Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Publicado no boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo no dia 27 de janeiro de 2008.
O sr. Aldo é um daqueles nativos que trabalha durante o verão, cuidando do lixo deixado pelos turistas. A gente o chama de “sr.”, mas não é pela idade. Tem lá os seus trinta e tantos anos, varrendo, tirando folhas e fazendo pequenos serviços na limpeza de um camping no município de Bombinhas, SC. Durante o dia faz isso, mas à noite faz uma certa vigilância na entrada, chega gente, sai gente, gente pedindo informação, montando barracas e por aí se vai. Não é preciso dizer que quase não tem escolaridade, se é que tenha alguma. Sua esposa, que não conheço, está com os dois rins condenados. Faz hemodiálise. Seu filho, que tem apenas 14 anos, deixou os estudos e agora praticamente vive em alto-mar em longas temporadas de pesca. Disse ao pai: vou trabalhar para ajudar o senhor a cuidar da minha mãe. E foi, liberando-se de qualquer sonho de criança, sem orkut, messenger, pipa, bicicleta ou bola. No final do ano disse ao pai: juntei dinheiro para dar uma máquina de lavar pra mãe trabalhar menos. E deu mesmo. Depois voltou para o mar a trabalhar mais. Estou preocupado com o meu filho hoje – disse o sr. Aldo – está ventando muito!
Conversávamos sobre a graça de Deus. Não entendo nada da graça de Deus, não tenho um filho em alto-mar, nem problemas de saúde na família, e já estou completando os meus dias. O meu esforço para crer é apenas um sentimento, que não sei se é metafísico, se é alienação, ou poesia, e fico relendo a Fenomenologia do Espírito de Hegel, tentando compreender o que é e como se dá o conhecimento, enquanto o sr. Aldo pensa no vento. A palavra é a mesma, Espírito, pneuma, vento, ou se preferir, ruá, vento também, que a gente sistematizou e transformou num emaranhado de enunciados e ficou discutindo se Ele pode se manifestar desse ou daquele modo, se tal comunidade religiosa está correta em pensar assim ou não. Só que o vento para Sr. Aldo é outro, é aquele que ameaça o filho com o abraço das ondas, e traz do filho o abraço à mãe.
O sr. Aldo acredita na graça de Deus. Falou-me dela. Disse que Deus é bom, tem cuidado de sua família e dado um filho que enfrenta o mar aos quatorze anos. Ao invés de sonhar com uma lost ou quiksilver, sonha em diminuir o sofrimento da mãe. Fiquei ouvindo o sr. Aldo e aprendendo sobre a graça de Deus. Ele falava de pessoas que, por conta de pequenas coisas, se afastam da igreja. O problema mencionado fora o do costume das mulheres cortarem ou não as pontas dos cabelos, que pr’aqueles lados ainda é tabu. Pra quem lê a Fenomenologia do Espírito, tentei me sair bem, dizendo que as pessoas passam a vida toda crendo em alguma coisa e mudar num certo momento seria como se confessassem ter sofrido à toa. Ele me olhou como se admirasse não ter pensando nisso anteriormente, e deve ter ficado impressionado, pois afinal, quem lê Hegel deve ser sabido, fala de coisas que estão além do que a gente vive, coisa que nunca se pensou antes, abstrações, o que não se pode pegar, ou sentir, como o vento e o cheiro do mar. É preciso ter olhos para se ver o que não pode ser visto, sentir o que não pode ser sentido, e pensar no que não pode ser pensado. Ou seja, nada.
Eu sei que você deve estar pensando na confusão que estou fazendo entre graça e sofrimento, isto é, como se fosse necessário o sofrimento para que houvesse graça. Nada disso. Quando afirmo que o sr. Aldo acredita na graça de Deus não é apenas força de expressão. Ele faz parte de uma comunidade religiosa protestante, que confessa com todo ardor que a salvação é única e exclusivamente por meio de Jesus Cristo. No decorrer da conversa disse: o importante é ter Jesus! – enquanto apanhava e fechava o saco de lixo – mas a gente tem que fazer alguma coisa também – continuou. Algo talvez como continuar crendo na presença de Deus apesar dos rins e do filho abraçado pelo vento. Algo como olhar o mar e esperar.
Se a graça não vem pelo sofrimento – e não vem mesmo! – continuar afirmando que ela nos acompanha quando o tal sofrimento acontece, isso é muito mais difícil. Às vezes é fácil crer, especialmente quando se está observando o mar como obra da criação e o vento, na pior das hipóteses, apenas incomoda. Não saberia dizer o que significa o mar quando leva um filho, nem o que seria um vento com cheiro de abraço da morte. Não sei qual a distância entre o poético e o trágico. O sr. Aldo sabe o que significa continuar crendo, apesar de tudo. Graça é graça, não importam as circunstâncias. O sofrimento, no caso, não é punição, não é ausência ou descaso de Deus. É coisa da vida.
Deixamos o camping numa manhã de terça. O tempo estava fechado e ventava muito. Fazia um friozinho, meio de inverno. Deixamos para o sr. Aldo algumas coisas para uma cesta básica e uma pequena oferta. Olhou para nós e sorriu como se tivesse recebido muito: boa viagem – disse ele – que Deus os acompanhe!
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
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