prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 18 de fevereiro de 2008)
Sempre fui apaixonado por música. Num certo dia trabalhei toda uma manhã limpando quintal à enxada, pisando em olheiro de formiga e juntando tudo com rastelo, só para comprar um compact, que não era CD, mas o simples, com uma música de cada lado. Fui para a cidade a pé, com os meus cinco não sei o quê de dinheiro, sem direito a ônibus para não faltar nada dos cinco, seis ou sete quilômetros de ida e de volta, debaixo do sol de meio-dia, só pra trazer o compact debaixo do braço. Era um sábado, e passei aquela tarde inteira ouvindo música no rádio-vitrola, com três faixas de onda, envernizado e à válvula.Chegava rápido no final da música e lá vinha o plus, plus-plus, plus-plus, plus-plus e o disco ficaria eternamente rodando se não houvesse intervenção. Fiquei sonhando com aquela época: as ouvíamos também debaixo de uma árvore, lá na vila Martins, num grupo de adolescentes cuja metade já deve ter morrido, a árvore já virou palito ou lenha e a rua, asfaltada. Não sobrou nem a poeira. Por conta disso, arrumei um aparelho que toca o bolachão, mas não deu certo. A gente ficava ali, em roda do disco que também rodava, cantava, mudava de uma para a outra faixa com toda a cautela - e colocar a agulha entre faixas num LP sem riscar era como engatar a marcha de um carro em movimento no tempo certo sem precisar da embreagem. Coisa fina! Os discos e as faixas iam sendo escolhidos, colocados, cantados, dançados e repetidos, mas tinha que ter a gente por perto fazendo isso. A gente participava da música, ela não ficava lá tocando como se não tivesse ninguém para ouvir, só para fazer barulho. Pelo contrário, era curtida e todo o mundo tinha que ouvir, o que não impedia que vez por outra se colocasse uma porcaria.
Hoje sou um consumidor de música. Não um consumidor como aquele que se apaixona por ouvir e deslizar no ritmo da poesia. Sou um consumidor da pior espécie possível. Posso colocar quase mil e quinhentas músicas num único disquinho, que fica virando sem a minha intervenção e tocando por uma semana. Toca tanto que até esqueço que está lá. E fica lá, competindo com a gente que conversa, totalmente à disposição.
Estou deixando você meio zonzo, rodando como um disco sobre o próprio eixo, mas o bolachão é apenas o ponto de partida para uma conversa sobre a multiplicação geométrica do consumo sem gosto. Tudo fica à disposição, infinitamente logo ali. Quer uma informação sobre alguma coisa? Está disponível na internet, não precisa baixar e é só acessar quando se quer, não há a necessidade de se ter qualquer coisa na cabeça, basta saber o endereço. A gente não experimenta, e já muda. Muda de novo sem saber porque mudou, até porque mudar é fácil, não depende de perícia, nem cuidado. A gente não participa das coisas, as consome, sem ver, ouvir ou sentir o gosto. Não cuida, dispensa. Manda embora ou simplesmente se muda. Não vê cor, engole de uma vez só. Não importa se é coisa, música, pessoa, igreja, comunidade, trabalho, ou até mesmo sonhos. Sonhamos uma coisa pela manhã, outra ao meio-dia, outra à tarde, sonhar também cansa, jogamos tudo fora, achamos que vamos encontrar isso ou aquilo de volta no mesmo lugar onde estava antes, e a vida fica dando voltas sem a nossa própria participação. Consumimos informática, viagens, livros, e principalmente pessoas, relacionamentos ou grupos. Que mundo terrível! Cheio de apelo na mídia pra você consumir mais. Compre logo, compre rápido, vai acabar, o momento é agora, ligue, fale, gaste, mude a sua vida comprando uma panela pra arroz que faz tudo sozinha – escolhe, lava, salga, tempera com cebola, alho e óleo e ainda deixa tudo pronto e quentinho e, no momento exato quando você abrir a porta e entrar em casa, lá estará o cheiro de coisa pronta. Depois, ela se lava sozinha.
Não participamos, nem do que produzimos, nem do que consumimos. Será que isso tem a ver com a religião? Será que não estamos transformando a fé em mercado de bens e serviços como meros expectadores, como consumidores de símbolos religiosos? Será que a idéia de comunidade, participação, coletividade, fraternidade, companheirismo, os “dois ou três reunidos em meu nome”, céu como cidade, vivência em comum, e qualquer coisa que se refira à participação e envolvimento, consegue sobreviver a esse consumismo sem gosto? Acho que a vida cristã está virando produto de consumo e a religião objeto de mercado. Tem muita gente consumindo isso, mas não sabe o que é. Não está buscando um lugar onde possa participar, se dar e fazer diferença. Apenas consumir fé. Há uma espécie de obesidade, mas com muita anemia. Não é à toa que isso não mata a fome. Ao invés de saúde, doença. Não é uma boa engolir a igreja e o cristianismo como produtos de consumo: pode-se engasgar.
Mire e veja: tem gente que ainda vai me perguntar onde se compra a panela.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
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