Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Qualquer pergunta que se faça sobre Jesus ter ou não nascido em dezembro, não tem sentido. A questão não é o dia certo, mas o tempo tido como sagrado. É preciso ter uma data, pois sem data é como se na história não tivesse acontecido nada. Só com uma data é possível viver outra vez o passado, e voltar no tempo e estar lá quando tudo aconteceu, quando as coisas saíram quentinhas do forno aceso pela primeira chama, ainda esfumaçando com cheiro de massa e manteiga derretida. É tão forte que a gente chega a sentir saudade do primeiro século, como se tivesse vivido naquela época. Achamos que se tivéssemos estado lá, quando Jesus exerceu o ministério, iríamos entender tudo o que ele ensinou, e nos colocaríamos contra aqueles fariseus prepotentes que não sabiam de nada. Iríamos viver o início puro, ver Jesus andando pela Galiléia, por sobre o mar, e não somente iríamos nos certificar de que tudo foi de fato verdade, como observaríamos os detalhes de forma direta, sem as interpretações intermediárias que só parecem querer confundir.
Estamos no centro do debate sobre tempo e a religião, porque o Natal é símbolo da pureza do nascimento da fé cristã, vindo de uma maternidade pura, virgem – o que parece óbvio, uma pureza antes do nascimento. Isso não é ruim, claro que não! Passa a ser uma espécie de sonho, porque você pensa e volta ao passado, pensa na estrela e fica se perguntando que tamanho teria tido tal estrela para que todo o mundo pudesse ver, como é que uma estrela fica parada em cima de um lugar, iluminando o centro do mundo e do tempo? - e a única imagem que sobra pra você é como se fosse uma imensa lanterna, na melhor das hipóteses um refletor enorme, aquele facho restrito que se encontra em qualquer pintura, desenho ou coisa parecida, que se refira ao Natal e sua enigmática estrela, solitariamente iluminando um barraco. Tem gente que diz ter sido um planeta. Tem gente que vai dizer que foi um cometa! Tem gente que vai dizer até que foram os extraterrestres – é mole? Você fica e prefere a lanterna, mas isso não importa muito, porque a estrela pra você lembra sempre a promessa feita a Abraão, de uma grande e imensa nação, com tanta gente que nem a matemática daria conta, gente pra mais de metro espalhada por esse mundão. Lembra ainda o disse Deus e haja luz. E houve luz. Onde havia trevas, agora haveria luz; e os antigos ficavam olhando e contemplando pensando como seria possível ter tanta coisa grudada lá em cima – um dia tudo vai cair, só pode ser isso! Medo do imenso!
A estrela não é estrela, a estrebaria não é estrebaria. É apenas o lugar e o tempo onde nasce o sagrado. Deus entra na história da humanidade, sem pedir licença – a natureza tem que reverenciar (apontar o lugar, ou apenas se curvar?). Pastores, que a gente não sabe de onde, teriam sido os primeiros a tomar conhecimento. Conhecimento direto – o que havia de mais sagrado conversando com gente que era o símbolo da simplicidade. Lucas é cuidadoso em mostrar que o anúncio não fora dado no templo, aos profissionais da religião, aos que chamavam para si a responsabilidade de interpretar corretamente o que de fato deveria ou não ser aceito como válido. Tais profissionais da letra tentavam vasculhar a história e os detalhes da Lei de Moisés, explicando os pontinhos e os cantinhos dos desenhos quadrados do alfabeto sagrado. Lucas esquece isso e diz que as novas eram para todo o povo, coisa popular, de gente simples, gente que estava no campo e não no templo, que cuidava de ovelhas e não de letra, gente que viu uma manifestação de Deus fora de Jerusalém, o que era uma heresia completa - coisa de quem não sabe direito nem o que é certo, pobres analfabetos - gente bruta que vivia em barracos contemplando um Deus que entrava para a história numa estrebaria. Ora bolas, que coisa mais sem sentido! É aí que está o segredo: quando o sagrado e o tempo se encontram, não é para ter sentido, é apenas para ser pleno, centro, totalidade, só isso.
O lugar e o tempo não poderiam ter sido apontados por uma pessoa, somente e tão somente por uma estrela, inacessível estrela, uma testemunha que não deixou nada escrito porque estrela não escreve, não pode ser interrogada, nem aprisionada, porque fica lá em cima, lá longe, lá onde não se alcança, onde está a promessa feita a Abraão e onde reside o ato sublime do haja luz. Rastro de luz, não é rastro. Daí quem não sabe o que significa o Natal fica procurando cometas. São os mesmos que acham que o Natal se resume a uma mensagem de paz. Só isso? E os anjos? Quem vai perguntar para um anjo se isso foi assim mesmo? Anjo também não escreve. Só que fala. Lança a palavra que não pôde ser gravada, não tem timbre ou musicalidade. Tudo se perde, só para você ficar com aquela sensação de que deve ter sido muito bom, superlativamente maravilhoso.
Quem pode contar o tempo de Jesus? Ao ser introduzido no mundo, o início do início não poderia se perder. Tem que ser de uma virgem, tem que haver uma estrela que atravessou o céu, ninguém sabendo donde veio e ninguém diz para onde foi, e tem que haver pastores e anjos cantando por tudo quanto é canto. Terá que ser numa estrebaria, num lugar longe, fora do discurso religioso formal, lá no meio do campo, numa terra de ninguém, que não havia quem desse crédito, um lugar miserável e de gente desprezível. Longe do centro religioso. Jerusalém de gente polida que se sentia o centro do mundo. Seria o centro de morte, nada mais que isso, e entraria para a história como a cidade onde Deus desfilou a sua morte, caminhou pelas ruas derramando sangue e carregando uma cruz. Jerusalém era tão indigna que nem dentro dela pôde a morte acontecer. A cidade da habitação de Deus, desfilando a morte do próprio Deus, num dia de páscoa e libertação! Quase um sábado! Jerusalém, sem nascimento e sem morte. Apenas uma estrela, que passou pelo alto de suas casas e foi brilhar num outro canto, lá longe onde tem gente que não se sabe quem é, sem nome e sem passado, apenas pastores.
O Natal pode ter uma mensagem de paz, mas não é só isso. É o tempo que não pode ser contado do mistério de Deus que se fez homem; de um Deus que já era antes e continuou sendo, nascido em meio a milagres que ninguém entende ou explica. Um tempo que ninguém pode contar, porque já era antes de ser e continuou sendo depois que não era mais. Traduzindo: quando Jesus nasceu, já existia, e quando morreu continuou existindo. Se você acha que isso é absurdo, é porque não conseguiu ainda entender que o tempo do sagrado é eterno, não tem um antes, nem um depois, apenas um sempre, um eterno presente que se repete como se fosse novo. Depois disso você pode dizer que o Natal representa paz, mas primeiro precisa compreender que se trata de Deus Conosco – o impossível eterno que coube dentro do nosso pequeno e limitado tempo. Não importa que não tenha sido no dia 25 de dezembro.
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Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 23 de dezembro de 2007.
Rua Luis Vicentim, 284 – Próximo ao Terminal de Ônibus
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Cultos: às quartas, 20h; aos domingos 9h e 19h30min
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
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