prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
A crônica que segue foi publicada pela primeira vez no boletim dominical da Igreja Batista no Jardim Maria do Carmo, em Sorocaba, em 23 de abril de 1995 e novamente no semanário da Igreja Batista em Barão Geraldo em 30 de maio de 2004. Embora os meus leitores sejam poucos, tenho recebido pedidos para publicá-la novamente, e assim dar-lhe uma nova vida, senão no texto, pelo menos na persistência.
O fato é que ninguém imaginava que pé poderia pensar. Afinal, nada mais ridículo que um pé tendo opiniões próprias, visão sobre o mundo, envolvido em rodinhas discutindo política, religião e futebol. Foi então que aconteceu o inesperado. Até para ele foi uma surpresa. Não queria “caminhar” tão longe. Começou com uma fantasia, evoluiu para um sonho, transformou-se numa luta, compôs-se em objetivo de vida, para enfim instaurar-se numa frustração, caminho aberto à neurose, que o desequilibrou a tal ponto de não conhecer-se mais. “Sou necessário, logo o corpo não pode viver sem mim” (silogismo aristotélico). Cansara de ser pé. Queria ser outra coisa qualquer. Quem sabe mão, ou cérebro. Sonhava em comandar o corpo. Sempre reclamava quando aquele o fazia lamear-se, chutar pedra por não estar atento por onde o jogavam. Até parecia ser de propósito, coisa que o pé jamais conseguiu provar, mas não deixou de fazer fofoca sobre isto aos outros membros. Pé também faz fofoca. Foi outra coisa que aprenderam dele, sem dúvida uma surpresa que deu início a um processo sobre o qual o corpo jamais poderia compreender os resultados.
Houve alguém que afirmou ter sido o pé um “bode expiatório”. Todos os membros estavam insatisfeitos fazendo sempre a mesma coisa, na mesma função, com as mesmas características. No levantar da lebre pelo pé, a mão mostrou as suas “asinhas”. Reclamou: “Trabalho tanto !”. De fato: lavava o corpo; consertava o que estava quebrado; coçava a cabeça, o nariz, e ainda “metia a mão” (força de expressão), em “bicho de pé” de um pé pintado pidonho perdido em pó (mão também faz poesia!). Foi na mesma época,que ela lamentou não ser olho. Tentou, mas não conseguiu. Foi por pouco. Faltou o apoio político do braço. Sabe como são as mãos, depois delas, sempre querem o braço! Mas ele não se deixou dobrar. Estava contente com o que fazia. A mão tentava convencê-lo que cansara de trabalhar. Até quando o corpo dormia, a mão não parava. Fosse segurando o cobertor, batendo em pernilongo, ou cobrindo a cabeça, etc., etc., etc.. Não tinha descanso. O que faria ele, o braço, com uma mão em “stress”? Foi em vão! O braço não desejava dar uma mãozinha. Não era sua função. Talvez se lhe oferecessem algo como ser perna. Não que desejasse, mas só para variar um pouquinho. Queria saber por experiência o que significava “bater perna”. Nada de especial, só curiosidade. Experimentar a vida, eis o sentido! O braço também tinha suas fraquezas.
Coitado era mesmo do nariz. Ninguém queria trocar de lugar com ele. O corpo, por azar do destino, era alérgico. Alergia emocional. Deixava o pescoço meio duro, que reclamava de tensão muscular. Com isto quem se dava mal era o nariz. Uma coriza que não parava. Era lenço de um lado, lenço do outro, remédios que se pingava, e nada. Chegara um tempo que estivera assado de tanto espirrar. Ficava vermelho, ninguém soube direito se de doente ou de raiva. “Que coisa mais anti-higiênica” dizia sem ser ouvido. Foi quando a mão reclamou de ajudá-lo e o nariz resolveu entrar em estado de greve: “não respiro,não respiro e não respiro !”. Colocou até uma placa: “Chega de Injustiça”. As letras eram azuis.
No geral, podia-se dizer que era uma luta de classes. Os inferiores, inconformados, queriam ocupar o lugar dos superiores, prepotentes. Diziam sempre que a tragédia dos membros do corpo começara como uma “luta de classes”. Alguém ouviu dizer que começara por um deles que teria aprendido isto em algum lugar. Parece que o olho, sem saber, espiou uma revista no cabeleireiro. Depois de lido, jamais esquecido. Pode-se dizer que não se tratava de consciência política de oprimido. Era quase uma revolta acéfala, tipo terceiro mundo, corpo-a-corpo, ou melhor, membro-a-membro, no princípio com as armas mais primitivas possíveis, e depois, inspirados em Gandhi, a resistência pacífica. Não foi possível saber, no final de tudo, onde e quando tudo começara, ou quem estava com a razão. Razão é um estado relativo, muitas vezes. Está com a razão, quem está com razão, e ponto final. Uma espécie de autoritarismo individualista, como se razão fosse unilateral. Nada mais insuportável que uma orelha autoritária!
A história terminou com um nariz que não respirava. Pernas que não andavam. Mãos que não seguravam. “Cérebro que só queria mandar”, criticava a oposição. Braços que tanto faz,como tanto fizesse, era a mesma coisa. Um pescoço desatento a tudo, envolto com as suas dores.E os olhos? Eram verdes! E foi assim que o corpo, primeiro ficou doente, depois morreu. Nunca mais os membros brigaram.
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Um comentário:
Pr. Natanael (Chefe).
Este artigo sobre o corpo é uma obra prima.
Sua atualidade e verdades transcende ao tempo.
Este blog merece um texto como este.
Um abraço
Jose Luiz/Sorocaba
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