prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
(O texto que segue foi preparado para ser publicado num periódico. Não se trata de uma "pastoral" como os demais do nosso blog, pois tem uma natureza mais teológica. Talvez devesse ser reformulado, mas pelo menos no seu todo mantém-se relativamente atualizado)
Vez por outra ainda encontro alguém fazendo observações quanto ao liberalismo teológico. Esse foi um movimento europeu, mais precisamente alemão, e que fazia severas críticas aos textos bíblicos, autoria, data, acréscimos e por aí se ia. Pois é, já quase não se fala nisto na academia. Quando se aborda o assunto, já se diz no passado, como algo que não se discute mais. É claro que o tema – teologia liberal – é algo muito abrangente e há até os que colocam entre os liberais, teólogos como Paul Tillich, por exemplo. Isto se dá porque ele, e tantos outros, são incluídos naquele grupo que observava o texto bíblico sob o domínio da suspeita. Isto é, o texto bíblico era, de certo modo, questionado no que diz respeito não necessariamente à sua veracidade, o que de certo modo estava presente, mas principalmente nos seus limites para alcançar a interpretação do sagrado – um sagrado visto pela exclusividade teológica. Em parte essa questão foi o resultado natural da Reforma. Ao declarar que a autoridade estava nas Escrituras, os reformadores focaram toda a problemática religiosa no texto. A pergunta que se levantou, e talvez não pudesse ser outra, foi: que texto?
À época da teologia liberal se discutia a racionalidade, e como esta se aplicaria na leitura do sagrado. Numa linha mais positivista, a preocupação era com a comprovação da verdade. Só seria válido o que pudesse ser comprovado. A ênfase repousava sobre um ser humano que poderia conhecer, desvendar e controlar todas as coisas. Definitivamente passou-se a pensar que o ser humano tinha o mundo em suas mãos. Tudo poderia ser desvendado, do cósmico ao micro, do que o próprio humano é, em termos biológicos, até as suas emoções mais profundas, incluindo a sua espiritualidade e existência. O ser humano seria capaz de controlar a natureza, e o seu futuro. Desse emaranhado de coisas que posteriormente chamaríamos de modernidade, saiu de tudo. Saber de onde viemos passou a ser o assunto científico do momento. Se pudéssemos fazer o traçado de como a humanidade se formou, poderíamos prever os nossos passos rumo ao futuro. Se fosse possível encontrar onde foi que humanidade se perdeu, seria possível corrigir os desvios e racionalmente caminhar para a sociedade perfeita. O que seria mais puro, deveria ser o que estaria mais próximo da verdade. É claro que a esta altura já estou mencionando Darwin (busca do passado), planos qüinqüenais da antiga União Soviética (busca do futuro) e até os totalitarismos de Estado que aconteceram todos juntos em meados do século XX: Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Perón, Getúlio Vargas e Salazar, só para pensar nos mais importantes. O Estado tinha que ser organizado e purificado (nacionalismo econômico-racial), portanto forte. O ser humano seria capaz disso: o mundo estava em suas mãos.
Mais que lembrá-lo da história, quero lhe dizer que a teologia bíblica também sofreu desse mal. Pensava-se mais ou menos assim: se o que é mais antigo está mais próximo da verdade, então devemos procurar o mais antigo nos textos bíblicos. Isto levava ao seguinte problema: o texto bíblico nunca poderia ser considerado como unidade, mas teria sido a elaboração de muitos anos, muitas gerações, em meio a tantos espaços históricos. Se fosse possível chegar ao texto que está atrás do texto, chegaríamos à pureza da verdade religiosa. Não é preciso mencionar aqui que Durkheim foi até aos aborígines, Austrália, considerada a raça mais pura do planeta, e a partir deles, estudar religião. Por tabela, a da contaminação das raças e culturas, o estudiosos da Bíblia passaram a considerar que o texto que temos é resultado de muitos acréscimos; que a Igreja, em sua caminhada, teria acrescentado coisas e tirado outras. Harnack, por exemplo, afirma claramente que o Novo Testamento fora influenciado pelo helenismo, o que o tornava praticamente impossível de ser recuperado. Seria necessário fazer com a Bíblia, o que Darwin havia feito com o ser humano. Havia um texto, por detrás do texto, que não conhecíamos. O protestantismo biblicista foi tomado pela insegurança.
De lá para cá o texto ficou no centro do debate. Isto não foi de todo ruim, pois o estudo da teologia cristã necessitava passar pela Bíblia. É claro que você pode pensar diferente e dizer que a teologia européia, onde se desencadeou tudo isto, trouxe um prejuízo enorme para a fé. Hoje, ao que parece, o espaço geográfico europeu é o centro mundial de ausência de crença na teologia. Só que dizer isto, é jogar fora de uma só vez, as duas guerras mundiais, as diferenças étnicas desde a queda do Império Romano, o domínio norte-americano no pós-guerra, a derrocada dos sistemas políticos - tanto de burgueses como de proletários, sem contar a inquisição da Idade Média, e temos que parar por aqui por causa do nosso espaço. É muita coisa para se jogar fora e dizer que a teologia é a única responsável pela ausência de fé no velho mundo.
O texto bíblico em debate gerou muita discussão. Primeiro procurou-se os tais documentos antigos e quando possivelmente teriam sido escritos (Wellhausen, por exemplo). Depois descobriu-se que a oralidade e a poesia, que mantém uma métrica que não poderia ser mudada na passagem da oralidade para a escrita, seriam textos mais antigos ainda (Günkel). Outros acharam que a religião era mais importante que o texto (Alt), e que o Antigo Testamento, por exemplo, mantinha pelo menos duas tradições diferentes, como se o povo de Israel tivesse sido culturalmente duas tribos (Not). Já G. von Rad compreendeu que o que estava por detrás do texto eram as tradições religiosas, manifestadas nas festas e que num dado momento foram transformadas em texto. Isto é, os autores dos textos, que começaram a escrevê-lo no século IX a. C., seriam narradores da fé comunitária praticada nos ritos. Num destes grandes últimos sistemas, vislumbra-se a construção social das tribos de Israel, com base na luta entre oprimidos e opressores e a busca da liberdade (Gottwald). Surgiu até a teoria do documento “Q” (Bultmann), como uma fonte perdida e que representaria, na sua pureza, as verdadeiras palavras de Jesus, antes da Igreja corromper o texto com a fé. Depois surgiu o “Q1”, “Q2” e “Q3”. Bem, não é possível prosseguir na lista, em razão do espaço, até porque não faria diferença.
Contra tudo isto a teologia conservadora também se posicionava. Talvez o nome mais importante na leitura do Antigo Testamento tenha sido o de Bright, que associou a arqueologia à história das narrativas bíblicas. Por essa escola, a validade das Escrituras passava a depender de determinadas evidências físicas, o que ajudava a tentar comprovar os fatos, mas transferia a autoridade para algo fora do texto. Isto é, quando o leitor depende de uma comprovação arqueológica para demonstrar que o Mar Vermelho se abriu, em última instância está transferindo a autoridade do texto para uma possível comprovação científica, como se essa fosse melhor. Caso faça isso, no fundo a sua fonte de autoridade não são as Escrituras, por mais que afirme isso, mas tal fonte passa a ser a capacidade da pesquisa humana. Se a arqueologia não confirmar o evento, o texto bíblico também não o poderia. A âncora foi boa, mas frágil. Também não é preciso trazer aqui as dificuldades e credibilidade das chamadas das “provas” arqueológicas, praticamente abandonadas hoje pela historiografia, religiosa ou não.
A forma encontrada pelo pragmatismo norte-americano foi de tornar a teologia científica pelo viés da sistematização. Do mesmo mo que a dogmática havia se tornado na possibilidade do controle eclesiástico sobre o sistema teológico católico, o mesmo se daria com a teologia protestante na América do Norte. A teologia sistematizada define a forma de funcionamento de uma determinada instituição, seu credo e forma de expressão. Por conta disso, seja a dogmática católica, ou a sistemática protestante na América do Norte, os resultados se tornam os mesmos: são expressões de fé que dão sustentação para um sistema. A dogmática teria a sua origem na hierarquia, suspeita de autoritária. A sistemática teria a sua origem na comunidade e no texto, suspeita de secularização, como toda a teologia protestante. Por conta disso, a chave hermenêutica de uma teologia fundamentalista é o partir da sistemática, pois esta se constitui na dimensão científica da teologia. Para isso, a ferramenta que se tornou a possibilidade legitimadora foi a exegese, pois apenas essa seria capaz de se alcançar o que realmente o escritor estaria pensando. Tal recurso, dispensando pela historiografia na atualidade, e que também coloca sob suspeita a arqueologia como ciência, tem permanecido quase que exclusivamente no âmbito da teologia fundamentalista. É também uma fonte de autoritarismo, já que é dado ao especialista em grego ou em hebraico, a exclusividade interpretativa do texto, e a estrutura funcional se confirma como modo de opressão. Trata-se de um profundo humanismo, pois concebe à razão a possibilidade de conter e explicar o sagrado, exclusivamente.
O fato é que, uma coisa e outra, fizeram com que a teologia liberal praticamente se despedisse do cenário teológico. Teólogos existenciais, como Paul Tillich, a rejeitaram por conta da crise histórica da teologia liberal diante da cristologia: a suspeita liberal sobre a pessoa de Cristo criava problemas com o logos do cristianismo, que é Cristo – não é possível um cristianismo sem Cristo. Por incrível que pareça, tanto a teologia conservadora quanto a liberal acabaram sendo uma discussão apenas de um “antes” ou um “depois”. A teologia conservadora tentou mostrar que a verdade poderia ser alcançada mediante a razão no bem “antes”. Isto é, os textos no fim das contas são antigos e não há quase nada que possa provar o contrário. Já a teologia liberal tentou mostrar que este “antes”, embora fosse “antes”, deveria ser considerado como sendo bem “depois”, e a verdade deveria ser procurada e encontrada num outro momento, ou quase seria impossível de ser recuperada, até mesmo a possibilidade ou não de Jesus, de fato, ter existido. Foi quase uma discussão sobre o tempo.
Já faz algum tempo quando alguém me questionou se por acaso seria um teólogo liberal. Não sei se a pessoa estaria querendo dizer que não acredito na Bíblia, o que não é verdade, ou se sou retrógrado, o que é quase uma ofensa. Estudamos o texto, como nos é dado, porque é o texto que temos. A teologia não está apenas em determinados textos que possam ser entrecortados para uma melhor compreensão. Nisto, tanto a teologia liberal, como a conservadora, também padecem do mesmo mal. Talvez você não tenha tido acesso a teólogos liberais, mas com certeza já teve contato com algum comentário bíblico. Praticamente, qualquer comentário, faz a análise dos textos de forma tão recortada que um estudo em Romanos, por exemplo, poderia estar em I Coríntios, que não faria qualquer diferença. Hoje estamos tentando descobrir uma nova linguagem na interpretação bíblica. A hermenêutica que desponta na atualidade se preocupa em estudar o texto bíblico como exagero de significado, compreensão do imaginário religioso, e a construção desta memória religiosa. Não é necessário ser especialista em línguas originais para se tentar compreender o imaginário que está presente no texto, até porque a exegese não é suficiente para dar conta disso. Diz apenas o que é a palavra, mas será preciso entender de religião para uma observação mais adequada sobre o que tal palavra alcança no universo do sagrado. Só que, para isto, teremos que iniciar uma nova conversa, numa outra ocasião.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
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2 comentários:
pastor....o Senhor não perdeu mesmo o jeito com as palavras; senti-me como estivesse na sala de aula, naqueles nossos calorosos dias de Faculdade teológica.Parabens
Faz falta reflexões assim. Saber escrever e saber dizer o que escreveu é uma arte. Como artista o Senhor sempre soube o que dizia. Ler este artigo é um balsamo para a inteligencia e ainda mais para aqueles que sabem pensar.
Um abraço Jose Luiz
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