segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Em Busca de Sentido

EM BUSCA DE SENTIDO
Prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva

Vou começar com uma historinha. Estava numa reunião, num grupo de pastores. Não havia assunto proeminente, mas lá pelas tantas o orador iniciou o seu discurso tentando nos convencer sobre a importância do texto bíblico. Num dado momento ele olhou para mim e disse que tem feito a leitura de determinados boletins que sequer mencionam uma passagem das Escrituras. Aquilo, obviamente, e desde então, me tirou o sono. Lembro-me de quando os pregadores utilizavam temas pessoais de seus ouvintes, os quais conhecia e achava relevantes para ser assunto de sermão, e viajei no tempo da tv branco e preto, com perninhas no próprio aparelho, à válvula, lá no tempo da transmissão da copa do mundo com bolinha. Não vou explicar isso, quem é do tempo se lembra. Não cheguei à conclusão de que o assunto era comigo por intuição. Também sei fazer conta. Eliminei os pastores auxiliares que estavam presentes, e não escrevem meditações de boletins. Depois eliminei os pastores das igrejas que não têm boletim. Eliminei também (desculpe a referência), os que não têm condições de escrever. Eliminei as missões, algumas não têm boletim, outras são supervisionadas. Eliminei a igreja do pregador, é claro, porque certamente não falava de si. Eliminei ainda os pastores que não pastoreiam. Eliminei ainda os pastores e igrejas ausentes, porque a probabilidade de que estivesse falando para alguém que não poderia escutá-lo deveria ser mínima. Depois pensei quais as meditações de boletins poderiam merecer alguma atenção, e dentre estas, quais poderiam ser elevadas ao status de receber uma citação no horário nobre do sermão. Somei isso com a referência direta no momento da expressão da fala e, com a probabilidade de uma em dez mil duzentos e vinte nove casos, não tive dúvidas: era comigo.

Há um sentido para tudo. Há também sempre uma tentativa de explicação para qualquer coisa. Pode ser que eu tenha ficado feliz em incomodar: quem não incomoda não é visto. Pode ser que a pessoa tenha feito a leitura errada, já que a pastoral é dirigida para uma comunidade específica, que na sua autonomia, prefere um discurso assim. Pode ser que a pessoa tenha apanhado uma única meditação, numa única vez, e generalizado de forma equivocada. Pode ser que a pessoa entenda que a Bíblia só aparece quando é citada, mas não tem condições de entender os princípios bíblicos que estão num discurso. Isso sem falar nas questões pessoais, conscientes ou não, que contribuíram para que tal julgamento fosse formado. Nesse assunto eu não entro. Tenho juízo. As leituras que buscam um sentido são muitas e estão influenciadas pelo mundo de quem interpreta. Os horizontes das pessoas são diferentes. Olhando pela sacada de meu apartamento, vejo alguns prédios. Se eu nunca tivesse saído de casa, não saberia que a vida não termina no prédio da frente. Cada um enxerga o que pode, e muitas vezes só o que quer.

Não estou escrevendo isso de graça. Para não decepcionar aquele pregador, e para que você também não passe a pensar como ele, estive nessa semana lendo o texto de Neemias. O capítulo 6 traz uma história de erro de interpretação. Sambalate e sua turma desconfiaram da reconstrução dos muros de Jerusalém. Primeiro devem ter esperado para ver se de fato seria possível reconstruí-los. Passada essa primeira etapa, Sambalate enviou mensageiros marcando um encontro com Neemias no vale do Ono, o que este recusou. Fez isso insistentemente. Na quinta vez foi mais preciso, e disse que os judeus haviam se tornado ameaçadores e que ouvira sobre Neemias se tornar o novo rei. Mais que isso, soubera que o próprio Neemias colocara profetas para profetizarem em seu favor, confirmando o seu reinado. É claro que Neemias negou tudo. Entretanto, a sua vida ainda estava ameaçada por aquela interpretação. Como as portas do muro ainda não tinham sido colocadas na muralha, o único lugar de segurança que poderia restar era o templo. Daí entra um outro personagem, Delaías, que tentou convencer Neemias a se esconder lá. Ora, isso representaria a profanação do templo, além de Neemias demonstrar uma extrema insegurança. Caso fizesse isso, os próprios judeus não iriam querê-lo mais. Neemias descobriu depois que Delaías havia sido comprado para fazer isso. Não foi uma guerra com armas, mas com palavras e estava em jogo o imaginário religioso. A história acaba aí. O final do capítulo 6, v. 15 em diante trata de outro assunto. Sambalate estava equivocado, mas certamente morreu com a desconfiança e se pudesse teria acabado com vida de Neemias.

O mundo é feito por interpretações. Em qualquer lugar que a gente se depara com qualquer coisa, estará pensando em como aquilo pode fazer algum sentido. Somamos coisas, julgamos aparências, transigimos fronteiras, mencionamos um olhar, fazemos conta em termos de probabilidade para a compreensão do que de fato está acontecendo. Não podemos evitar isso, pois interpretar é viver, e a vida só acontece quando pode sugerir um sentido, mesmo que a gente nunca saiba direito o que de fato significa. Em alguns casos as emoções se misturam tanto às interpretações que a gente vê tudo com paixão e não consegue enxergar outra coisa. Nem sempre conseguimos ser frios, matemáticos, menos intuitivos. Quando se lida com fé então, aí é quase paixão pura. O mesmo se dá quando se trata de relacionamentos, questões familiares, pessoas feridas e coisas dessa natureza. Os caminhos ficam entrecortados com tantas vielas, que a gente não sabe se está indo ou vindo, descendo ou subindo, sofrendo ou sorrindo.

Já superei a crise do boletim e Sambalate já morreu. Quando isso acontece, até parece que nunca houve nada. Contudo creio que a melhor parte é a gente sempre se perguntar: e se eu estiver errado? Não é uma pergunta pra causar insegurança, mas pra gerar uma pitadinha de humildade. Acho que ajuda muito: faz a gente ler um texto com outros olhos e pode evitar uma guerra.
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Publicado no Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, em 06 de janeiro de 2008.
Rua Luis Vicentim, 284 – Próximo ao Terminal de Ônibus
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Horário de Cultos: Quartas, 20h e Domingos 9h e 19h30min.

4 comentários:

Anônimo disse...

Olá Natanael!
Gostei do texto e uma frase sua me chamou a atenção. Você disse "Pode ser que a pessoa entenda que a Bíblia só aparece quando é citada, mas não tem condições de entender os princípios bíblicos que estão num discurso". Acho que isso acontece muito, infleizmente. Por outro lado, pra nossa felicidade, há muita gente que enxerga a bíblia mesmo quando ela não é citada literalmente. Isso acontece , por exemplo, em meu laboratório da Unicamp, onde em algumas conversas - sem usar "evangeliquês" - meus colegas conseguem perceber alguns preceitos bíblicos e discutem isso comigo. Ainda bem!!
Um abraço.

ANAGO TRIGO disse...

Olá Pastor Natanael (meu pastor de batismo) Saudações em Cristo!

Concordo com o primeiro comentário. A isso, acrescente-se que algumas pessoas desconfiam serem bíblicas algumas de nossas atitudes, pois estas expressam a presença de Cristo em nossas vidas!

ANAGO LOPES TRIGO - Igreja Batista Central em Cajati.

ANAGO TRIGO disse...

Olá Pastor Natanael! (meu pastor de batismo)

Concordo com o primeiro comentário. Acrescente-se a isso o fato de que algumas pessoas desconfiam serem bíblicas algumas de nossas atitudes, pois estas, cor certeza, expressam a presença de Cristo em nós!

ANAGO LOPES TRIGO - I.B.C.C.
18 de março de 2008

Edison disse...

Permaneci minutos procurando fazer em palvras minha interpretação... Melhor permanecer calado... martelo à mão esquerda... espada à mão direita...