quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

UM AMIGO, NUM MOMENTO DE ORAÇÃO

Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 07 de abril de 2002 - revisado em fevereiro de 2008.

Estamos falando de Jesus no Getsêmani. Um Jesus só. Não precisava ter ficado só. Levara três amigos. Talvez os julgasse mais próximos. Quem sabe aqueles amigos aguardavam um milagre, semelhante ao da transfiguração. Jesus levara amigos porque desejava não estar só na sua noite mais difícil. Noite de angústia. Noite de um estar a sós com Deus, muito diferente. Diferente sim, porque os momentos com Deus faziam parte da vida de Jesus, e aquele não seria novidade. Seria diferente porque se tratava da última estada com os discípulos. Não queria todos, mas alguns. Não queria movimento, mas também não queria solidão. Também não precisava de encorajamento. Aquelas palavras que alguém diz, do tipo: ‘vamos em frente’, ‘você vai vencer’, mas que são apenas retóricas. Quem diz não acredita muito. Diz só para mostrar para o outro que está sentindo alguma empatia. Jesus não queria hipocrisia. Se gostasse de hipócritas estaria acompanhando os fariseus. O que Jesus queria, afinal? Queria amigos. Amigos que ficassem mais ou menos próximos. Daria uma sensação de não estar só. Só que Jesus queria mais. Queria amigos que orassem com e por ele. Ele não estava com medo. Estava apenas triste e muito só.

O trabalho deles seria orar. Jesus não queria ninguém cortando orelha de quem quer que fosse. Não precisava de defensores. Não queria ser defendido. Queria apenas ser acompanhado em oração. Queria que os amigos dessem muita importância à razão da vida dele, que havia sido dedicada totalmente à sua missão em graça. A oração deles mostraria respeito por tudo o que Jesus fizera. Mostraria ainda que eles confiavam na direção espiritual de Jesus – uma espécie de cumplicidade. A oração seria um apoio, um assumir juntos a cruz, mesmo que não fosse tudo isso. Jesus não queria que outro sofresse a sua dor, nem que tomasse o seu lugar. Queria apenas que os seus melhores amigos estivessem com ele em oração.

Só que não deu. Talvez eles achassem que a oração não fosse tão importante assim. Talvez não imaginassem que Jesus estava mesmo falando sério sobre corpo, morte, sangue, etc. Talvez achassem que Jesus era forte demais, afinal alguém que fez tanta coisa saberia se cuidar. Talvez achassem mesmo que poderia ficar para amanhã. Sabe como é, vamos dormir um pouco, descansar, temos tempo, amanhã tudo começa outra vez, blá, blá, blá... Bem, sei lá o que eles achavam. Só sei que dormiram. Não viram o perigo. Não viram a dor. Não atenderam ao pedido. Achavam que estavam passeando numa linda noite iluminada com as estrelas do céu. Lugar lindo, um jardim na madrugada debaixo do som do nada, sem pessoas que os incomodassem pedindo pão,cura, ou cegos que se achavam no direito de pedir alguma coisa, ou ainda sem mulher doente que ficava querendo tocar no mestre, onde já se viu um negócio desses! O lugar era para eles, não para Jesus, e perderam a oportunidade da vivência num momento único e entraram para a história como os amigos que se esqueceram da oração. Seria o último momento, mas eles não sabiam disso. Acho que depois até sofreram. Eu sei que sofrimentos não se comparam, mas uma seria a culpa pela falta de sensibilidade e companheirismo, outro seria o sofrimento da solidão e da cruz. Estar só, não ter amigos, nem mesmo em oração. Não sei se Jesus compreendeu a limitação deles, não sei se não foi interesse dos narradores dos Evangelhos, ou se simplesmente já não haveria o que fazer, ou ainda se a dor fora tanta que não valeria a pena recordar, mas quando Jesus se encontrou outra vez com os seus discípulos, sequer fez referência, muito menos cobranças. Parece que a amizade e oração não se exigem, apenas se espera, nada mais que isso.

Às vezes eu fico pensando que amigo mesmo é aquele que ora pela gente. Que acompanha quieto, não dizendo hipocritamente estar sofrendo como se estivesse no nosso lugar, só por retórica. Amigo mesmo não prefere dormir. Não prefere resolver a culpa com espadas, cortando orelhas e se fazendo de valente. Amigo mesmo apenas ora. Está sempre por perto e acena para gente ‘olha, estou aqui’. A gente vê o amigo e não se sente só, mesmo sabendo dos resultados de como será escrita a nossa história. Só que às vezes, não dá.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pastor, professor, doutor Natanael.
Linda sua reflexão sobre amigos.
Como precisamos de amigos verdadeiros,simples de oração.As vezes tudo que precisamos é o olhar de um amigo orando por nós.
Parabéns,as suas meditações são maravilhosas.
Marta do Carmo----Sorocaba

Anônimo disse...

Meu amigo, suas palavras são uma construção da alma, e não poderia ser de outro jeito. Reflexões desta natureza nos leva a triste realidade de que estamos sempre sozinhos nos momentos em que mais precisamos de pessoas. Até Jesus nos seus momentos de oração no jardim esteve só.
Parabéns chefe.Jose Luiz