo ali. Quer uma informação sobre alguma coisa? Está disponível na internet, não precisa baixar e é só acessar quando se quer, não há a necessidade de se ter qualquer coisa na cabeça, basta saber o endereço. A gente não experimenta, e já muda. Muda de novo sem saber porque mudou, até porque mudar é fácil, não depende de perícia, nem cuidado. A gente não participa das coisas, as consome, sem ver, ouvir ou sentir o gosto. Não cuida, dispensa. Manda embora ou simplesmente se muda. Não vê cor, engole de uma vez só. Não importa se é coisa, música, pessoa, igreja, comunidade, trabalho, ou até mesmo sonhos. Sonhamos uma coisa pela manhã, outra ao meio-dia, outra à tarde, sonhar também cansa, jogamos tudo fora, achamos que vamos encontrar isso ou aquilo de volta no mesmo lugar onde estava antes, e a vida fica dando voltas sem a nossa própria participação. Consumimos informática, viagens, livros, e principalmente pessoas, relacionamentos ou grupos. Que mundo terrível! Cheio de apelo na mídia pra você consumir mais. Compre logo, compre rápido, vai acabar, o momento é agora, ligue, fale, gaste, mude a sua vida comprando uma panela pra arroz que faz tudo sozinha – escolhe, lava, salga, tempera com cebola, alho e óleo e ainda deixa tudo pronto e quentinho e, no momento exato quando você abrir a porta e entrar em casa, lá estará o cheiro de coisa pronta. Depois, ela se lava sozinha.

Não participamos, nem do que produzimos, nem do que consumimos. Será que isso tem a ver com a religião? Será que não estamos transformando a fé em mercado de bens e serviços como meros expectadores, como consumidores de símbolos religiosos? Será que a idéia de comunidade, participação, coletividade, fraternidade, companheirismo, os “dois ou três reunidos em meu nome”, céu como cidade, vivência em comum, e qualquer coisa que se refira à participação e envolvimento, consegue sobreviver a esse consumismo sem gosto? Acho que a vida cristã está virando produto de consumo e a religião objeto de mercado. Tem muita gente consumindo isso, mas não sabe o que é. Não está buscando um lugar onde possa participar, se dar e fazer diferença. Apenas consumir fé. Há uma espécie de obesidade, mas com muita anemia. Não é à toa que isso não mata a fome. Ao invés de saúde, doença. Não é uma boa engolir a igreja e o cristianismo como produtos de consumo: pode-se engasgar.

Mire e veja: tem gente que ainda vai me perguntar onde se compra a panela.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

TEMPO DE AMAR

Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, por ocasião das bodas de prata do casal Carlos e Rosângela, em 03 de junho de 2007 – os mistérios do coração e do amor)


Qualquer tempo é tempo de amar. Já dizia o poeta que amar é verbo intransitivo. Não precisa de um complemento. Isso tem um lado bonito, porque é como se dissesse que o amor é uma impulsão. Uma pessoa, quem quer que seja, de uma ou de outra forma, tem que amar de qualquer jeito. Não pode escolher não amar, simplesmente porque o amor é inevitável. É como respirar, falar, pensar, soltar a gargalhada inesperada que dá até eco. O eco responde, sem ser gente, sem pensar, como se fosse um nada, dizendo-nos que não estamos sozinhos, mesmo quando não há ninguém. O amor, pensado como verbo intransitivo, é esta fala sem destino, que responde sem causa, e que responde pra gente o que a gente diz pro mundo.

Ora, isto parece ser bom, e é. Imagine então quando o amor não é respondido por um eco, mas por uma outra pessoa. Aí sim, não é uma resposta do mesmo modo, mas é a resposta reprocessada, refletida, respondida, retrabalhada, sentida, tornada gente. É um eco, só que muito diferente. Isto porque o amor (agora substantivo) que a gente movimenta, entra no outro que o absorve como se fosse esponja. A superfície de gente, o corpo revestido de pele, e o coração agasalhado por sentimento também dão eco. Só que não é um repeteco no mesmo tom. É um eco-resposta, passa por emoções, ora desconfia, ora se entrega, ora não diz nada como quem se esqueceu de responder. Fica a expectativa de um eco, que pode voltar mais redondo, ou repentinamente quadrado, pode ainda não voltar, como se o outro não tivesse entendido, ou não se desse conta de que tivesse havido um amor em movimento.

E o amor saiu, porque não podia ser evitado. De qualquer modo irá voltar, pois mesmo quando não volta é uma forma de retorno. Diz muito quando não diz nada. Diz tudo sem precisar dizer coisa alguma. Diz mais que tudo quando volta redondinho, burilado, lapidado, cheio de brilho, com cheiro, cor e sem prazo de validade. Êta coisa boa quando o amor volta para casa! Volta diferente, porque já vem filtrado, temperado, adoçado, encorpado, denso, pesado, cheio de outros caminhos que se mostram válidos pra gente amar mais. O outro se tornou pronto para ser amado! Forneceu o nome do bairro, rua e número. É o endereço do amor escondido no coração. Este será um segredo só revelado pra você. O outro deu pistas dos atalhos, só que não contou dos mistérios. Não falou dos caminhos onde há flores. Não disse que há um outro caminho que passa por picos de montanhas onde há neve. Nem de um outro cortado pelo rio, que desemboca no mar, com quebrada de ondas nas pedras. Naquele canto, há uma choupana, que você jamais conhecerá. É o abrigo das memórias do outro. Se por acaso passar por lá, e acabar entrando nela, e tentar vasculhar o que não lhe foi permitido, não vai encontrar nada. As memórias são histórias mudas.

Há outros caminhos, esqueça a choupana e permita o segredo da individualidade de quem não deseja ser totalmente descoberto. Tente o caminho das árvores, que o outro omitiu. Também não disse nada das noites escuras e das pedras, troncos caídos, e subidas que não acabam mais. Há um abismo no coração, que fica logo ali depois daquela pedra, que você achava que subiria nela para ver tudo o que pode ser visto no reino do coração, até onde a vista alcança - parece tão perto, e tão longe. Tudo isto fica por conta do mistério de quem vai ter que entrar sozinho no coração do outro. Num dado momento vai ter que colocar o pé, e escolher um rumo cheio de mistério. E precisa colocar o pé, não tem outro modo, não dá pra ficar do lado de fora, e não dá pra esperar muito. O amor é apressado. Correria irresistível, doida e doída.

E daí? Daí você passa a vida caminhando no coração do outro. Nem este nunca saberá, e nunca poderá saber, e se souber também não vai entender, as tantas coisas que você irá encontrar perambulando naqueles segredos. O amor, irresistível e imprevisível, se movimentou. O tempo arrasta a gente para dentro do coração do outro, e não existe nada que possa impedir isso.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

OLHARES...

prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em junho de 2002)

UM OLHAR de amor -
alguém se perdera nas câmaras de si mesmo...

“E Jesus, olhando para ele, o amou e disse:
Falta-te uma coisa: Vai, e vende tudo quanto tens, e dá-os aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Marcos 10:21)

UM OLHAR de angústia
diante da incapacidade de abraçar novos valores...

“Mas ele contrariado com essa palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades” (Marcos 10:22)

UM OLHAR de saudade
ao que poderia ter sido, mas não foi,
numa promessa que não fez parte da vida – tão perto, e tão longe...

“E disse-lhe o Senhor: Esta é a terra de que jurei a Abraão, Isaque e Jacó, dizendo: À tua semente a darei; mostro-ta para a veres com os teus olhos, porém para lá não passarás” (Deut. 34:5)

UM OLHAR ao insondável...

“E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra de jaspe e de sardônica; e o arco celeste estava ao redor do trono e era semelhante à esmeralda” (Apoc. 4:3)

UM OLHAR à grandeza de Deus,
limitação de si mesmo, e o desafio do ministério profético...

“Então disse eu: ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6:5)

UM OLHAR de esperança -
o retorno de alguém que não necessitaria ter partido...

“E, levantando-se, foi para seu pai; e quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão...” (Lucas 16:20)

UM OLHAR de culpa na ânsia do perdão imerecido...

“E levantou Jacó os olhos e olhou, e eis que vinha Esaú (...). Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; e lançou-se sobre o seu pescoço e o beijou; e choraram” (Gênesis 33:1-4)

UM OLHAR em busca de um socorro...

“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro ? (Salmo 121:1)

UM OLHAR penetrante,
- o mundo interior sem segredos...

“E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como tinha dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E saindo Pedro, par fora, chorou amargamente”
(Lucas 22:61-62)

UM OLHAR ao passado,
e o presente eternizado...

“E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal” (Gênesis 19:26)

UM OLHAR de desespero,
na contínua espera do que jamais será...

“E, no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos e viu ao longe Abraão e Lázaro, no seu seio” (Lucas 16:23)

UM OLHAR de compaixão,
diante do amor rejeitado...

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! (Mateus 23:37-39)

UM OLHAR de celebração diante da simplicidade da vida...

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem (...) E eu vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (Mateus 6:28)

UM OLHAR e uma lágrima...

“E afirmou a sua vista e fitou os olhos nele, até se envergonhar; e chorou o homem de Deus” (II Reis 8:11)

UM OLHAR às pedras do passado,
testemunhas de um povo que se perdera...

“...e contemplei os muros de Jerusalém, que estavam fendidos, e as suas portas, que tinham sido consumidas pelo fogo” (Neemias 2:13-14)

UM OLHAR de perfeição,
consciência de si mesmo no ato completo da criação...

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã: o dia sexto” (Gênesis 1:31)

UM OLHAR de gratidão,
diante do milagre ainda no futuro...

“Tiraram, pois, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido” (João 11:41)

UM OLHAR e as estrelas -
nelas, o futuro de um povo...

“Então, o levou fora e disse: Olha, agora, para os céus e conta as estrelas, se as pode contar. E disse-lhe: Assim será a sua semente” (Gênesis 15:5)

UM OLHAR num momento único -
o centro da memória cristã...

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena “ (João 19:25-26)

UM OLHAR em busca do ser humano que se perdera...

“...e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás ?” (Gênesis 3:9)

UM OLHAR e um mistério...

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno”
(Salmo 139: 23,24)

UM OLHAR de perdão...
e foi assim que o ser humano aprendeu a se perdoar...

“E endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais”