quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

TEMPO DE AMAR

Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, por ocasião das bodas de prata do casal Carlos e Rosângela, em 03 de junho de 2007 – os mistérios do coração e do amor)


Qualquer tempo é tempo de amar. Já dizia o poeta que amar é verbo intransitivo. Não precisa de um complemento. Isso tem um lado bonito, porque é como se dissesse que o amor é uma impulsão. Uma pessoa, quem quer que seja, de uma ou de outra forma, tem que amar de qualquer jeito. Não pode escolher não amar, simplesmente porque o amor é inevitável. É como respirar, falar, pensar, soltar a gargalhada inesperada que dá até eco. O eco responde, sem ser gente, sem pensar, como se fosse um nada, dizendo-nos que não estamos sozinhos, mesmo quando não há ninguém. O amor, pensado como verbo intransitivo, é esta fala sem destino, que responde sem causa, e que responde pra gente o que a gente diz pro mundo.

Ora, isto parece ser bom, e é. Imagine então quando o amor não é respondido por um eco, mas por uma outra pessoa. Aí sim, não é uma resposta do mesmo modo, mas é a resposta reprocessada, refletida, respondida, retrabalhada, sentida, tornada gente. É um eco, só que muito diferente. Isto porque o amor (agora substantivo) que a gente movimenta, entra no outro que o absorve como se fosse esponja. A superfície de gente, o corpo revestido de pele, e o coração agasalhado por sentimento também dão eco. Só que não é um repeteco no mesmo tom. É um eco-resposta, passa por emoções, ora desconfia, ora se entrega, ora não diz nada como quem se esqueceu de responder. Fica a expectativa de um eco, que pode voltar mais redondo, ou repentinamente quadrado, pode ainda não voltar, como se o outro não tivesse entendido, ou não se desse conta de que tivesse havido um amor em movimento.

E o amor saiu, porque não podia ser evitado. De qualquer modo irá voltar, pois mesmo quando não volta é uma forma de retorno. Diz muito quando não diz nada. Diz tudo sem precisar dizer coisa alguma. Diz mais que tudo quando volta redondinho, burilado, lapidado, cheio de brilho, com cheiro, cor e sem prazo de validade. Êta coisa boa quando o amor volta para casa! Volta diferente, porque já vem filtrado, temperado, adoçado, encorpado, denso, pesado, cheio de outros caminhos que se mostram válidos pra gente amar mais. O outro se tornou pronto para ser amado! Forneceu o nome do bairro, rua e número. É o endereço do amor escondido no coração. Este será um segredo só revelado pra você. O outro deu pistas dos atalhos, só que não contou dos mistérios. Não falou dos caminhos onde há flores. Não disse que há um outro caminho que passa por picos de montanhas onde há neve. Nem de um outro cortado pelo rio, que desemboca no mar, com quebrada de ondas nas pedras. Naquele canto, há uma choupana, que você jamais conhecerá. É o abrigo das memórias do outro. Se por acaso passar por lá, e acabar entrando nela, e tentar vasculhar o que não lhe foi permitido, não vai encontrar nada. As memórias são histórias mudas.

Há outros caminhos, esqueça a choupana e permita o segredo da individualidade de quem não deseja ser totalmente descoberto. Tente o caminho das árvores, que o outro omitiu. Também não disse nada das noites escuras e das pedras, troncos caídos, e subidas que não acabam mais. Há um abismo no coração, que fica logo ali depois daquela pedra, que você achava que subiria nela para ver tudo o que pode ser visto no reino do coração, até onde a vista alcança - parece tão perto, e tão longe. Tudo isto fica por conta do mistério de quem vai ter que entrar sozinho no coração do outro. Num dado momento vai ter que colocar o pé, e escolher um rumo cheio de mistério. E precisa colocar o pé, não tem outro modo, não dá pra ficar do lado de fora, e não dá pra esperar muito. O amor é apressado. Correria irresistível, doida e doída.

E daí? Daí você passa a vida caminhando no coração do outro. Nem este nunca saberá, e nunca poderá saber, e se souber também não vai entender, as tantas coisas que você irá encontrar perambulando naqueles segredos. O amor, irresistível e imprevisível, se movimentou. O tempo arrasta a gente para dentro do coração do outro, e não existe nada que possa impedir isso.

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